A arte pré-histórica africana foi incontestavelmente um veículo de mensagens pedagógicas e sociais. Os San, que constituem hoje o povo mais próximo da realidade das representações rupestres, afirmam que seus antepassados lhes explicaram sua visão do mundo a partir desse gigantesco livro de imagens que são as galerias. A educação dos povos que desconhecem a escrita está baseada sobretudo na imagem e no som, no audiovisual.
KI-ZERBO, J. A arte pré-histórica africana. In: KI-ZERBO, J. (Org.) História geral da África,
I: metodologia e pré-história da África. Brasília: Unesco, 2010.
De acordo com o texto, a arte mencionada é importante para os povos que a cultivam por colaborar para o(a):
A) transmissão dos saberes acumulados.
B) expansão da propriedade individual.
C) ruptura da disciplina hierárquica.
D) surgimento dos laços familiares.
E) rejeição de práticas exógenas.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Antropologia (Transmissão Cultural, Saberes Tradicionais)
- História da Arte (Arte Rupestre)
- Interpretação de Texto
- Tema/Objetivo Geral: Compreender a função da arte pré-histórica como um sistema de transmissão e preservação de conhecimentos e visões de mundo em sociedades sem escrita.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela leitura direta de uma frase-chave no texto: as pinturas rupestres são um “gigantesco livro de imagens” que transmite “conhecimentos acumulados” e “visão de mundo” dos antepassados. A resposta é uma paráfrase dessa ideia.
- Gabarito: A
- A alternativa está correta porque o texto explicitamente afirma que a arte pré-histórica funciona como um “gigantesco livro de imagens” e que a educação, para povos sem escrita, baseia-se em “imagem e som”. Isso aponta diretamente para a função de transmissão dos saberes acumulados entre gerações.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que a arte dos povos antigos era como um livro. O que essa arte fazia por eles, especialmente para quem não sabia escrever?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um povo antigo que não inventou o alfabeto. Como eles iriam contar suas histórias, ensinar suas leis, compartilhar suas descobertas sobre plantas medicinais ou seus mitos sobre a criação do mundo? Eles não escreviam em papel. Eles escreviam nas paredes das cavernas. A arte rupestre era o seu livro de memórias, seu manual de instruções e sua biblioteca de mitos, tudo em um só. A questão nos pede para identificar essa função de “biblioteca visual”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar o Problema: Qual era o grande desafio para esses povos sem escrita?
- Identificar a Solução: Qual era a principal ferramenta que eles usavam para superar esse desafio?
- Analisar a Função da Ferramenta: Como essa ferramenta funcionava para transmitir informações?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve essa função de transmissão de conhecimento.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê Forense sobre a “Tecnologia da Memória” utilizada pelos povos pré-históricos. Ele nos ajudará a entender a função da arte quando não existe a escrita.
DOSSIÊ: O LIVRO DE IMAGENS (A TECNOLOGIA DA MEMÓRIA SEM ESCRITA)
- O DESAFIO (O Problema a ser Resolvido):
- Como uma sociedade pode armazenar e passar seu conhecimento (história, crenças, técnicas) para as próximas gerações se ela não possui um sistema de escrita? Como criar uma “biblioteca” sem livros?
- A SOLUÇÃO (A “Tecnologia” Utilizada):
- O texto a descreve como um “veículo de mensagens pedagógicas e sociais”. A tecnologia é a própria arte, especificamente a comunicação audiovisual (“imagem e no som”).
- O MECANISMO DE AÇÃO (Como Funciona):
- As paredes das cavernas e as rochas são transformadas em um “gigantesco livro de imagens”.
- Cada imagem ou sequência de imagens funciona como uma “página” que codifica uma informação, uma história ou um ensinamento.
- A FUNÇÃO (O Propósito Final):
- Educação: A arte é a principal ferramenta de “educação dos povos que desconhecem a escrita”.
- Preservação: Ela permite que a “visão do mundo” dos “antepassados” seja explicada e passada adiante, garantindo a continuidade da cultura.
Conclusão Forense: O dossiê revela que a arte rupestre não é mera decoração. É uma tecnologia social sofisticada, um sistema de armazenamento e comunicação projetado para um propósito claro: a transmissão dos saberes acumulados de uma geração para outra.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso dossiê já nos deu a resposta. O texto é explícito sobre a função da arte em sociedades sem escrita.
- “A arte pré-histórica africana foi incontestavelmente um veículo de mensagens pedagógicas e sociais.” (Função educativa e social).
- Os San “explicaram sua visão de mundo a partir desse gigantesco livro de imagens”. (O que é transmitir saberes?).
- “A educação dos povos que desconhecem a escrita está baseada sobretudo na imagem e no som“. (A arte visual é a base da educação).
Essas frases são a confirmação: a arte é o meio pelo qual o conhecimento é passado adiante.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que, na ausência de escrita, a arte visual (pinturas) se torna o principal veículo para transmitir conhecimentos, histórias e visões de mundo através das gerações.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa função de transmissão de saberes.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) transmissão dos saberes acumulados.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. O texto descreve a arte como um “gigantesco livro de imagens” que ensina a “visão de mundo dos antepassados” e é a base da educação sem escrita. Tudo isso aponta para a função de transmitir o conhecimento adquirido ao longo do tempo.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- B) expansão da propriedade individual.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “arte” com “cultura” e generaliza para outros aspectos sociais.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não fala nada sobre propriedade privada ou individual.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) ruptura da disciplina hierárquica.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em arte como uma forma de protesto social.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto descreve a arte como um meio de educação e transmissão de conhecimento, não como uma ferramenta de revolta social ou de questionamento hierárquico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) surgimento dos laços familiares.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “ancestrais” com “família”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo e Fuga ao Tema. Embora a arte possa reforçar laços familiares, o texto não foca nisso. A transmissão é mais ampla, de “saberes acumulados” para toda a comunidade, não apenas para a família nuclear.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) rejeição de práticas exógenas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em preservação cultural contra influências externas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona nada sobre rejeitar influências externas. Ele foca na função interna da arte como meio de educação e transmissão de saberes.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta. Este caso ilustra como, em qualquer sociedade, a forma de transmitir conhecimento é tão importante quanto o conhecimento em si. A arte rupestre, uma solução engenhosa para o problema da memória sem escrita, é um testemunho da criatividade humana.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A caverna era a biblioteca, e as pinturas, os livros.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de transmitir conhecimento acumulado através de suportes visuais e simbólicos é a base da Educação Visual e da Arquitetura Simbólica. Pense nas catedrais góticas medievais. Sem a Bíblia impressa para todos, as catedrais eram “Bíblias em pedra” para os fiéis. Esculturas, vitrais e a própria estrutura do edifício transmitiam as histórias bíblicas, os dogmas e os valores cristãos para uma população em grande parte analfabeta. A arte rupestre africana e as catedrais medievais são exemplos em escalas e tempos diferentes, mas com propósitos análogos: usar a imagem para ensinar, para preservar e para transmitir um universo de saberes.