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Questão 55, caderno azul ENEM 2020

Será que as coisas lhe pareceriam diferentes se, de fato, todas elas existissem apenas na sua mente — se tudo o que você julgasse ser o mundo externo real fosse apenas um sonho ou alucinação gigante, de que você jamais fosse despertar? Se assim fosse, então é claro que você nunca poderia despertar, como faz quando sonha, pois significaria que não há mundo “real” no qual despertar. Logo, não seria exatamente igual a um sonho ou alucinação normal.

NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

O texto confere visibilidade a uma doutrina filosófica contemporânea conhecida como:

A) Personalismo, que vincula a realidade circundante aos domínios do pessoal.
B) Falsificacionismo, que estabelece ciclos de problemas para refutar uma conjectura.
C) Falibilismo, que rejeita mecanismos mentais para sustentar uma crença inequívoca.
D) Idealismo, que nega a existência de objetos independentemente do trabalho cognoscente.
E) Solipsismo, que reconhece limitações cognitivas para compreender uma experiência compartilhada.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Filosofia (Metafísica, Epistemologia)
    • História da Filosofia (Idealismo, Solipsismo, Ceticismo)
    • Interpretação de Texto Filosófico
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar um argumento filosófico cético sobre a natureza da realidade para identificar a doutrina filosófica correspondente (Solipsismo).
  • Nível da Questão: Difícil.
    • A questão é um desafio de precisão conceitual em filosofia. A distinção entre Idealismo (D) e Solipsismo (E) é extremamente sutil. O candidato precisa prestar atenção máxima ao ponto de vista do texto — a ênfase no “eu” individual — para fazer a escolha correta.
  • Gabarito: E
    • A alternativa está correta porque o texto constrói seu argumento inteiramente em torno da perspectiva individual e intransferível (“sua mente”, “você jamais fosse despertar”). Essa ênfase radical na centralidade do “eu” como a única coisa cognoscível, e a consequente dúvida sobre a existência de qualquer realidade externa ou “experiência compartilhada”, é a tese fundamental do Solipsismo.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto nos apresenta um quebra-cabeça mental: e se o mundo que você vê, ouve e toca não existir de verdade fora da sua cabeça? E se tudo for apenas um sonho seu? A qual ‘ismo’, a qual doutrina filosófica, esse tipo de questionamento radicalmente individual pertence?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você é a única pessoa jogando um videogame de realidade virtual ultra-realista. Dentro do jogo, existem outros “personagens” que parecem ter consciência, mas você não tem como provar. Eles podem ser apenas NPCs (personagens não-jogáveis) programados. A dúvida do Solipsismo é: como você pode ter 100% de certeza de que o mundo real não é assim? Que apenas a sua consciência é real, e todo o resto, incluindo as outras pessoas, é apenas parte da sua simulação particular? A questão nos pede o nome filosófico para essa dúvida radical centrada no “eu”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Isolar a Hipótese Central: Qual é a principal suposição que o texto nos pede para considerar?
  • Analisar o Ponto de Vista: A dúvida é sobre a mente em geral ou sobre a sua mente em particular?
  • Conectar com a Filosofia: Vamos usar uma imagem e um dossiê para encontrar o nome dessa doutrina centrada no “eu”.
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada “ismo” das alternativas para ver qual deles corresponde à hipótese do texto.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê sobre o “Crime” Filosófico em questão, com foco na distinção entre os principais suspeitos.

DOSSIÊ: O MUNDO NA MINHA MENTE

  • A Hipótese Central do Texto: “E se todas as coisas existissem apenas na sua mente?”
  • A Pista-Chave (Ponto de Vista): O texto usa repetidamente a segunda pessoa (“sua mente”, “você julgasse”, “você nunca poderia despertar”), forçando o leitor a adotar uma perspectiva radicalmente individual.
  • O Nome da Doutrina: SOLIPSISMO.
  • Definição: (Do latim solus, “só”, e ipse, “ele mesmo”). É a teoria filosófica de que apenas o eu e suas experiências mentais podem ser comprovados como existentes. Todo o resto (o mundo externo, outras mentes) é incognoscível ou pode não existir.
  • Relação com o Texto: O texto descreve perfeitamente a premissa solipsista. Se tudo é um sonho seu, não há como provar a existência de um mundo fora desse sonho. Consequentemente, a ideia de uma “experiência compartilhada” se torna impossível de verificar, uma limitação cognitiva fundamental.

Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para visualizar a essência da nossa análise, tornando a ideia central clara e impactante:

(O Desenho Inacabado: Uma Metáfora do Solipsismo)
Esta imagem utiliza a metáfora do “desenho inacabado” para explicar o Solipsismo de forma didática. Ao mostrar uma realidade que é vibrante e sólida apenas no centro da visão do observador, mas que se desfaz em meros rabiscos e papel em branco nas bordas, a ilustração demonstra a ideia de que o mundo não possui uma existência independente e completa. Ele depende inteiramente da mente do sujeito para ser “desenhado” e existir, materializando a dúvida do texto sobre a realidade ser apenas uma criação interna.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossas ferramentas já nos deram o nome do suspeito: Solipsismo.

