Penso que não há um sujeito soberano, fundador, uma forma universal de sujeito que poderíamos encontrar em todos os lugares. Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui através das práticas de sujeição ou, de maneira mais autônoma, através de práticas de liberação, de liberdade, como na Antiguidade — a partir, obviamente, de um certo número de regras, de estilos, que podemos encontrar no meio cultural.
FOUCAULT, M. Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
O texto aponta que a subjetivação se efetiva numa dimensão
A) legal, pautada em preceitos jurídicos.
B) racional, baseada em pressupostos lógicos.
C) contingencial, processada em interações sociais.
D) transcendental, efetivada em princípios religiosos.
E) essencial, fundamentada em parâmetros substancialistas.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia Contemporânea (Pós-Estruturalismo e Michel Foucault).
Sociologia (Indivíduo e Sociedade).
Psicologia Social (Subjetividade).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a crítica de Foucault à ideia de um “Eu” fixo e imutável. Entender que o que somos (nossa subjetividade) é construído pela história e pela cultura, não algo que nasce pronto.
Nível da Questão
Difícil.
Exige vocabulário filosófico avançado. O aluno precisa saber o significado de termos opostos como “Universal/Essencial” versus “Contingencial/Histórico”. Se não souber o que é contingência, a questão trava.
Gabarito
Letra C.
A alternativa está correta pois “contingencial” significa algo que depende do contexto, do acaso e das circunstâncias. Para Foucault, o sujeito não nasce pronto (essência); ele é fabricado pelas interações sociais e práticas culturais de cada época.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber como Foucault enxerga a fabricação da nossa personalidade (subjetividade). Ele acha que todo ser humano nasce com uma “alma” igual e fixa (como uma forma de bolo)? Ou ele acha que somos moldados pelo tempo, pelo lugar e pelas regras da sociedade onde vivemos?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine a diferença entre um Diamante e uma Massinha de Modelar.
- Visão Clássica (Descartes/Kant): O sujeito é um Diamante. Duro, imutável, eterno. A razão é a mesma em qualquer lugar.
- Visão de Foucault: O sujeito é uma Massinha de Modelar. Ele não tem forma própria. Ele ganha a forma que a sociedade (as mãos) aperta. Se apertar de um jeito, vira um guerreiro grego; se apertar de outro, vira um monge medieval; de outro, um empresário moderno.
O verdadeiro desafio aqui é associar essa “plasticidade” ou dependência do contexto à palavra difícil “Contingencial”.
Plano de Ataque:
- Identificar o que Foucault nega: Ele diz “NÃO há um sujeito soberano… universal”. (Adeus, Diamante).
- Identificar o que Foucault afirma: O sujeito se constitui através de “práticas” e “meio cultural”. (Olá, Massinha).
- Traduzir: Se depende do meio, não é fixo. É variável. É contingente.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos abrir o Dicionário de Filosófês Avançado.
Para resolver essa questão, precisamos dominar a briga entre Essência e Contingência.
| ESSENCIAL / UNIVERSAL | CONTINGENCIAL / HISTÓRICO |
| O que é: Algo que tem que ser assim. Não muda nunca. | O que é: Algo que aconteceu de ser assim, mas poderia ser diferente. Depende do acaso e do contexto. |
| Exemplo: “Todo ser humano é racional.” (Descartes) | Exemplo: “O conceito de loucura mudou do século 17 para o 20.” (Foucault) |
| Visão do Sujeito: O “Eu” nasce pronto. | Visão do Sujeito: O “Eu” é construído pelas relações de poder. |
Conceito-Chave: Subjetivação.
Para Foucault, não somos sujeitos; nós nos tornamos sujeitos.
Como? Através das Práticas de Sujeição (obedecer regras, ir à escola, trabalhar) e Práticas de Si (cuidar do corpo, fazer terapia, meditar). Tudo isso vem de fora (sociedade) para dentro.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o texto:
- “Não há um sujeito soberano… universal”: Foucault está matando a ideia de que existe uma “natureza humana” fixa. Ele nega a alternativa (E) aqui mesmo.
