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Questão 86, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

A filosofia é como uma árvore, cujas raízes são a metafísica; o tronco, a física, e os ramos que saem do tronco são todas as outras ciências, que se reduzem a três principais: a medicina, a mecânica e a moral, entendendo por moral a mais elevada e a mais perfeita porque pressupõe um saber integral das outras ciências, e é o último grau da sabedoria.

DESCARTES, R. Princípios da filosofia. Lisboa: Edições 70, 1997 (adaptado).

Essa construção alegórica de Descartes, acerca da condição epistemológica da filosofia, tem como objetivo

A) sustentar a unidade essencial do conhecimento.

B) refutar o elemento fundamental das crenças.

C) impulsionar o pensamento especulativo.

D) recepcionar o método experimental.

E) incentivar a suspensão dos juízos.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Filosófico
  • História da Filosofia (Racionalismo Cartesiano)
  • Epistemologia (Teoria do Conhecimento)

Tema/Objetivo Geral: Analisar a concepção cartesiana da estrutura do conhecimento, identificando seu caráter unificado e hierárquico.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a compreensão de uma metáfora complexa e a interpretação de sua função dentro de um sistema filosófico. Não basta entender as partes da árvore; é preciso entender o que a imagem da árvore como um todo quer comunicar.

Gabarito: A) sustentar a unidade essencial do conhecimento.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a imagem de uma árvore é, por natureza, a de um organismo único e integrado. As raízes, o tronco e os ramos não são entidades separadas; são partes interdependentes de um mesmo ser vivo. Ao usar essa alegoria, Descartes está argumentando que todo o conhecimento (as diferentes ciências) brota de um mesmo tronco (a física) e se alimenta das mesmas raízes (a metafísica), formando um sistema único.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: por que Descartes comparou a filosofia a uma árvore? O que essa imagem nos diz sobre como ele via a relação entre as diferentes áreas do saber?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o conhecimento como um corpo humano. A metafísica seriam os ossos, a estrutura invisível que dá sustentação a tudo. A física seria o sistema circulatório e os músculos, que conectam tudo e permitem o movimento. E as outras ciências (medicina, moral) seriam os braços, as pernas, os órgãos que realizam as ações no mundo. Você não pode ter um braço saudável sem um esqueleto e sem sangue circulando. O verdadeiro desafio aqui é entender que a principal mensagem dessa analogia é que todas as partes, embora diferentes, pertencem a um único corpo, são interdependentes e formam uma unidade.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Anatomizar a Árvore: Vamos identificar o que cada parte da árvore (raízes, tronco, ramos) representa no mapa do conhecimento de Descartes.
    2. Analisar a Relação entre as Partes: Como as partes se conectam? Uma depende da outra?
    3. Determinar o Propósito da Alegoria: Qual é a grande ideia que a imagem de uma árvore como um todo transmite sobre o conhecimento?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise Estrutural da Alegoria Cartesiana.

🕵️‍♂️ A ÁRVORE DA FILOSOFIA: UMA ANÁLISE ESTRUTURAL

  • As Raízes:A Metafísica.
    • Função: Assim como as raízes sustentam e nutrem a árvore, a metafísica (o estudo dos primeiros princípios, da existência de Deus, da alma, do “Penso, logo existo”) é o fundamento de todo o conhecimento seguro para Descartes. Sem raízes firmes, a árvore cai.
  • O Tronco:A Física.
    • Função: Assim como o tronco emerge das raízes e sustenta os galhos, a física (o estudo do mundo material, das leis da natureza) é a ciência fundamental que brota dos princípios metafísicos e serve de base para as ciências mais específicas.
  • Os Ramos:Todas as outras ciências (Medicina, Mecânica, Moral).
    • Função: Assim como os ramos e os frutos são a parte mais visível e “útil” da árvore, as ciências aplicadas são o resultado final e prático de todo o sistema do conhecimento.

