Há pouco mais de um ano, o chefe de polícia do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Alfredo Madureira, em pleno
exercício de suas atribuições, entendeu tomar energéticas providências contra o curandeiro Breves, e depois de
sucessivas queixas que recebera relativamente às curas praticadas pelo milagroso esculápio, concluiu as suas
diligências policiais com a prisão de Breves. Essa prisão, porém, e as medidas tomadas contra a exploração da
boa-fé de muita gente infeliz tiveram de cessar, porque apareceram os advogados do curandeiro Breves, em nome da liberdade de profissão, e em nome da arte sobrenatural de cura com benzeduras e raminhos de alecrim. E assim, findaram as perseguições ao benemérito esculápio que, de fronte erguida, continuou a sua carreira de triunfo, interrompida por um curto espaço de tempo.
Autoridade e curandeirismo. Gazeta de Notícias, 18 out. 1896.
No texto, os dois pontos de vista apresentados pela polícia e pelos advogados sobre as práticas populares
de cura se distanciam por apresentarem
A) visões díspares sobre o mesmo tipo de ofício.
B) discursos laudatórios sobre a mesma ordem vigente.
C) regras sanitárias sobre a mesma atividade terapêutica.
D) registros certificados sobre o mesmo exercício médico.
E) regulamentos eugênicos sobre o mesmo fenômeno da cultura.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História do Brasil (Primeira República e Tensão entre Cultura Popular vs. Modernização/Cientificismo).
- Sociologia (Conflito entre Lei Formal e Práticas Tradicionais).
Tema/Objetivo Geral:
- Análise de conflitos socioculturais no Brasil do final do século XIX, especificamente o choque entre a tentativa do Estado de impor a medicina científica (combatendo o curandeirismo) e a resistência popular amparada na tradição e em brechas jurídicas (liberdade de ofício).
Nível da Questão: Médio.
- A questão exige interpretação de texto e contexto histórico. O aluno precisa identificar que o texto descreve um mesmo fenômeno (cura popular) sendo interpretado de duas formas antagônicas (crime vs. profissão/arte). A dificuldade está no vocabulário (“díspares”, “laudatórios”, “esculápio”) e na sutileza de perceber que o conflito não é sobre higiene, mas sobre a legitimidade da prática.
Gabarito: A.
- O texto expõe o choque entre a visão da Polícia (que vê o curandeiro como criminoso/explorador da boa-fé) e a dos Advogados (que o veem como profissional livre/artista sobrenatural). São, portanto, visões opostas (díspares) sobre a mesma atividade (ofício).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão pede que comparemos dois discursos presentes no texto: o da polícia e o dos advogados. Eles estão falando da mesma coisa (o trabalho do curandeiro), mas concordam ou discordam? E em que ponto?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um grafiteiro pintando um muro.
O Policial diz: “Isso é vandalismo e crime ambiental!”
O Advogado (ou Crítico de Arte) diz: “Isso é expressão artística e liberdade de comunicação!”
A ação é a mesma (pintar o muro). As visões são opostas (crime vs. arte).
A questão quer que você marque a alternativa que diz: “Eles têm opiniões diferentes sobre o mesmo trabalho”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar a visão da Polícia no texto (“exploração da boa-fé”, “prisão”).
- Identificar a visão dos Advogados no texto (“liberdade de profissão”, “arte sobrenatural”).
- Concluir que são visões opostas (díspares) sobre a mesma prática (ofício).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o conflito, precisamos de um Quadro de Oposições.
Ferramenta: O Duelo de Narrativas
| Agente | Como define o Curandeiro? | Ação Proposta | Base do Argumento |
| Polícia (Estado/Ciência) | Charlatão, explorador, criminoso. | Prisão e repressão. | Ordem pública e defesa da ciência (implícito). |
| Advogados (Defesa) | Profissional (“esculápio”), artista. | Liberdade e continuidade. | Constituição (Liberdade de ofício) e Tradição. |
Conclusão da Ferramenta:
Não há acordo. Há um abismo entre as duas visões.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o texto:
- A Polícia:“tomar energéticas providências”, “medidas contra a exploração da boa-fé”.
