Questão 88 caderno verde ENEM 2017 Libras 1° Dia

Constituição Política do Império do Brasil
(de 25 de março de 1824)

    Art. 98. O Poder Moderador é a chave de toda a organização política, e é delegado privativamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nação, e seu Primeiro Representante, para que incessantemente vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos demais Poderes Políticos.

Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em: 18 abr. 2015 (adaptado).

A apropriação das ideias de Montesquieu no âmbito da norma constitucional citada tinha o objetivo de

A) expandir os limites das fronteiras nacionais.

B) assegurar o monopólio do comércio externo.

C) legitimar o autoritarismo do aparelho estatal.

D) evitar a reconquista pelas forças portuguesas.

E) atender os interesses das oligarquias regionais.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • História do Brasil (Primeiro Reinado, Constituição de 1824)
    • Filosofia Política (Iluminismo, Montesquieu e a Separação dos Poderes)
    • Interpretação de Texto Jurídico-Histórico
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a apropriação e distorção de ideias iluministas para justificar a centralização de poder e o autoritarismo na Constituição Imperial do Brasil.
  • Nível da Questão: Médio para Difícil.
    • Detalhe: A questão é de nível médio para difícil pois exige um conhecimento prévio robusto que não está contido no texto. O candidato precisa saber qual era a ideia original de Montesquieu para perceber como ela foi subvertida. Sem esse pano de fundo, a interpretação do Art. 98 se torna superficial e os distratores, especialmente (E), tornam-se muito atraentes.
  • Gabarito: Letra C.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o Poder Moderador, apesar de usar a linguagem de “equilíbrio” de Montesquieu, foi na verdade um instrumento que colocava o Imperador acima dos outros poderes, contradizendo a ideia de separação e servindo para legitimar seu poder centralizado e autoritário.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos diz: “Olha, a Constituição do Império pegou a ideia de separação de poderes do Montesquieu, mas criou esse tal de Poder Moderador. Qual era a real intenção, o objetivo secreto, por trás dessa ‘adaptação’ brasileira?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em um jogo de futebol com três times em campo ao mesmo tempo: o time do Executivo, o do Legislativo e o do Judiciário. Montesquieu foi o cara que disse: “Para o jogo ser justo, os três times devem ter a mesma força e se fiscalizar mutuamente”. O que Dom Pedro I fez na Constituição de 1824? Ele disse: “Ótima ideia! Vamos ter os três times. E, para ‘moderar’ o jogo, eu serei um quarto jogador, o ‘Moderador’. Só que eu posso anular gols de qualquer time, expulsar jogadores quando eu quiser e mudar as regras no meio da partida”. A questão é: qual o objetivo de criar um jogador com superpoderes assim?

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Estabelecer o Pano de Fundo: Vamos primeiro entender qual era a ideia original de Montesquieu.
  • Analisar a “Apropriação”: Vamos ver como o Art. 98 da Constituição de 1824 distorceu essa ideia.
  • Conectar a Distorção ao Objetivo Político: Entender por que Dom Pedro I precisava dessa distorção.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o “crime”, precisamos comparar a “arma original” com a “arma modificada”. Usaremos uma Tabela Comparativa para expor a diferença fundamental entre a teoria de Montesquieu e a prática do Império Brasileiro.

A Ideia Original de Montesquieu A “Adaptação” Brasileira de 1824
Nome da Teoria: Tripartição dos Poderes. Nome da Teoria: Quadripartição dos Poderes.
Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderador.
Relação entre eles: Equilíbrio e autonomia. São poderes iguais e independentes que se fiscalizam mutuamente (“o poder freia o poder”). Relação entre eles: Hierarquia. O Poder Moderador é a “chave de toda a organização política” e está acima dos outros para “velar sobre” eles.
Objetivo: Evitar o autoritarismo e a concentração de poder. Objetivo: Concentrar o poder nas mãos do Imperador, que o exercia de forma “privativa” (exclusiva).

