TEXTO I
Os segredos da natureza se revelam mais sob a tortura dos experimentos do que no seu curso natural.
BACON, F. Novum Organum, 1620. In: HADOT, P. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da ideia de natureza. São Paulo: Loyola, 2006.
TEXTO II
O ser humano, totalmente desintegrado do todo, não percebe mais as relações de equilíbrio da natureza. Age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente, causando grandes desequilíbrios ambientais.
GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 1995.
Os textos indicam uma relação da sociedade diante da natureza caracterizada pela
A) objetificação do espaço físico.
B) retomada do modelo criacionista.
C) recuperação do legado ancestral.
D) infalibilidade do método científico.
E) formação da cosmovisão holística.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia Moderna (Empirismo e Francis Bacon).
Sociologia/Geografia (Relação Homem-Natureza e Meio Ambiente).
História da Ciência (Revolução Científica).
Tema/Objetivo Geral
Identificar a mudança de mentalidade ocorrida na Modernidade, onde a natureza deixou de ser vista como algo sagrado ou harmonioso e passou a ser vista como um objeto inerte para ser explorado pela ciência e pela indústria.
Nível da Questão
Médio.
Exige que o aluno conecte uma frase metafórica do século XVII (“tortura dos experimentos”) com uma crítica ecológica atual, encontrando o conceito filosófico que une as duas: a Objetificação.
Gabarito
Letra A.
A alternativa está correta pois ambos os textos descrevem uma relação de separação e domínio: o homem se coloca como o sujeito (quem manda) e rebaixa a natureza à condição de objeto (coisa a ser usada/torturada).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão coloca lado a lado o “pai” do método experimental (Francis Bacon) e uma crítica ambiental moderna. Ela quer saber: Qual é a atitude mental que permite ao homem destruir o meio ambiente sem sentir culpa? Como passamos a ver a natureza?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine a diferença entre um Pet (Animal de Estimação) e uma Máquina de Lavar.
- O Pet você respeita, cuida e convive (relação harmônica/integrada).
- A Máquina você abre, desmonta, chuta se não funcionar e usa até quebrar (relação instrumental).
O Texto I diz que devemos tratar a natureza como a Máquina (torturá-la para saber como funciona). O Texto II diz que, por tratarmos a natureza como máquina, causamos o caos ambiental.
O verdadeiro desafio aqui é encontrar o nome técnico para “transformar algo vivo em uma coisa/máquina”. Esse nome é Objetificação.
Plano de Ataque:
- Analisar o Texto I: “Tortura dos experimentos”. Bacon diz que precisamos forçar a natureza a nos dar respostas. Violência racional.
- Analisar o Texto II: “Desintegrado do todo”. O homem se separou da natureza.
- Concluir: Se eu me separo e uso violência, eu transformei o outro em um Objeto.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos abrir o Dossiê da Revolução Científica (Séc. XVII).
Francis Bacon é famoso pela frase: “Saber é Poder”.
Para ele e para Descartes, a filosofia antiga errou ao apenas “contemplar” a natureza. O homem moderno deveria se tornar “Senhor e Possuidor da Natureza”.
A Virada Mecanicista:
- Antes (Antigos/Medievais): A natureza tem alma, é sagrada, é um organismo vivo.
- Depois (Modernos – Bacon/Descartes): A natureza é matéria morta, um relógio gigante, um mecanismo.
- Consequência: Se é matéria morta (Objeto), não tem direitos. Posso explorar, furar, queimar e cortar (Bacon chama isso de “tortura dos experimentos”) para extrair riqueza e conhecimento.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar os textos:
- Texto I (O Agente): Bacon sugere que a natureza esconde segredos e só os entrega sob pressão (“tortura”). Isso estabelece uma hierarquia: Homem (Superior) vs. Natureza (Inferior/Submissa).
- Texto II (A Consequência): Guimarães diz que o homem está “desintegrado do todo”. Ele não se vê mais como parte do ecossistema. Ele age “de forma desarmônica”.
Se juntarmos os dois: O homem moderno olha para uma floresta e não vê “vida” ou “lar”; ele vê “madeira” e “recurso”.
Ele transformou o espaço físico em uma mercadoria ou em um laboratório.
Isso é a definição clássica de Objetificação: tirar a subjetividade (vida/alma) e transformar em Objeto (coisa).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! Ao ler o Texto II (“desequilíbrios ambientais”), o aluno tende a procurar alternativas sobre “poluição” ou “fim do mundo”. Mas a questão é mais profunda: ela quer a causa filosófica do problema. A causa não é a poluição em si, é a mentalidade de que a natureza é uma “coisa” (objeto) que pode ser usada sem limites.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A ciência moderna (Texto I) ensinou a ver a natureza como coisa/recurso. A crítica atual (Texto II) mostra que isso gerou desequilíbrio. O traço comum é a visão da natureza como coisa.
- Expectativa: A alternativa deve conter palavras como “Coisificação”, “Instrumentalização” ou “Objetificação”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) objetificação do espaço físico.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Análise:
- Objetificação: Tornar objeto.
- Espaço físico: A natureza/ambiente.
- Bacon propõe tratar a natureza como objeto de estudo (experimento), e Guimarães critica que a tratamos como objeto de uso, esquecendo o equilíbrio. É a descrição filosófica exata da relação moderna Homem-Natureza.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
B) retomada do modelo criacionista.
- Diagnóstico do Erro: Oposto da História.
- Análise: O modelo criacionista (religioso) via a natureza como obra divina. Bacon e a ciência moderna afastaram a explicação divina para focar nas causas físicas e mecânicas. Bacon propõe a ciência, não a religião.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) recuperação do legado ancestral.
- Diagnóstico do Erro: Contradição com o Texto II.
- Análise: O legado ancestral (indígena, por exemplo) geralmente vê o homem como parte da natureza (mãe terra). O Texto II diz que o homem está “desintegrado” e “desarmônico”. Ou seja, ele perdeu o legado ancestral, não o recuperou.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) infalibilidade do método científico.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Errada da Crítica.
- Análise: O Texto II diz que essa postura causa “grandes desequilíbrios ambientais”. Se causa desastre, não é infalível (perfeito). Pelo contrário, o texto sugere que a ciência/técnica falhou em proteger a vida.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) formação da cosmovisão holística.
- Diagnóstico do Erro: Antônimo Conceitual.
- Análise:
- Holística: Visão do todo (Holos), onde tudo está conectado.
- Texto II: Diz explicitamente “totalmente desintegrado do todo”.
- A visão moderna é fragmentada, não holística.
- 🔄 ENGENHARIA REVERSA: Esta alternativa estaria correta se o Texto II dissesse: “Felizmente, a sociedade atual está reaprendendo que cada ação humana afeta o todo, buscando uma reintegração com os ciclos naturais…”
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A mentalidade inaugurada por Bacon transformou a natureza de “Mãe Sagrada” em “Objeto de Laboratório”, promovendo a objetificação do espaço físico que permitiu o progresso tecnológico, mas cobrou o preço do desastre ecológico.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Para a Ciência Moderna, a Natureza não é um Templo, é uma Oficina.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer).
Eles criticaram essa visão de Bacon no livro Dialética do Esclarecimento. Eles chamam isso de Razão Instrumental: a razão deixou de servir para nos libertar e passou a servir apenas para dominar (dominar a natureza e, depois, dominar outros seres humanos). O desmatamento e a guerra são filhos dessa mesma mentalidade de objetificação.