- Para a polícia, o curandeirismo é uma fraude que precisa ser parada.
- Os Advogados:“em nome da liberdade de profissão”, “arte sobrenatural de cura”.
- Para a defesa, curar é um trabalho (profissão) e uma crença válida.
- O Resultado:“findaram as perseguições”, “continuou a sua carreira”.
- A visão jurídica venceu a policial naquele momento.
Síntese:
O texto mostra o confronto entre a tentativa de higienização social (polícia) e a resistência baseada em direitos liberais e cultura popular (advogados). Eles olham para o mesmo homem (o curandeiro Breves) e veem coisas totalmente diferentes. Isso é ter visões díspares (diferentes/opostas).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode travar na palavra “Ofício” da alternativa A.
“Curandeiro é ofício?”. No contexto do século XIX e do argumento dos advogados (“liberdade de profissão”), SIM. Eles argumentavam justamente que curar era um meio de vida legítimo. Não julgue com a lei de hoje (onde exercício ilegal da medicina é crime), julgue com o argumento apresentado no texto de 1896.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: Polícia diz “Crime”. Advogado diz “Trabalho”. São opiniões contrárias sobre a mesma atividade.
- Expectativa: Algo como “opiniões diferentes”, “visões opostas”, “conflito de interpretações”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) visões díspares sobre o mesmo tipo de ofício.
- Análise de Correspondência: “Díspares” significa diferentes/desiguais. A polícia vê crime, os advogados veem profissão (ofício). Encaixe perfeito com a análise do texto.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) discursos laudatórios sobre a mesma ordem vigente.
- O Diagnóstico do Erro: Contradição de Vocabulário.
- Por que está incorreta: “Laudatório” significa que elogia/louva. A polícia não elogia o curandeiro (ela o prende!). Além disso, eles não defendem a mesma ordem; a polícia defende a ordem sanitária, os advogados defendem a liberdade individual.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) regras sanitárias sobre a mesma atividade terapêutica.
- O Diagnóstico do Erro: Foco Parcial.
- Por que está incorreta: A polícia pode estar preocupada com regras sanitárias, mas os advogados defendem a “arte sobrenatural” e a “liberdade”, não regras de higiene. O debate é jurídico/social, não técnico-sanitário.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) registros certificados sobre o mesmo exercício médico.
- O Diagnóstico do Erro: Anacronismo/Invenção.
- Por que está incorreta: O curandeiro não tinha registro ou diploma (certificado). Era justamente por isso que a polícia o perseguia. Se houvesse registro certificado, não haveria conflito.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) regulamentos eugênicos sobre o mesmo fenômeno da cultura.
- O Diagnóstico do Erro: Extrapolação Histórica.
- Por que está incorreta: Eugenia (melhoramento racial) é um conceito que ganha força mais tarde e foca na biologia/raça. O texto trata de uma disputa jurídica sobre prática profissional e crença, não sobre biologia racial.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
No Brasil da Primeira República, o choque entre a modernidade desejada e a tradição vivida se manifestava nos tribunais: o curandeiro era, ao mesmo tempo, o criminoso para a polícia e o trabalhador legítimo para a defesa, revelando visões díspares sobre o mesmo ofício (Alternativa A).
Resumo-flash (A Imagem Mental):
👮♂️ Polícia: Curandeiro = Bandido.
👨⚖️ Advogado: Curandeiro = Trabalhador.
⚡ Choque: Visões Díspares.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conexão com a Atualidade (Regulamentação de Profissões):
O debate sobre o curandeiro em 1896 é o avô do debate atual sobre Uber vs. Táxi ou Médicos vs. Terapeutas Holísticos.
Sempre que uma nova (ou velha) prática colide com as regras estabelecidas pelo Estado, surge o conflito: “Isso é liberdade de trabalhar ou é risco para a sociedade?”. A história muda os personagens, mas o roteiro do conflito entre regulação estatal e liberdade individual continua o mesmo.