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Questão 11, caderno azul ENEM 2020

Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la. Aumentavam as sombras. No céu, nuvens colossais e túmidas rolavam para o abismo do horizonte… Na várzea, ao clarão indeciso do crepúsculo, os seres tomavam ares de monstros… As montanhas, subindo ameaçadoras da terra, perfilavam-se tenebrosas… Os caminhos, espreguiçando-se sobre os campos, animavam-se quais serpentes infinitas… As árvores soltas choravam ao vento, como carpideiras fantásticas da natureza morta… Os aflitivos pássaros noturnos gemiam agouros com pios fúnebres. Maria quis fugir, mas os membros cansados não acudiam aos ímpetos do medo e deixavam-na prostrada em uma angústia desesperada.

ARANHA, J. P. G. Canaã. São Paulo: Ática, 1997.

No trecho, o narrador mobiliza recursos de linguagem que geram uma expressividade centrada na percepção da

A) relação entre a natureza opressiva e o desejo de libertação da personagem.
B) confluência entre o estado emocional da personagem e a configuração da paisagem.
C) prevalência do mundo natural em relação à fragilidade humana.
D) depreciação do sentido da vida diante da consciência da morte iminente.
E) instabilidade psicológica da personagem face à realidade hostil.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Teoria da Literatura (Estilos de Época: Pré-Modernismo/Expressionismo)
    • Análise Literária (Recursos Expressivos, Relação Personagem-Espaço)
    • Figuras de Linguagem (Personificação, Comparação)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar um trecho narrativo para identificar a principal técnica de construção de expressividade, que consiste na fusão entre o estado psicológico da personagem e a descrição da paisagem.
  • Nível da Questão: Difícil.
    • A questão é um desafio de interpretação de nuances. As alternativas A, B e E são muito próximas e descrevem aspectos presentes no texto. O candidato precisa identificar a relação mais fundamental: a paisagem não é causa da angústia, nem a angústia é apenas uma reação à paisagem. As duas coisas se fundem, uma é o espelho da outra.
  • Gabarito: B
    • A alternativa está correta porque o texto não descreve uma paisagem objetiva, mas sim uma paisagem filtrada pela “imaginação perturbada” de Maria. A natureza (árvores que choram, caminhos como serpentes) age como um espelho, refletindo e amplificando o estado emocional da personagem, criando uma “confluência” (uma fusão) entre o mundo interno e o externo.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O narrador descreve a natureza de uma forma assustadora (árvores chorando, montanhas ameaçadoras). Qual é a principal relação que o texto estabelece entre essa paisagem sinistra e os sentimentos da personagem Maria?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que Maria está usando um par de óculos de realidade aumentada que estão quebrados. Esses óculos são sua “imaginação perturbada”. Quando ela olha para uma paisagem normal, os óculos projetam monstros, sombras e ameaças sobre tudo o que ela vê. A árvore vira uma “carpideira”, o caminho vira uma “serpente”. A paisagem que lemos não é a realidade objetiva; é a realidade distorcida pelos óculos da angústia dela. A questão nos pede para descrever essa fusão entre a visão e o sentimento.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar a “Lente” da Narrativa: Qual é o filtro, a perspectiva através da qual a paisagem é descrita?
  • Visualizar a Projeção: Vamos usar uma ferramenta visual para ilustrar como os sentimentos da personagem se projetam na natureza.
  • Conectar Lente e Paisagem: Qual é a relação de causa e efeito (ou de espelhamento) entre o estado de Maria e o que ela vê?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa conexão.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela de Projeção Psicológica, que irá mapear como cada sentimento interno de Maria é “projetado” em um elemento externo da paisagem.

Sentimento Interno de Maria (O Projetor) Elemento da Paisagem (A Tela) Descrição no Texto (A Projeção)
Medo, Angústia, Perturbação Os seres da várzea Tomam “ares de monstros”.
Sensação de Ameaça As montanhas “Subindo ameaçadoras”, “perfilavam-se tenebrosas”.
Sensação de Perigo Oculto Os caminhos “Animavam-se quais serpentes infinitas”.
Tristeza, Desespero As árvores “Choravam ao vento, como carpideiras fantásticas”.
Presságio, Morte Os pássaros noturnos “Gemiam agouros com pios fúnebres”.

Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para visualizar a essência da nossa análise, tornando a ideia central clara e impactante:

(O Espelho da Alma: A Natureza como Projeção da Angústia)
A imagem ilustra a profunda conexão entre o sentimento da personagem e a paisagem ao seu redor, traduzindo visualmente a melancolia do texto. Vemos Maria, pequena e estagnada pela exaustão, sob a luz difusa do crepúsculo, enquanto a natureza espelha sua angústia interna: a estrada sinuosa sugere uma jornada sem fim, as árvores curvadas evocam o lamento das “carpideiras” e as nuvens pesadas materializam a pressão psicológica que ela sente. A cena demonstra como o mundo exterior se transforma aos nossos olhos para refletir o peso das nossas emoções.

Conclusão Forense: Tanto a tabela quanto a ilustração mostram de forma inequívoca que não estamos lendo sobre uma paisagem real. Estamos lendo um mapa da alma de Maria. Cada elemento da natureza é uma tela onde seus sentimentos são projetados. Há uma fusão, uma confluência total entre seu estado emocional e a configuração da paisagem.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossas ferramentas já revelaram a técnica do autor. A primeira frase do texto é a chave que abre o caso: “Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la”.

  • O narrador nos avisa desde o início: o que vamos ler não é a realidade, mas a percepção de Maria.
  • A natureza não é opressiva; ela parece opressiva para Maria.
  • A beleza da escrita está em não dizer “Maria estava com medo”; em vez disso, o autor nos mostra o medo dela através dos “olhos” da personagem, fazendo-nos ver o que ela vê.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais poderosa é a alternativa (E), “instabilidade psicológica da personagem face à realidade hostil”. Ela é muito tentadora porque descreve corretamente a “instabilidade psicológica”. O erro está na segunda parte: “face à realidade hostil”. O texto sugere que a hostilidade não está na realidade em si, mas na percepção que a personagem tem dela (“na sua imaginação perturbada”). A alternativa (B) é mais precisa porque descreve a relação de espelhamento (“confluência”) entre o interno e o externo, que é o foco da técnica narrativa, em vez de assumir que o mundo externo é objetivamente hostil.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o narrador usa a descrição da paisagem como uma forma de externalizar e amplificar os sentimentos da personagem, criando uma fusão entre o mundo interior e o mundo exterior.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa fusão, confluência ou relação de espelhamento entre o estado emocional e a paisagem.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) relação entre a natureza opressiva e o desejo de libertação da personagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na opressão da natureza e na tentativa de fuga de Maria.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Embora a natureza seja percebida como opressiva e Maria queira fugir, a alternativa não captura a causa dessa percepção: o estado emocional dela. A alternativa descreve os sintomas, mas não o diagnóstico (a confluência).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) confluência entre o estado emocional da personagem e a configuração da paisagem.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Confluência” (encontro, fusão) é a palavra perfeita para descrever como o “estado emocional” de Maria se une à “configuração da paisagem”, com uma sendo o reflexo da outra.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • C) prevalência do mundo natural em relação à fragilidade humana.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato interpreta a cena como uma luta entre homem e natureza.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. O tema não é a força da natureza versus a fraqueza humana. A natureza aqui não é uma força autônoma, mas uma projeção da própria psique da personagem.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) depreciação do sentido da vida diante da consciência da morte iminente.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca nas imagens fúnebres (“carpideiras”, “pios fúnebres”) e faz uma inferência filosófica.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Indevida. Embora as imagens sugiram morte, o texto não desenvolve uma reflexão sobre o “sentido da vida”. O foco é na emoção crua do medo e da angústia, e não em uma crise existencial.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) instabilidade psicológica da personagem face à realidade hostil.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, identificando corretamente a instabilidade, mas errando a causa.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão na Causalidade. Esta alternativa sugere que a realidade é hostil, e Maria reage a ela. O texto, no entanto, sugere o contrário: a “imaginação perturbada” de Maria projeta a hostilidade na realidade. A alternativa (B) descreve melhor essa relação de via dupla (“confluência”) do que a relação unilateral de causa e efeito proposta aqui.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Este caso é uma aula de literatura expressionista, onde o mundo exterior se deforma e se contorce para espelhar a tempestade que acontece dentro da alma da personagem.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A paisagem não é uma fotografia, é um raio-X da mente de Maria.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de projetar emoções internas em um ambiente externo é uma técnica visual fundamental no Cinema, especialmente em filmes de terror psicológico. Pense no filme “O Iluminado”. O Hotel Overlook não é assustador por si só no início. É a crescente loucura do personagem Jack Torrance que “projeta” o mal nos corredores, nos quartos e nos labirintos de neve. A arquitetura do hotel se torna uma extensão de sua mente em colapso. O diretor Stanley Kubrick, assim como o escritor Graça Aranha, não apenas nos mostra um personagem instável; ele nos faz ver o mundo através dos olhos distorcidos desse personagem.

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