eu gostava muito de passeá… saí com as minhas colegas… brincá na porta di casa di vôlei… andá de patins… bicicleta… quando eu levava um tombo ou outro… eu era a::… a palhaça da turma… ((risos))… eu acho que foi uma das fases mais… assim… gostosas da minha vida foi… essa fase de quinze… dos meus treze aos dezessete anos…
A.P.S., sexo feminino, 38 anos, nível de ensino fundamental.
Projeto Fala Goiana, UFG, 2010 (inédito).
Um aspecto da composição estrutural que caracteriza o relato pessoal de A.P.S. como modalidade falada da língua é
A) predomínio de linguagem informal entrecortada por pausas.
B) vocabulário regional desconhecido em outras variedades do português.
C) realização do plural conforme as regras da tradição gramatical.
D) ausência de elementos promotores de coesão entre os eventos narrados.
E) presença de frases incompreensíveis a um leitor iniciante.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Variação Linguística
- Modalidades da Língua (Fala vs. Escrita)
- Análise do Discurso
🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar as características estruturais e lexicais que marcam um texto como sendo a transcrição da modalidade oral da língua.
🎯 Nível da Questão: Médio – A questão é relativamente direta, mas exige que o aluno consiga diferenciar conceitos como “informalidade” (que é o caso) de “regionalismo” (que não é o caso) e que entenda o que são pausas e hesitações como elementos estruturais da fala, não apenas como um recurso estilístico.
✅ Gabarito: A – A alternativa está correta pois descreve com precisão as duas características mais evidentes do trecho: a informalidade no vocabulário e na pronúncia (“passeá”) e a presença de pausas e hesitações, representadas pelas reticências.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Transcrição Essencial
“Um aspecto da composição estrutural que caracteriza o relato pessoal de A.P.S. como modalidade falada da língua é…”
📌 O que está sendo pedido?
A questão pede para que a gente encontre, nas alternativas, a característica que prova que esse texto é a transcrição de uma fala, e não um texto que foi originalmente escrito.
📌 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar as “pistas” que o texto nos dá (como a pronúncia das palavras, as pausas, o riso) e identificar qual das opções melhor descreve essas “impressões digitais” da língua falada.
✔ Pergunta de Atenção
Se você fosse escrever um e-mail formal, você escreveria “eu gostava muito de passeá…”? Provavelmente não. A questão explora justamente o porquê dessa diferença entre como falamos e como escrevemos.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação Simples | Exemplo na Questão |
| Modalidade Falada | É a manifestação da língua por meio dos sons. Geralmente é espontânea, menos planejada, interativa e marcada por pausas, hesitações, repetições e informalidade. | Todo o trecho de A.P.S. é um exemplo de fala espontânea, onde ela está puxando da memória para contar uma história. |
| Modalidade Escrita | É a representação da língua por meio de sinais gráficos. Tende a ser mais planejada, mais formal, segue mais a norma-padrão e não costuma registrar pausas ou hesitações. | Um artigo de jornal ou um livro são exemplos da modalidade escrita. |
| Marcas da Oralidade | São as características típicas da fala que, quando transcritas, revelam a sua origem. Incluem: supressão de letras (“passeá” em vez de “passear”), uso de gírias, pausas (“…”), marcadores conversacionais (“né?”, “tipo…”), entonação e até elementos não verbais. | As reticências (“…”), a forma “di” e o “((risos))” são marcas claras da oralidade no texto. |
| Variação Linguística | É o fenômeno natural pelo qual uma língua se diferencia de acordo com o contexto, a região, o grupo social ou a situação. | A forma como A.P.S. fala reflete uma variação situacional (informal) e social (nível de escolaridade). |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
📌 Contextualização Simplificada
Vamos imaginar a cena: uma senhora de 38 anos, A.P.S., está conversando com um pesquisador sobre sua adolescência. Ela não está lendo um roteiro, está falando livremente, buscando as palavras na memória. Por isso, a fala dela sai “quebrada”, com pausas para pensar (“…”), com o jeito informal de pronunciar as palavras do dia a dia (“passeá”, “brincá”) e até com reações emotivas (“((risos))”). O texto que lemos é uma fotografia dessa conversa. A questão quer que a gente olhe para essa “foto” e diga o que nela denuncia que é uma fala, e não um texto escrito.