  • O experimento mental de Nagel é construído para ser pessoal. A força do argumento está em aplicá-lo a si mesmo.
  • A conclusão de que “não haveria mundo ‘real’ no qual despertar” é a essência do problema solipsista: não há como sair da própria mente para verificar a realidade externa.
  • A alternativa (E) descreve uma consequência direta disso: se só a minha mente é certa, então eu tenho “limitações cognitivas para compreender uma experiência compartilhada” — afinal, como posso saber se a experiência do outro é real ou apenas parte do meu sonho?

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mortal aqui é a alternativa (D), Idealismo. O Idealismo é o “primo” mais moderado do Solipsismo. O Idealismo diz que “a realidade depende da mente”, mas geralmente admite que outras mentes existem. O Solipsismo é mais radical: diz que “a realidade depende da MINHA mente”. Como o texto de Nagel força o leitor a adotar essa perspectiva radicalmente individual (“sua mente”), ele se aproxima mais do Solipsismo.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o texto explora a hipótese de que a realidade é uma construção da mente individual, o que torna impossível confirmar a existência de um mundo externo ou de outras consciências.
  • Expectativa: A alternativa correta deve ser a que descreve essa doutrina radicalmente centrada no “eu”, o Solipsismo.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) Personalismo, que vincula a realidade circundante aos domínios do pessoal.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode confundir “pessoal” com a perspectiva individual do texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O Personalismo é uma doutrina ética e política sobre o valor da pessoa, não uma teoria metafísica sobre a existência da realidade.
    • Como seria correta: Se o texto discutisse a dignidade humana como o valor central da existência.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) Falsificacionismo, que estabelece ciclos de problemas para refutar uma conjectura.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma escolha aleatória baseada na palavra “filosofia”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O Falsificacionismo é uma teoria sobre o método científico, não sobre a natureza da realidade.
    • Como seria correta: Se o texto descrevesse a ciência como um processo de tentar provar que teorias são falsas.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) Falibilismo, que rejeita mecanismos mentais para sustentar uma crença inequívoca.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na ideia de dúvida sobre o conhecimento.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O Falibilismo é uma teoria sobre a natureza do conhecimento (que ele é sempre incerto e corrigível), mas não nega a existência de um mundo real a ser conhecido, que é o ponto central do texto.
    • Como seria correta: Se o texto afirmasse que nossas crenças sobre o mundo podem estar erradas, mas sem duvidar que o mundo existe.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) Idealismo, que nega a existência de objetos independentemente do trabalho cognoscente.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, reconhecendo a discussão geral sobre a mente e a realidade.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão de Escopo. O Idealismo é um termo mais amplo. O texto de Nagel, com sua ênfase radical no “você” e na sua mente individual, aponta para a forma mais extrema de idealismo, que é o Solipsismo. A alternativa (E) captura melhor essa centralidade do “eu”.
    • Como seria correta: Esta alternativa é muito forte e seria a correta se o texto fosse um pouco mais geral, questionando a existência da matéria sem focar tão intensamente na perspectiva de um único sujeito.
    • Conclusão: 🟡 Alternativa incorreta.
  • E) Solipsismo, que reconhece limitações cognitivas para compreender uma experiência compartilhada.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela nomeia a doutrina (“Solipsismo”) que se encaixa perfeitamente na perspectiva radicalmente individual do texto (“sua mente”). A justificativa (“reconhece limitações […] para compreender uma experiência compartilhada”) é uma consequência direta da premissa solipsista: se só posso ter certeza da minha mente, não tenho como saber se a experiência do outro é real ou parte do meu sonho.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso é uma introdução clássica a um dos problemas mais radicais da filosofia: a solidão absoluta da consciência e a impossibilidade de provar que não somos os únicos seres pensantes no universo.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Para o solipsista, o universo pode ser apenas um monólogo interior disfarçado de diálogo.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo problema filosófico do Solipsismo é uma questão central na Inteligência Artificial e no debate sobre a consciência das máquinas. Como podemos saber se uma IA, que conversa conosco e age de forma inteligente, realmente “pensa” ou “sente” (tem uma experiência subjetiva), ou se ela é apenas um “zumbi filosófico” — uma simulação perfeita de consciência sem nenhuma consciência real por trás? O famoso Teste de Turing foi criado exatamente para lidar com esse problema. A nossa dificuldade em provar a existência de outras mentes humanas é a mesma dificuldade que teremos em provar a existência de uma mente artificial.

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