Essa tabela é a chave do caso. Ela mostra que o Brasil usou a linguagem de Montesquieu (“equilíbrio”, “harmonia”) para justificar uma estrutura que traía completamente o espírito de sua obra.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  1. Executando o Plano: O Art. 98 se autoincrimina. Ele chama o Poder Moderador de “chave de toda a organização” e o delega “privativamente ao Imperador”. Isso não é equilíbrio, é supremacia. Ele não é um poder entre os outros, mas acima deles. O Imperador, com essa “chave”, podia dissolver a Câmara dos Deputados, demitir ministros e nomear senadores vitalícios, ou seja, intervir diretamente nos outros poderes.
  2. O Contexto: Dom Pedro I havia dissolvido a Assembleia Constituinte de 1823 por considerá-la liberal demais e uma ameaça ao seu poder. A Constituição de 1824 foi “outorgada” (imposta) por ele. O Poder Moderador foi o principal instrumento que ele criou para garantir que nunca mais seria desafiado.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A alternativa (E) atender os interesses das oligarquias regionais é uma armadilha muito forte. O raciocínio falho é: “O Brasil sempre foi governado por oligarquias, então as leis devem ser para beneficiá-las”. A defesa é o conhecimento histórico: o Primeiro Reinado foi marcado por um conflito feroz entre o poder central do Imperador e as tendências federalistas e o poder das elites regionais. O Poder Moderador foi a arma do Imperador para sufocar as oligarquias e impor a vontade do Rio de Janeiro, não para atendê-las.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A criação do Poder Moderador foi uma manobra jurídica para dar uma aparência de modernidade e liberalismo (usando Montesquieu) a uma estrutura de poder profundamente centralizadora e absolutista, centrada na figura do Imperador.
    • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para o objetivo de justificar, fortalecer e legalizar o poder autoritário do governo central.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) expandir os limites das fronteiras nacionais.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa que um poder forte serve para a guerra e expansão.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O Poder Moderador era uma ferramenta de política interna, para controlar o governo, não de política externa para expansão territorial.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) assegurar o monopólio do comércio externo.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode fazer uma associação genérica entre poder e economia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A norma citada trata da organização política do Estado. Questões de monopólio comercial pertencem à esfera econômica e não são o objetivo direto do Poder Moderador.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) legitimar o autoritarismo do aparelho estatal.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. “Legitimar” significa dar aparência de legalidade. “Autoritarismo do aparelho estatal” descreve perfeitamente um sistema onde o chefe de Estado (Imperador) tem poder supremo sobre os outros. A norma usa a fama de Montesquieu para legitimar o autoritarismo de Dom Pedro.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) evitar a reconquista pelas forças portuguesas.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno lembra que a Independência era recente e o medo de Portugal existia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Assim como a alternativa A, esta é uma questão de política externa e defesa. O Poder Moderador foi desenhado para controlar os brasileiros, não para lutar contra os portugueses.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) atender os interesses das oligarquias regionais.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa no poder tradicional das elites locais no Brasil.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Poder Moderador foi a principal arma do poder central contra as elites regionais que desafiavam o Imperador.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica evidente que a alternativa C é a correta, pois a apropriação das ideias de Montesquieu foi uma fachada para legitimar um arranjo constitucional que, na prática, consolidava o autoritarismo do Imperador através do Poder Moderador.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Montesquieu construiu uma cerca para conter o poder; Dom Pedro pegou a cerca e construiu um trono.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de apropriação de uma linguagem libertária para justificar o controle é uma tática central no mundo da tecnologia e da vigilância digital. Empresas e governos frequentemente usam termos como “segurança”, “otimização” e “experiência personalizada” para justificar a coleta massiva de dados pessoais. A linguagem é positiva e soa como um benefício para o usuário, mas a estrutura por trás legitima um sistema de vigilância e controle sem precedentes. Assim como Dom Pedro usou “equilíbrio” para justificar o poder absoluto, a era digital usa “conveniência” para legitimar a vigilância.

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