Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó.
RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1998.
Num texto narrativo, a sequência dos fatos contribui para a progressão temática. No fragmento, esse processo é indicado pela
A) alternância das pessoas do discurso que determinam o foco narrativo.
B) utilização de formas verbais que marcam tempos narrativos variados.
C) indeterminação dos sujeitos de ações que caracterizam os eventos narrados.
D) justaposição de frases que relacionam semanticamente os acontecimentos narrados.
E) recorrência de expressões adverbiais que organizam temporalmente a narrativa.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Linguística Textual (Coesão e Coerência: Progressão Temática).
- Morfossintaxe (Emprego dos Tempos Verbais).
- Tipologia Textual (Narrativa).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender como a sequência temporal é construída dentro de um texto narrativo. Identificar que, em português, a principal ferramenta para mostrar que “uma coisa aconteceu depois da outra” ou “antes da outra” é a flexão verbal (mudança de tempo do verbo).
Nível da Questão:
Difícil.
Justificativa: O aluno geralmente procura conectivos (“depois”, “logo”) para achar a sequência. Aqui, ele precisa de um conhecimento gramatical mais profundo: perceber que a troca do Pretérito Perfeito para o Mais-que-perfeito ou Imperfeito é o que dita o ritmo e a ordem dos fatos, sem depender de advérbios explícitos.
Gabarito:
Letra B – utilização de formas verbais que marcam tempos narrativos variados.
Resumo: A narrativa avança e recua no tempo através da alternância entre ações pontuais (Pretérito Perfeito: “surrou”), ações contínuas ou simultâneas (Pretérito Imperfeito: “distinguia”) e ações anteriores ao passado (Pretérito Mais-que-perfeito: “ferira”).
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A Missão:
O enunciado pergunta sobre a “sequência dos fatos” e como ela contribui para a “progressão temática”.
Traduzindo: Como sabemos o que aconteceu primeiro, o que aconteceu durante e o que aconteceu por último? Qual é a “pista” gramatical que Graciliano Ramos deixou para organizarmos o filme na nossa cabeça?
A Analogia Central (A Linha de Montagem do Tempo):
Imagine um diretor de cinema gritando “Ação!”.
- Para mostrar algo rápido e acabado, ele usa um corte seco (Pretérito Perfeito).
- Para mostrar algo lento ou repetitivo, ele usa câmera lenta (Pretérito Imperfeito).
- Para mostrar um flashback, ele muda o filtro da cor (Pretérito Mais-que-perfeito).
A questão quer saber qual é a ferramenta de edição do autor.
Nosso Plano de Ataque:
- Identificar os verbos do texto.
- Classificar os tempos verbais (passado acabado, passado inacabado, passado do passado).
- Relacionar essa mistura de tempos com a organização da história.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar a Linha do Tempo Verbal para dissecar o texto:
| Tempo Verbal | Função na Narrativa | Exemplo no Texto |
| Pretérito Perfeito | Ação principal, concluída, que faz a história andar para frente. | “Surrou-me”, “pintou”, “deitaram-me”. |
| Pretérito Imperfeito | Ação durativa, descrição do cenário ou estado no passado. | “Distinguia”, “visitava”. |
| Pretérito Mais-que-perfeito | Flashback rápido (fato anterior a outro passado). Explica a causa. | “Ferira-me” (tinha ferido antes da discussão). |
Conceito-Chave: Progressão Temporal via Verbos.
Em narrativas complexas, não precisamos escrever “e então… e depois…”. A simples troca de surrou (fato) para distinguia (processo) já informa ao leitor a dinâmica da cena.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear a cena narrada por Graciliano Ramos:
- O Fato (Agressão): “minha mãe surrou-me“. (Ponto no tempo. Aconteceu e acabou).
- A Consequência (Sensação): “eu distinguia nas costelas…”. (Duração. Enquanto ele estava ali moído, ele ficava vendo/sentindo os lanhos).
- A Reação (Socorro): “Deitaram-me, enrolaram-me“. (A história anda para frente. Novos fatos).
- O Contexto (Simultaneidade): “Minha avó, que nos visitava“. (Ela já estava lá antes e continuou lá durante a surra).
- A Explicação (O Passado do Passado): “ferira-me à toa”. (O ato de ferir aconteceu antes da discussão da avó).
Perceba que a história não é uma linha reta simples. Ela tem camadas. E quem define essas camadas são os sufixos verbais (-ou, -ia, -ara). É essa alternância que constrói a teia narrativa.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com os conectivos (Alternativa D)!
Muitos alunos procuram por “mas”, “porque”, “portanto” ou pontuação (vírgulas) para explicar a sequência. A alternativa D fala em “justaposição”. Embora existam frases lado a lado, a progressão temporal (saber o que veio antes ou depois) é dada pelo verbo, não pela posição da frase. Se eu dissesse “Minha avó condenou. Minha mãe ferira”, a ordem dos fatos é inversa à ordem das frases (feriu antes de condenar). Só o verbo “ferira” te conta isso.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A cronologia dos eventos é ditada pela mudança nas desinências dos verbos.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que mencione “verbos”, “tempos verbais” ou “flexão verbal”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
a) alternância das pessoas do discurso que determinam o foco narrativo.
- Diagnóstico do Erro: Fato Inexistente.
- Análise: O foco narrativo é fixo em 1ª pessoa (“surrou-me”, “eu distinguia”, “minha mãe”). Não há alternância para 3ª pessoa (narrador onisciente) ou troca de narradores.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
b) utilização de formas verbais que marcam tempos narrativos variados.
- Análise: Perfeito. A narrativa é tecida pela mistura técnica de Pretérito Perfeito (ação), Imperfeito (descrição/duração) e Mais-que-perfeito (anterioridade). É isso que dá profundidade e sequência aos fatos sem precisar de um calendário.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
c) indeterminação dos sujeitos de ações que caracterizam os eventos narrados.
- Diagnóstico do Erro: Contradição.
- Análise: Os sujeitos são claríssimos: “minha mãe” (surrou), “eu” (distinguia), “minha avó” (condenou), “o nó” (era culpado). A única indeterminação é “deitaram-me”, mas isso é um detalhe, não o mecanismo de progressão do texto todo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
d) justaposição de frases que relacionam semanticamente os acontecimentos narrados.
- Diagnóstico do Erro: Análise Superficial.
- Análise: Justaposição é colocar orações lado a lado sem conectivos. Isso acontece, mas não é o principal fator de progressão temporal. Você pode justapor frases sem indicar tempo. O que marca a evolução da cena (antes/durante/depois) é o tempo verbal.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
e) recorrência de expressões adverbiais que organizam temporalmente a narrativa.
- Diagnóstico do Erro: Falta de Evidência.
- Análise: O texto é pobre em marcadores temporais explícitos (como “ontem”, “duas horas depois”, “na manhã seguinte”). Ele começa com “Certa vez”, mas depois depende quase inteiramente dos verbos para situar o leitor no tempo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
O verbo é o relógio do texto. Quem domina os tempos verbais não precisa de calendário para contar uma história.
Resumo-flash: ⚡
“O ‘surrou’ conta o fato, o ‘distinguia’ pinta a cena, o ‘ferira’ lembra o passado: o verbo é a máquina do tempo.”
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esta questão toca no coração da literatura de Memórias. Graciliano Ramos, em Infância, usa o Pretérito Imperfeito (“distinguia”) para mostrar que a dor daquela surra não foi um ponto único, mas algo que se estendeu na memória. Em redações narrativas, saber misturar Perfeito e Imperfeito é o que diferencia uma lista de compras de uma história envolvente.