A corda puxada pelos devotos é, atualmente, um dos elementos mais característicos do Círio de Nazaré. Inserida na procissão de 1855, para que os devotos pudessem tirar a berlinda de um atoleiro, hoje ela perdeu seu significado prático original, embora seu aspecto simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado tenha permanecido ao longo dos anos.
Círio de Nazaré. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br.
Acesso em: 16 nov. 2021 (adaptado).
A reapropriação simbólica da corda apresentada no texto mostra como a festividade está marcada pela
A) reprodução de culto católico.
B) assimilação de ritual nativo.
C) contestação de signo cultural.
D) recuperação de costume europeu.
E) manifestação de imaginário popular

Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Sociologia/Antropologia (Cultura, Símbolo, Tradição, Imaginário Social)
- Patrimônio Cultural Imaterial (Círio de Nazaré)
- Interprepretação de Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral
Análise da ressignificação de um elemento (a corda do Círio) dentro de uma manifestação cultural, compreendendo-o como parte do imaginário popular.
📊 Nível da Questão
Médio.
Por quê? A questão exige a interpretação da transformação de um objeto prático em um objeto simbólico. O aluno precisa entender que a corda, mesmo perdendo sua função original, ganhou um novo significado criado e mantido pela fé e pela devoção dos participantes (“o povo”). As alternativas usam um vocabulário conceitual (“imaginário popular”, “culto católico”), e é preciso diferenciar a manifestação popular de um simples ritual oficial.
✅ Gabarito
Alternativa E.
Resumo: O texto mostra como a corda, que surgiu por uma necessidade prática (desatolar a berlinda), perdeu essa função, mas ganhou um novo significado simbólico, criado pelos próprios devotos (“o povo”): o de sacrifício e fé. Essa criação e manutenção de significados e símbolos pelo coletivo é a definição do imaginário popular.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“A reapropriação simbólica da corda apresentada no texto mostra como a festividade está marcada pela”
O que está sendo pedido?
A questão nos pede para identificar qual fenômeno cultural explica a transformação da corda do Círio de um objeto útil para um objeto sagrado.
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar a mudança de significado da corda e entender quem foram os agentes dessa mudança (a Igreja ou os devotos?) para, então, nomear o processo.
🧠 Quem decidiu que segurar a corda seria um ato de fé e sacrifício? Foi um padre em um decreto, ou foi o próprio povo, os “devotos”, que deram esse novo sentido ao objeto?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Círio de Nazaré: Uma das maiores manifestações religiosas católicas do Brasil e do mundo, realizada em Belém do Pará. É um exemplo de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
- Reapropriação Simbólica (ou Ressignificação): É o processo pelo qual um objeto, um gesto ou uma prática perde seu significado original e adquire um novo significado, geralmente atribuído pelo grupo que o utiliza.
- Imaginário Popular: É o conjunto de crenças, símbolos, mitos, valores e representações criado e compartilhado por um povo ou uma comunidade. É a “imaginação coletiva” que dá sentido ao mundo e às tradições. O imaginário popular é dinâmico e capaz de criar novos símbolos, como a corda do Círio.
- Culto Católico (Oficial): Refere-se aos rituais, dogmas e práticas estabelecidas e reguladas pela hierarquia da Igreja Católica. Muitas manifestações populares, embora católicas, incorporam elementos que não fazem parte do culto oficial.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
O texto nos conta a história da corda do Círio de Nazaré. A história começa de um jeito bem prático: em 1855, o carro que levava a santa atolou na lama, e o povo (os “devotos”) usou uma corda para puxá-lo. Foi uma solução de emergência.
Com o tempo, o carro não atolava mais, mas o povo continuou levando a corda. Por quê? Porque aquele ato de puxar a corda, de fazer força junto pela santa, ganhou um novo significado. Deixou de ser um ato prático e virou um ato de fé, de sacrifício, de conexão com o sagrado.
A pergunta é: quem inventou esse novo significado? Não foi a Igreja em Roma. Foi o próprio povo, os devotos, na sua fé e na sua criatividade. Como chamamos esse processo de criação de símbolos e significados pelo povo?
Estratégia Geral 🗺️
Nossa estratégia será focar na dualidade apresentada pelo texto: o “significado prático original” versus o “aspecto simbólico” atual. Vamos analisar a origem e a manutenção desse significado simbólico para identificar o fenômeno cultural correspondente.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- A Origem Prática: O texto é claro sobre a origem da corda: foi inserida para uma função útil, “tirar a berlinda de um atoleiro”.
- A Perda da Função Original: O texto afirma que “hoje ela perdeu seu significado prático original”. A corda não é mais necessária para puxar o carro.
- A Aquisição de um Novo Significado (O Ponto-Chave): Apesar de inútil na prática, a corda se tornou um dos “elementos mais característicos” do Círio. Por quê? Porque ela adquiriu um novo significado: seu “aspecto simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado“.
- O Agente da Ressignificação: Quem atribuiu esse novo significado? O texto menciona os “devotos” como os que puxaram a corda originalmente e, implicitamente, são os que mantêm a tradição e seu significado simbólico. A transformação não partiu de uma ordem da Igreja, mas da experiência e da fé do povo.
- O Conceito: O processo pelo qual um grupo (o povo, os devotos) cria coletivamente símbolos e significados que dão sentido às suas práticas e tradições é a manifestação do imaginário popular. A corda se tornou um símbolo poderoso dentro do universo de crenças daquela comunidade.
A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha é a Alternativa A (“reprodução de culto católico”). Embora o Círio seja uma festa católica, a corda não é um elemento do culto católico oficial (como a hóstia ou a missa). Ela é uma criação popular, específica daquela manifestação. É um exemplo de como a religiosidade popular cria seus próprios rituais e símbolos, muitas vezes em paralelo (ou misturados) com a liturgia oficial.
Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que descreva esse processo de criação de significado pelo coletivo de fiéis.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) reprodução de culto católico.
Incorreta. A corda é um elemento da religiosidade popular, não uma parte do rito católico universal.
🔴 B) assimilação de ritual nativo.
Incorreta. O texto não fornece nenhuma informação que ligue a corda a rituais indígenas (nativos).
🔴 C) contestação de signo cultural.
Incorreta. Ocorre o oposto: a criação e a afirmação de um novo signo cultural.
🔴 D) recuperação de costume europeu.
Incorreta. O texto descreve o surgimento de um costume local, no Brasil, a partir de um evento específico, e não a recuperação de uma tradição europeia.
🟢 E) manifestação de imaginário popular.
Correta. A transformação de um objeto prático em um símbolo de fé e sacrifício, com um significado criado e mantido pelos próprios devotos ao longo do tempo, é uma expressão clara do poder do imaginário popular de criar e recriar suas tradições.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O texto narra a origem e a transformação do significado da corda no Círio de Nazaré. O objeto, que surgiu com uma função puramente prática, foi ressignificado pelos devotos ao longo do tempo, tornando-se um poderoso símbolo de fé, sacrifício e conexão com o sagrado. Esse processo de criação e atribuição de novos significados a elementos de uma prática cultural, partindo da própria comunidade de fiéis, é uma manifestação do imaginário popular, que molda e enriquece a festividade.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E.
Resumo Final para Revisão 🔍
Quando uma tradição ou um símbolo nasce “do povo” e não de uma ordem “de cima” (seja da Igreja, seja do Estado), estamos falando de uma manifestação da cultura popular ou do imaginário popular. A história da corda do Círio é um exemplo perfeito disso.