
No anúncio publicado na segunda metade do século XIX, qual a estratégia de resistência escrava apresentada?
A) Criação de relações de trabalho.
B) Fundação de territórios quilombolas.
C) Suavização da aplicação de normas.
D) Regularização das funções da remuneradas.
E) Constituição de economia de subsistência.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Histórico (Fonte Primária)
- História do Brasil (Escravidão, Formas de Resistência)
- Sociologia (Relações de Trabalho)
Tema/Objetivo Geral: Analisar, a partir de um anúncio de escravo fugido, uma estratégia de resistência que ia além da simples fuga, envolvendo a construção de uma nova identidade social.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige que o leitor não apenas identifique a fuga como resistência, mas que perceba a tática mais sofisticada descrita no anúncio. A chave está em entender o que a frase “Intitula-se forro, e quando fugio a primeira vez esteve contratado como camarada” revela sobre o plano de José.
Gabarito: A) Criação de relações de trabalho.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto mostra que a estratégia de José não era apenas se esconder (como em um quilombo), mas sim se reintegrar à sociedade sob uma nova identidade – a de homem livre (“forro”) – para poder vender sua força de trabalho em vez de ser propriedade, estabelecendo, assim, novas relações de trabalho.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é clara: qual foi a tática de sobrevivência e luta de José, o “escravo fugido”, que o próprio anúncio nos revela?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um prisioneiro que escapa de um campo de trabalhos forçados. Ele tem duas opções:
- Ir para as montanhas e viver isolado, escondido para sempre (a lógica do quilombo).
- Conseguir documentos falsos, mudar de nome, ir para outra cidade e arranjar um emprego normal, fingindo ser um cidadão comum (a lógica de José).
O anúncio é o “alerta de procurado” que, ao descrever o fugitivo, acaba revelando seu modus operandi: “Cuidado, ele se passa por um trabalhador livre!”. O verdadeiro desafio aqui é entender que a principal arma de José não era a força, mas a astúcia de se camuflar como um trabalhador livre dentro da própria sociedade que o escravizava.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar o Ato de Resistência Primário: Qual é a primeira e mais óbvia forma de resistência que José praticou?
- Analisar a Estratégia Pós-Fuga (A Pista Chave): O que José fazia depois de fugir? Como ele sobrevivia?
- Definir a Tática: Vamos dar o nome a essa estratégia de sobrevivência e reintegração social.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise Estratégica da Resistência, que nos ajudará a decodificar o plano de José.
🕵️♂️ ANÁLISE DO PLANO DE JOSÉ
- Ação de Ruptura: A fuga. Ele rompe fisicamente com o cativeiro.
- A Estratégia de Sobrevivência (O Ponto Central):
- Criação de uma Nova Identidade: “Intitula-se forro“. “Forro” era a palavra para um ex-escravo legalmente livre. Ao se autodenominar “forro”, José está criando uma nova identidade social para si mesmo, a de homem livre.
- Busca por Inserção Social e Econômica: O que ele faz com essa nova identidade? O anúncio nos conta o que ele fez na fuga anterior: “esteve contratado como camarada em uma fazenda em Capivary“.
- Análise: “Contratado como camarada” descreve uma relação de trabalho (ainda que precária), não de escravidão. Ele estava vendendo sua força de trabalho, não sendo propriedade.
- Diagnóstico da Estratégia: A resistência de José não termina na fuga. Ela continua na sua tentativa de construir uma vida fora do cativeiro, não se isolando, mas se inserindo na sociedade por meio da criação de novas relações de trabalho.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
O anúncio é um documento fascinante porque, na ânsia de capturar José, o senhor de escravos acaba por descrever a inteligência e a agência de seu “bem”.
A frase “Intitula-se forro” é a chave. José não estava apenas correndo. Ele tinha um plano, uma “personagem”. Ele sabia que, para sobreviver, precisava de uma identidade crível. A de “forro” era perfeita.
E a prova de que o plano funcionava está na frase seguinte, que descreve a primeira fuga: ele conseguiu um “contrato como camarada”. Ele conseguiu se passar por um trabalhador livre e, de fato, trabalhar como um.
Portanto, a resistência dele não era apenas a negação da escravidão (a fuga), mas a afirmação de uma nova condição: a de trabalhador. Sua luta era pela substituição de uma relação de posse por uma relação de trabalho.
🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B): “Fundação de territórios quilombolas”. O quilombo é a forma mais famosa de resistência escrava. Mas a armadilha é aplicar um conhecimento geral sem ler a prova específica. O anúncio não dá nenhuma pista de que José foi ou estava indo para um quilombo. Pelo contrário, a informação de que ele esteve “contratado em uma fazenda em Capivary” aponta na direção oposta: a de uma tentativa de se misturar à sociedade “livre”, e não de se isolar dela.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve um escravizado que, após fugir, assume a identidade de homem livre para se inserir no mercado de trabalho, ainda que de forma precária.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, focar nessa estratégia de buscar ou criar formas de trabalho que não sejam baseadas na escravidão.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) Criação de relações de trabalho.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A estratégia de se passar por “forro” e ser “contratado como camarada” é exatamente a criação de uma relação de trabalho para substituir a relação de escravidão.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
B) Fundação de territórios quilombolas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição com as Evidências. As pistas do texto apontam para uma inserção na sociedade, não para o isolamento em um quilombo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) Suavização da aplicação de normas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa em formas de negociação dentro da senzala.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A estratégia de José é a ruptura total (fuga), não a negociação ou suavização das regras da escravidão.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) Regularização das funções da remuneradas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no fato de o trabalho ser remunerado.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão. A estratégia não é “regularizar” uma função (o que implicaria uma luta por direitos dentro de um sistema), mas sim criar uma oportunidade de trabalho fora do sistema escravista.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) Constituição de economia de subsistência.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa em outra forma de sobrevivência fora da escravidão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto indica que José buscou trabalho assalariado (“contratado como camarada”), não que ele montou uma roça para subsistência.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois o anúncio, sem querer, imortaliza a sofisticação da resistência de José, que lutava não apenas para ser livre do trabalho forçado, mas para ser reconhecido como um trabalhador.
Resumo-flash (A Imagem Mental): José não fugiu apenas da senzala; ele tentou invadir a casa-grande pela porta dos fundos, disfarçado de trabalhador livre.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A estratégia de José é um exemplo fascinante do conceito de “Performances da Vida Cotidiana” do sociólogo Erving Goffman. Para Goffman, todos nós “representamos” papéis sociais no palco da vida. José é um ator brilhante. Ele entende que a liberdade, no Brasil de 1879, não é um estado natural, mas um papel a ser representado. Ele adota o figurino, o discurso (“Intitula-se forro”) e o comportamento de um homem livre para ser aceito como tal. Sua resistência é uma performance de liberdade. A conexão surpreendente é com a Criptografia e a Esteganografia (a arte de esconder mensagens). A identidade de José como escravizado fugido é a “mensagem secreta” que ele precisa esconder. A identidade de “forro” é a “mensagem pública” e inofensiva que ele usa para camuflar sua verdadeira condição. Ele está, literalmente, escondendo sua identidade à vista de todos.