- “O sujeito se constitui através das práticas”: O verbo é “constituir” (fazer, formar). Nós somos um efeito das práticas, não a causa delas.
- “Encontrar no meio cultural”: Aqui está a chave. Se eu nasço na Grécia Antiga, meu “Eu” é um. Se eu nasço no Brasil de 2024, meu “Eu” é outro.
Síntese:
Se o meu “Eu” depende das regras e estilos do meu tempo, então meu “Eu” é variável.
Na filosofia, aquilo que é variável e depende das circunstâncias chama-se Contingente.
A subjetivação é um processo social, não um dado biológico ou divino.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode se confundir com a palavra “Autônoma” no texto (“práticas de liberação, de maneira mais autônoma”). Isso pode levar a pensar em “Racional” (opção B) ou “Individualismo”.
Mas calma! Foucault diz que mesmo a autonomia é construída a partir de “regras que podemos encontrar no meio cultural”. Ou seja, até para ser livre, eu uso as ferramentas que a minha cultura me dá. Eu não invento a liberdade do nada; eu a construo socialmente.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O sujeito é fabricado pela história e cultura (interações sociais). Não é fixo, logo é contingente.
- Expectativa: A alternativa deve conter palavras como “social”, “histórico”, “construção” ou “contingencial”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) legal, pautada em preceitos jurídicos.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo.
- Análise: As leis fazem parte das “práticas de sujeição”, sim. Mas Foucault fala de algo muito mais amplo: “estilos”, “meio cultural”, “práticas de liberdade”. A lei é apenas uma pecinha do quebra-cabeça social, não o todo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) racional, baseada em pressupostos lógicos.
- Diagnóstico do Erro: Oposição Filosófica (Cartesianismo).
- Análise: Essa é a visão de Descartes (“Penso, logo existo”). Foucault critica exatamente isso no início do texto (“Não há um sujeito soberano”). Para Foucault, somos feitos de poder, desejo e história, não apenas de lógica fria.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) contingencial, processada em interações sociais.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Análise:
- Contingencial: Que não é fixo/eterno; que muda conforme o tempo e o lugar.
- Processada em interações sociais: “Constitui-se através das práticas… no meio cultural”.
- Foucault é um construcionista social: somos o resultado das forças que agem sobre nós na sociedade.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) transcendental, efetivada em princípios religiosos.
- Diagnóstico do Erro: Vocabulário Kantiano/Religioso.
- Análise: Transcendental é aquilo que está acima da experiência, fora da história (como a alma imortal). Foucault é um materialista histórico: ele olha para as práticas concretas aqui na Terra, não para o céu ou para o espírito puro.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) essencial, fundamentada em parâmetros substancialistas.
- Diagnóstico do Erro: Antônimo Perfeito (A Maior Armadilha).
- Análise: “Essencial” e “Substancialista” significam que existe uma “substância” fixa que nos define (uma Alma, uma Razão Universal). Foucault começa o texto negando isso (“Penso que não há um sujeito… fundador”).
- 🔄 ENGENHARIA REVERSA: Esta alternativa estaria correta se a questão fosse sobre Platão (Mundo das Ideias/Essências) ou Descartes (Res Cogitans/Substância Pensante). Eles acreditavam que existe um “Eu” verdadeiro e imutável por trás de tudo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Para Michel Foucault, o sujeito não é uma estátua de mármore (essência fixa), mas um mosaico em constante montagem (contingência), cujas peças são fornecidas pelas interações sociais e práticas de poder de cada época.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Eu não nasço Eu; a sociedade me fabrica Eu.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com as Redes Sociais.
Hoje, como construímos nossa subjetividade? Através de likes, filtros de Instagram e tendências do TikTok. Foucault diria que essas são as novas “tecnologias de si” e “práticas de sujeição”. Nós nos moldamos para caber no algoritmo. Nossa identidade é totalmente contingencial (depende da trend do momento).