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Questão 53, caderno azul ENEM 2020

“Devo estar chegando perto do centro da Terra. Deixe ver: deve ter sido mais de seis mil quilômetros, por aí…” (como se vê, Alice tinha aprendido uma porção de coisas desse tipo na escola, e embora essa não fosse uma oportunidade lá muito boa de demonstrar conhecimentos, já que não havia ninguém por perto para escutá-la, em todo caso era bom praticar um pouco) “… sim, deve ser mais ou menos essa a distância… mas então qual seria a latitude ou longitude em que estou?” (Alice não tinha a menor ideia do que fosse latitude ou longitude, mas achou que eram palavras muito imponentes).

CARROLL, L. Aventuras de Alice: no País das Maravilhas, Através do espelho e outros textos.
São Paulo: Summus, 1980.

O texto descreve uma confusão da personagem em relação:

A)  ao tipo de projeção cartográfica.

B)  aos contornos dos fusos horários.

C)  à localização do norte magnético.

D)  aos referenciais de posição relativa.

E)  às distorções das formas continentais.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Geografia Geral (Coordenadas Geográficas: Latitude e Longitude)
    • Interpretação de Texto Literário
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar um trecho literário para identificar a confusão de uma personagem em relação ao uso e à aplicação de conceitos geográficos fundamentais (latitude e longitude).
  • Nível da Questão: Fácil.
    • A questão se resolve pela compreensão básica do que são latitude e longitude. Sabendo que essas coordenadas servem para localizar pontos na superfície da Terra, o erro de Alice ao tentar aplicá-las ao centro do planeta se torna evidente.
  • Gabarito: D
    • A alternativa está correta porque a confusão de Alice reside em seu desconhecimento sobre o funcionamento dos referenciais de posição (latitude e longitude). Ela os trata como medidas absolutas de espaço, quando, na verdade, são coordenadas que só fazem sentido para localizar pontos relativos à grade imaginária da superfície terrestre (Equador e Greenwich).

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Alice está caindo num buraco e tenta usar palavras chiques da aula de geografia, como ‘latitude’ e ‘longitude’, para descrever sua posição. O texto nos diz que ela não faz a menor ideia do que essas palavras significam. A confusão dela é sobre qual conceito geográfico exatamente?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que alguém aprendeu as palavras “endereço” e “número do apartamento”, mas não entendeu como elas funcionam. Ao mergulhar no fundo de uma piscina, a pessoa se pergunta: “Qual será o endereço e o número do apartamento aqui no fundo?”. A confusão dela é óbvia: endereço e número de apartamento são referenciais de posição que só funcionam na superfície, para localizar casas em uma cidade, e não pontos dentro de uma piscina. Alice está cometendo o mesmo erro, mas com o planeta Terra em vez da piscina.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar a Ação de Alice: Onde Alice está e o que ela está tentando fazer?
  • Identificar as Ferramentas Usadas: Quais são os conceitos geográficos que ela tenta aplicar?
  • Diagnosticar o Erro: Por que a aplicação dessas ferramentas na situação dela está errada?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve a natureza do erro de Alice.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa: O Conhecimento de Alice vs. A Realidade Geográfica. Ela vai nos ajudar a diagnosticar o “crime conceitual” cometido pela personagem.

Conceito GeográficoA Interpretação de Alice (O “Crime”)A Definição Correta (A “Lei”)
Distância ao Centro da TerraEla estima uma distância (“mais de seis mil quilômetros”) e acha que isso é relevante para a sua localização geográfica.É uma medida de profundidade, usada em Geologia. Não tem relação com o sistema de coordenadas geográficas.
LatitudeEla se pergunta qual seria sua latitude perto do centro da Terra. Ela acha que é uma palavra “imponente” para localização em qualquer lugar.É um referencial de posição que mede a distância (em graus) de um ponto ao Norte ou ao Sul da Linha do Equador, na SUPERFÍCIE do planeta.
LongitudeEla se pergunta qual seria sua longitude perto do centro da Terra. Também a vê como uma palavra “imponente” para qualquer tipo de localização.É um referencial de posição que mede a distância (em graus) de um ponto a Leste ou a Oeste do Meridiano de Greenwich, na SUPERFÍCIE do planeta.

Conclusão Forense: A tabela mostra que a confusão de Alice não é sobre um detalhe, mas sobre a natureza fundamental dos conceitos. Ela trata “latitude” e “longitude” como se fossem medidas de espaço tridimensional, aplicáveis em qualquer lugar, quando, na verdade, eles são um sistema de referenciais de posição projetado exclusivamente para a superfície bidimensional do globo.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa tabela já diagnosticou o erro. O texto mostra a confusão de Alice de forma explícita:

  • Primeiro, ela tenta aplicar um conhecimento escolar (“deve ter sido mais de seis mil quilômetros”), mostrando que ela tem informações, mas não sabe como usá-las.
  • Depois, ela joga as palavras “latitude” e “longitude”, mas o narrador nos conta o segredo: “Alice não tinha a menor ideia do que fosse latitude ou longitude, mas achou que eram palavras muito imponentes”.

A confusão dela não é sobre um detalhe, mas sobre a natureza fundamental do sistema de coordenadas geográficas. Ela não entende o que são e para que servem os referenciais de posição.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha aqui é se distrair com outros conceitos geográficos listados nas alternativas, como “projeção cartográfica” (A) ou “fusos horários” (B). Embora sejam todos termos de geografia, o texto é muito específico ao mencionar apenas “latitude” e “longitude”. O erro é não se ater às pistas exatas fornecidas no depoimento de Alice.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que Alice usa de forma incorreta os conceitos de latitude e longitude, que são as ferramentas para definir a posição na superfície da Terra.
  • Expectativa: A alternativa correta deve se referir a esses conceitos como referenciais de posição.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) ao tipo de projeção cartográfica.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “geografia” com “mapas”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Projeções cartográficas (como Mercator ou Peters) são métodos para desenhar o mapa-múndi em uma superfície plana. O texto não fala sobre mapas.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) aos contornos dos fusos horários.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “longitude” com “fuso horário”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a longitude seja a base para os fusos horários, o conceito de fuso horário em si (a divisão do tempo) não é mencionado nem relevant no questionamento de Alice.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) à localização do norte magnético.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra forma de orientação na Terra.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O norte magnético se refere à orientação por bússola, baseada no campo magnético da Terra. O texto não faz nenhuma alusão a isso.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) aos referenciais de posição relativa.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Referenciais de posição” é o termo técnico que engloba a latitude e a longitude. A confusão de Alice é exatamente sobre como usar esses referenciais.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • E) às distorções das formas continentais.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato volta a pensar em mapas.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Assim como a alternativa A, isso se refere a um problema de cartografia (mapas), e não ao sistema de coordenadas em si.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. Este caso ilustra, com o humor de Lewis Carroll, um fenômeno comum na aprendizagem: a capacidade de memorizar termos técnicos sem, de fato, compreender seu significado ou contexto de aplicação.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Alice decorou o nome das ferramentas, mas tentou usar um GPS para navegar dentro de um submarino.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar referenciais de posição relativa para definir uma localização é fundamental na Química, para descrever a posição de substituintes em moléculas. Em um anel benzênico, por exemplo, não basta dizer que há um “cloro”. É preciso dizer onde ele está em relação a outro grupo. Para isso, usamos os referenciais orto, meta e para. Essas palavras, assim como “latitude e longitude”, não têm um significado absoluto; elas são referenciais de posição relativa que só fazem sentido dentro da “grade” da molécula. A lógica para localizar um átomo em uma molécula é a mesma para localizar uma cidade em um planeta.

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