📌 Estratégia Geral
Nossa estratégia será identificar, no trecho, todos os elementos que são típicos de uma conversa espontânea e, em seguida, procurar a alternativa que descreve esses elementos de forma mais completa e precisa.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Passo a Passo Detalhado
- Analisando a Informalidade: Vamos destacar as palavras que fogem à norma-padrão escrita:
- “passeá”, “brincá”, “andá”: Ocorre a supressão do “r” final dos verbos no infinitivo. Isso é uma característica fonética extremamente comum na fala coloquial em todo o Brasil.
- “di casa”: Ocorre a troca da vogal “e” pela “i”, outra marca comum da pronúncia informal.
- Essa é a prova do predomínio da linguagem informal.
- Analisando a Estrutura: O texto está cheio de reticências (“…”). O que elas significam aqui?
- “passeá… saí com as minhas colegas…”: As reticências não são um recurso poético, elas representam pausas reais na fala da entrevistada. Ela para por um instante para pensar no que vai dizer a seguir ou para respirar.
- A frase “eu era a::… a palhaça da turma” mostra uma hesitação e um alongamento da vogal, características típicas da fala.
- Essa é a prova de que o texto é entrecortado por pausas.
❓/✔ Possível armadilha
A armadilha aqui é a alternativa B) vocabulário regional. Você poderia pensar que “passeá” é uma gíria ou uma palavra específica de Goiás. No entanto, a queda do “r” no infinitivo (“falar”, “comer”, “beber”) é um fenômeno fonético da fala informal presente em praticamente todas as regiões do Brasil, não sendo, portanto, um regionalismo lexical (uma palavra de uma região).
📌 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio mostra que o texto é definido pela combinação de uma linguagem coloquial com uma estrutura fragmentada por pausas e hesitações. A alternativa correta deve, portanto, mencionar esses dois aspectos.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
📌 Listagem das Alternativas
A) predomínio de linguagem informal entrecortada por pausas.
B) vocabulário regional desconhecido em outras variedades do português.
C) realização do plural conforme as regras da tradição gramatical.
D) ausência de elementos promotores de coesão entre os eventos narrados.
E) presença de frases incompreensíveis a um leitor iniciante.
📌 Justificativa Individual
- 🟢 (A) Correto. Esta alternativa descreve perfeitamente o que encontramos: a linguagem é informal (“passeá”) e a estrutura é marcada por pausas (“…”).
- 🔴 (B) Incorreto. Não há palavras que sejam exclusivas da região de Goiás no trecho. As variações presentes são de pronúncia e são comuns em grande parte do Brasil.
- 🔴 (C) Incorreto. Embora neste trecho específico a concordância de plural esteja correta (“minhas colegas”), a modalidade falada informal frequentemente apresenta desvios da norma-padrão na concordância, e não o seu cumprimento rigoroso.
- 🔴 (D) Incorreto. O texto não tem ausência de coesão. A coesão é construída pela sequência temporal da narrativa (“fase de quinze… dos meus treze aos dezessete”) e pela temática comum (lembranças da adolescência). O relato é perfeitamente coeso e coerente.
- 🔴 (E) Incorreto. O texto é totalmente compreensível para qualquer falante de português. A informalidade não torna a comunicação ineficaz.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio
A análise do trecho revelou marcas inequívocas da língua falada, como a informalidade na pronúncia de palavras e a presença de pausas que estruturam o pensamento da falante. Esses dois elementos, combinados, caracterizam o texto como uma transcrição da oralidade.
📌 Gabarito Reafirmado
O gabarito correto é a alternativa A, que aponta com precisão para a coexistência da linguagem informal e das pausas como traço estrutural da fala.
🔍 Resumo Final para Revisão
Lembre-se sempre de que a língua falada é como um rio: flui com pausas, desvios e correntezas. A língua escrita é como um canal: planejado, reto e controlado. Reconhecer as marcas desse “rio” é a chave para entender a oralidade.