A Grande Lição da Imagem: Uma árvore não é uma coleção de partes separadas. É um sistema integrado. Não se pode ter os frutos (a moral perfeita) sem os ramos, o tronco e, fundamentalmente, as raízes. A alegoria serve para mostrar que a ciência não é um arquipélago de ilhas de conhecimento isoladas, mas um continente único e coeso, onde tudo está conectado. O objetivo é defender a unidade do saber.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A investigação da alegoria nos mostra que Descartes tinha um projeto ambicioso. Ele queria reconstruir todo o conhecimento humano sobre bases sólidas e racionais, como se constrói um edifício. A metáfora da árvore serve exatamente para ilustrar essa arquitetura.

A escolha de uma árvore não é acidental. Uma árvore é um organismo vivo, onde cada parte tem uma função e depende das outras para sobreviver. As folhas não existem sem os galhos, os galhos não existem sem o tronco, e o tronco não existe sem as raízes.

Ao mapear o conhecimento nessa estrutura, Descartes está fazendo uma afirmação poderosa: a medicina, a moral e a mecânica não são campos autônomos. Elas são ramos que crescem do mesmo tronco da física, que por sua vez é nutrido pelas mesmas raízes da metafísica. Portanto, todo o conhecimento, para ser verdadeiro e seguro, deve fazer parte deste sistema único e unificado.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (D), “recepcionar o método experimental”. Descartes é uma figura chave da Revolução Científica, e a física (o tronco) é central em seu sistema. É fácil pensar que o objetivo é valorizar a ciência experimental. Mas a armadilha é esquecer das raízes. Para Descartes, a física e o método experimental não se sustentam sozinhos. Eles precisam estar firmemente “enraizados” na certeza racional da metafísica. A alegoria, portanto, não serve para celebrar o método experimental por si só, mas para mostrar seu lugar dentro de um sistema unificado maior, que tem a filosofia como base.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A alegoria de Descartes usa a imagem de um organismo interconectado (a árvore) para representar o conhecimento como um sistema hierárquico, mas totalmente integrado, onde todas as partes derivam de uma mesma base.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, capturar essa ideia de integração, interconexão, sistema único ou unidade do conhecimento.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) sustentar a unidade essencial do conhecimento.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A imagem da árvore como um todo orgânico é a metáfora ideal para defender a unidade de todas as ciências, que brotam de um mesmo sistema.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) refutar o elemento fundamental das crenças.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa na dúvida cartesiana e na crítica à tradição.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora Descartes tenha refutado muitas crenças em seu método, o objetivo desta alegoria específica não é refutar, mas construir, mostrar como o conhecimento se organiza.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) impulsionar o pensamento especulativo.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na metafísica como “especulação”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão. Para Descartes, a metafísica não era “especulação” no sentido de divagação, mas a busca pela certeza mais fundamental. Além disso, a árvore mostra como a metafísica serve de base para as ciências práticas, conectando a especulação à aplicação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) recepcionar o método experimental.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A alegoria inclui as ciências experimentais (no tronco e nos ramos), mas seu objetivo é mostrar que elas dependem de uma base filosófica, não celebrá-las isoladamente.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) incentivar a suspensão dos juízos.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor confunde a “dúvida metódica” de Descartes com a “suspensão do juízo” dos céticos.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição com o Projeto Cartesiano. A dúvida de Descartes era um método para superar a dúvida e chegar a um juízo seguro (“Penso, logo existo”), o oposto de suspender permanentemente o juízo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois a árvore de Descartes é o símbolo de seu grande projeto racionalista: a crença de que todo o universo do saber pode ser deduzido e organizado a partir de alguns poucos princípios fundamentais, formando um sistema único e coerente.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Para Descartes, a ciência não é um jardim com várias plantas diferentes; é uma única e majestosa sequoia, e a filosofia é o seu DNA.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A visão de Descartes de um conhecimento unificado se conecta diretamente ao sonho de alguns dos maiores físicos do século XX, como Albert Einstein e sua busca por uma “Teoria de Tudo”. Einstein passou as últimas décadas de sua vida tentando encontrar uma única teoria que pudesse unificar as forças fundamentais da natureza (gravidade e eletromagnetismo, em sua época). Hoje, a busca continua, tentando unir a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica. Essa busca por uma única “raiz” matemática da qual todo o “tronco” da física pudesse ser derivado é, em essência, a continuação do projeto cartesiano. É a mesma crença de que, por trás da aparente diversidade dos fenômenos, existe uma unidade essencial do conhecimento esperando para ser descoberta.

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