Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
A descrição crítica do personagem de Machado de Assis assemelha-se às características dos sofistas, contestados pelos filósofos gregos da Antiguidade, porque se mostra alinhada à
a) elaboração conceitual de entendimentos.
b) utilização persuasiva do discurso.
c) narração alegórica dos rapsodos.
d) investigação empírica da physis.
e) expressão pictográfica da pólis.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- Filosofia Antiga (O debate entre Sofistas e Filósofos)
- Literatura Brasileira (A crítica social em Machado de Assis)
- Tema/Objetivo Geral: Conectar a crítica à superficialidade intelectual, presente na literatura de Machado de Assis, com os princípios da retórica sofística da Grécia Antiga.
- Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão se classifica como de nível médio pois exige uma ponte entre dois universos de conhecimento distintos: a obra de um dos maiores autores da literatura brasileira e um conceito específico da filosofia clássica. A simples interpretação do trecho é insuficiente; é preciso evocar o conhecimento prévio sobre quem eram os sofistas e, principalmente, qual era a crítica fundamental que filósofos como Platão lhes dirigiam.
- Gabarito: B) utilização persuasiva do discurso.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a atitude do personagem — de aprender apenas “a casca” e a “fraseologia” para usar na “conversação” — reflete com precisão a prática dos sofistas, que ensinavam o uso do discurso como ferramenta de persuasão e aparência, em vez de um meio para alcançar a verdade.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a nossa missão é decifrar a confissão de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, e entender qual é o “crime” intelectual que ele comete. Depois, precisamos identificar, entre os suspeitos (as alternativas), qual descreve a filosofia dos Sofistas, que, segundo o enunciado, cometeram o mesmo “crime” na Grécia Antiga.
Simplificando, imagine que o conhecimento é uma fruta. O personagem nos diz que ignorou a polpa e o suco (a essência) e colecionou apenas as cascas mais brilhantes para exibi-las. A questão nos pede para dar o nome técnico a essa prática de colecionar “cascas de conhecimento”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Análise do Depoimento: Primeiramente, vamos interrogar a “confissão” de Brás Cubas, extraindo as pistas que definem seu caráter intelectual.
- 2. Perfil dos Suspeitos: Em seguida, montaremos um dossiê detalhado sobre os Sofistas, focando no seu modus operandi e no motivo de serem contestados.
- 3. A Conexão Inegável: Finalmente, faremos a acareação, comparando as pistas do depoimento com o perfil dos suspeitos para encontrar a correspondência perfeita.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o cerne da questão, vamos construir o raciocínio através de um diálogo, como Sócrates faria ao investigar um conceito.
🕵️♂️ Mentor: Imagine que estamos em um debate público na ágora de Atenas. De um lado, temos um filósofo como Platão. Do outro, um mestre sofista como Górgias. Ambos são mestres da palavra, mas suas intenções são radicalmente opostas. O que você acha que cada um busca?
🧠 Aluno: Pelo que sei, Platão buscaria a verdade, algo real e imutável. Já o sofista… talvez ele queira apenas vencer a discussão?
🕵️♂️ Mentor: Exatamente! Essa é a pista fundamental. Para Platão, a linguagem é uma ferramenta para descobrir a verdade (a episteme). O objetivo é chegar ao “miolo” da questão. Para o sofista, a linguagem é uma ferramenta para construir uma verdade momentânea e persuadir a audiência. A arte deles, a retórica, foca em como o discurso soa, em sua “casca”, em sua “ornamentação”. Eles ensinavam a argumentar de forma convincente, independentemente de o argumento ser verdadeiro ou não.
🧠 Aluno: Entendi! Então, um busca o que é, enquanto o outro ensina como parecer que se sabe o que é.
🕵️♂️ Mentor: Perfeito. Você acabou de montar a principal ferramenta para solucionar nosso caso. Um lado valoriza o conteúdo; o outro, a forma e o poder de convencimento. Agora, vamos ver em qual desses perfis Brás Cubas se encaixa.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos executar nosso plano, detetive. Ao interrogar a confissão de Brás Cubas, as pistas que ele nos deixa são irrefutáveis.
Ele afirma que da Universidade, decorou “só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto”. Essa é a admissão de que ele se apegou à estrutura vazia, ignorando a essência do conhecimento.
