Um dos resquícios franceses na dança são os comandos proferidos pelo marcador da quadrilha. Seu papel é anunciar os próximos passos da coreografia. O abrasileiramento de termos franceses deu origem, por exemplo, ao saruê (soirée — reunião social noturna, ordem para todos se juntarem no centro do salão), anarriê (en arrière — para trás) e anavã (en avant — para frente).
Disponível em: www.ebc.com.br. Acesso em: 6 jul. 2015.
A característica apresentada dessa manifestação popular resulta do seguinte processo sócio-histórico:
A) Massificação da arte erudita.
B) Rejeição de hábitos elitistas.
C) Laicização dos rituais religiosos.
D) Restauração dos costumes antigos.
E) Apropriação de práticas estrangeiras.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História Cultural do Brasil
- Antropologia (Apropriação Cultural, Sincretismo)
- Linguística (Etimologia, Variação Linguística)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um exemplo de manifestação popular (a quadrilha junina) para identificar o processo sócio-histórico de apropriação e ressignificação de elementos culturais estrangeiros.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela leitura direta. O texto afirma que existem “resquícios franceses na dança” e que ocorreu um “abrasileiramento de termos franceses”. Essa descrição de pegar algo de fora (“francês”) e transformá-lo em algo local (“abrasileiramento”) é a definição exata de “apropriação de práticas estrangeiras”.
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque o texto descreve como a quadrilha brasileira incorporou elementos de uma dança da corte francesa (quadrille) e os transformou. Os comandos, originalmente em francês (“en arrière”, “en avant”), foram adaptados foneticamente para o português popular (“anarriê”, “anavã”). Esse processo de pegar um elemento de uma cultura externa e adaptá-lo à realidade local é a definição de apropriação de práticas estrangeiras.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Os comandos da quadrilha junina, como ‘anarriê’, vieram do francês. O que esse fato nos diz sobre como a cultura brasileira foi formada?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a culinária. A pizza é uma invenção italiana. No Brasil, nós não apenas a copiamos; nós a transformamos. Criamos a pizza de frango com catupiry, a de quatro queijos, a de estrogonofe. Nós pegamos uma “prática estrangeira” e a apropriamos, demos a ela um sotaque e um sabor brasileiro. A quadrilha junina fez exatamente a mesma coisa com a dança da corte francesa.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar a Origem: De onde vêm os comandos da quadrilha, segundo o texto?
- Analisar a Transformação: O que aconteceu com esses comandos no Brasil?
- Nomear o Processo: Qual é o nome do processo histórico e social de pegar algo de fora e adaptá-lo à cultura local?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve esse processo.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é um Fluxograma da Transformação Cultural. Ele nos ajudará a visualizar o caminho do termo francês até sua versão brasileira.
FLUXOGRAMA: O “ABRASILEIRAMENTO” DA QUADRILHA
-
PASSO 1: A ORIGEM (A Prática Estrangeira)
- Dança da corte francesa (quadrille).
- Comandos dados em francês. Ex: “En arrière” (para trás).
↓ -
PASSO 2: A IMPORTAÇÃO E O CONTATO
- A dança e seus termos chegam ao Brasil, provavelmente com a elite do século XIX.
↓ -
PASSO 3: A ADAPTAÇÃO POPULAR (O Processo-Chave)
- A dança sai dos salões e vai para as festas populares (festas juninas).
- A população, sem falar francês, adapta a sonoridade das palavras à sua própria língua.
- “En arrière” [foneticamente: ɑ̃ na.ʁjɛʁ] é ouvido e reproduzido como “Anarriê“.
↓ -
PASSO 4: O RESULTADO (A Nova Manifestação Cultural)
- Surge a quadrilha junina brasileira, uma manifestação com identidade própria, que mantém “resquícios” da origem, mas totalmente ressignificada.
Conclusão Forense: O fluxograma mostra um processo claro. Não é uma cópia, nem uma rejeição. É um ato de apropriação: pegar algo que vem de fora e transformar, adaptar, “abrasileirar”.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso fluxograma já decifrou o processo. O texto nos dá todas as pistas:
- “resquícios franceses” → a origem é estrangeira.
- “abrasileiramento de termos” → houve uma adaptação e transformação local.
Juntando as duas pistas, a conclusão é inevitável. A característica da quadrilha resulta da apropriação de práticas estrangeiras.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “rejeição de hábitos elitistas”. O candidato pode pensar que, ao popularizar a dança, o povo estava “rejeitando” a elite. O erro é não perceber que o processo não foi de rejeição, mas de absorção e transformação. O povo não disse “não queremos essa dança francesa”; ele disse “gostamos dessa dança, vamos fazê-la do nosso jeito”. É um ato de incorporação, não de negação.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que a quadrilha junina tem sua origem em uma dança francesa, cujos termos foram adaptados e incorporados pela cultura popular brasileira.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse processo de absorção e adaptação de elementos culturais estrangeiros.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) Massificação da arte erudita.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que a dança da corte se espalhou para o povo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. “Massificação” implicaria que a dança foi consumida em sua forma original por muitas pessoas. O que aconteceu foi uma transformação radical, uma recriação popular, e não uma simples disseminação da forma erudita.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) Rejeição de hábitos elitistas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, vendo o processo como um ato de negação.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O processo não foi de “rejeição”, mas de incorporação e adaptação. Os elementos da dança de elite não foram jogados fora; foram transformados.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) Laicização dos rituais religiosos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no fato de a quadrilha ser parte da festa junina, que tem origem religiosa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não discute a relação da quadrilha com a religião. O foco exclusivo do trecho é a origem francesa dos comandos da dança.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) Restauração dos costumes antigos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em “tradição” e “costumes”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. A quadrilha junina não “restaura” um costume antigo do Brasil. Ela cria um novo costume a partir da transformação de um costume importado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) Apropriação de práticas estrangeiras.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o processo: pegar uma “prática estrangeira” (a quadrille francesa) e se “apropriar” dela, ou seja, tomá-la para si e adaptá-la à própria cultura, criando algo novo.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso é uma aula sobre a dinâmica do sincretismo cultural brasileiro, nossa imensa capacidade de absorver elementos de diferentes culturas e recriá-los com uma identidade inconfundivelmente nossa.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A quadrilha junina ouviu a ordem em francês, mas respondeu com sotaque brasileiro.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de apropriação e ressignificação de práticas estrangeiras é a base da história do Skate no Brasil. O skate surgiu na Califórnia, uma “prática estrangeira” ligada à cultura do surf. Quando chegou ao Brasil, ele foi apropriado e transformado. Skatistas brasileiros desenvolveram um estilo próprio, manobras únicas e adaptaram o esporte às condições das nossas ruas e pistas. Hoje, o Brasil é uma potência mundial no skate, com uma cultura e uma identidade próprias dentro do esporte, que já não é mais uma mera cópia do modelo americano. A história do “anarriê” é a mesma da história do skate no Brasil.