A confissão se torna ainda mais explícita quando ele diz: “Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação.” Essas palavras são praticamente um sinônimo da prática retórica sofista. Ele não busca a verdade, mas as palavras de efeito, a aparência de saber.
E, finalmente, o motivo do crime: ele fez tudo isso “para as despesas da conversação”. O conhecimento para ele não era um fim, mas um meio para um objetivo social: performar bem em conversas, impressionar, persuadir. Essa confissão é um eco perfeito do método sofista que discutimos.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ser enganado pelo cenário. Ao ler “Universidade”, “filosofia”, “latim”, nossa mente tende a construir a imagem de um erudito genuíno. Porém, o brilhantismo de Machado de Assis está justamente em usar esse cenário para criticar o personagem que apenas transita por ele sem absorver sua profundidade. A armadilha é confundir o palco (a academia) com a performance do ator (a superficialidade de Brás Cubas).
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
Nossa investigação nos leva a uma conclusão clara: o personagem personifica a superficialidade intelectual, focada na aparência e na persuasão social. Ele trata o saber como um acessório. Portanto, a resposta correta, nosso “culpado”, deve necessariamente descrever essa prática de usar a linguagem como uma arma de convencimento, e não como uma ferramenta para encontrar a verdade.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso retrato falado em mãos, vamos à sala de reconhecimento interrogar cada um dos suspeitos.
A) elaboração conceitual de entendimentos.
Esta alternativa apresenta um álibi falso. O erro aqui é uma Contradição Direta, pois o personagem confessa exatamente o oposto: ele fugia da elaboração de conceitos e da busca por entendimento, preferindo decorar o “esqueleto” e a “casca” do saber. Ele não elaborava, apenas copiava a aparência.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) utilização persuasiva do discurso.
Esta descrição corresponde perfeitamente ao nosso perfil. A “utilização persuasiva do discurso” é o nome técnico para o que Brás Cubas fazia: usar a “fraseologia” e a “ornamentação” não para entender o mundo, mas para se sair bem nas “despesas da conversação”. É a essência da retórica sofista aplicada à vida social.
Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com o retrato falado.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) narração alegórica dos rapsodos.
Este suspeito estava na cena do crime errada. O erro é uma Fuga ao Tema. Rapsodos eram artistas, declamadores de poemas épicos na Grécia Antiga. Embora mestres da palavra, sua função era contar histórias, não ensinar a argumentação para o debate político ou filosófico, que era a especialidade dos sofistas.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) investigação empírica da physis.
Este é outro caso de identidade trocada, uma Fuga ao Tema. A investigação da natureza (physis) era a preocupação dos primeiros filósofos, os pré-socráticos. O debate sobre a verdade e a persuasão é posterior e focado na vida humana em sociedade (pólis). Brás Cubas, claramente, não demonstra nenhum interesse em investigar a natureza.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) expressão pictográfica da pólis.
Esta alternativa é um despiste evidente. Trata-se de uma Fuga ao Tema tão grande que beira o absurdo no contexto. Expressão pictográfica refere-se à escrita por imagens ou símbolos, algo que não tem qualquer conexão com a confissão do personagem sobre seu método de aprendizado e uso do discurso verbal.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos, sem sombra de dúvida, que a alternativa B é a correta. A crítica machadiana, através da confissão de Brás Cubas, revela um personagem que é a encarnação literária do aluno ideal dos sofistas: aquele que domina a forma do discurso para persuadir, ignorando completamente a busca pela verdade.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O filósofo busca a polpa da fruta do saber; o sofista, como Brás Cubas, coleciona as cascas mais lustrosas para montar um belo, mas vazio, arranjo de mesa.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Este mesmo princípio transcende a filosofia e a literatura, aterrissando diretamente no coração da Teoria da Comunicação e do Marketing Moderno. A construção de uma marca pessoal ou corporativa muitas vezes bebe da fonte sofística. A escolha de um “vocabulário” específico, de uma “ornamentação” visual (design) e de uma “fraseologia” (slogans) não visa, necessariamente, descrever a verdade mais profunda de um produto ou pessoa, mas sim criar uma percepção persuasiva na mente do consumidor ou do público. Brás Cubas, com sua preocupação com a “casca”, seria um excelente estrategista de marca no século XXI.