Questão 75, caderno azul do ENEM 2018

Os países industriais adotaram uma concepção diferente das relações familiares e do lugar da fecundidade
na vida familiar e social. A preocupação de garantir uma transmissão integral das vantagens econômicas e sociais
adquiridas tem como resultado uma ação voluntária de limitação do número de nascimentos.

GEORGE, P. Panorama do mundo atual. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1968 (adaptado).

Em meados do século XX, o fenômeno social descrito contribuiu para o processo europeu de

A) estabilização da pirâmide etária.
B) conclusão da transição demográfica.
C) contenção da entrada de imigrantes.
D) elevação do crescimento vegetativo.
E) formação de espaços superpovoados.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Geografia da População (Demografia).
  • Teoria da Transição Demográfica (Fases e Características).
  • Dinâmica Populacional da Europa (Século XX).

Tema/Objetivo Geral:
Relacionar as mudanças socioeconômicas (urbanização, custo de vida, planejamento familiar) com a evolução das taxas de natalidade e mortalidade, identificando em que fase da transição demográfica os países ricos se encontravam.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Exige o domínio do modelo teórico da Transição Demográfica. O aluno precisa saber que a “limitação voluntária de nascimentos” é o gatilho para a fase final desse processo.

Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta pois, ao reduzir drasticamente a natalidade para se equiparar à baixa mortalidade já conquistada, os países europeus fecharam o ciclo de crescimento acelerado, entrando na fase de estabilidade ou baixo crescimento (Fase 4), o que chamamos tecnicamente de “conclusão da transição demográfica”.


🕵️‍♂️ Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: O texto diz que, nos países industriais (ricos), as famílias decidiram ter menos filhos para manter o dinheiro e o status (“transmitir vantagens”). A questão quer o nome técnico do fenômeno demográfico que acontece quando a natalidade cai muito depois que a mortalidade já caiu.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central):
    • Antigamente (Fase 1): Ter filhos era ter mão de obra para a roça. Custo zero, lucro alto. Nasciam muitos, morriam muitos.
    • Modernidade (Fase 3/4): Ter filhos na cidade custa caro (escola, saúde, iPad). O filho vira uma “despesa” de luxo.
    • A questão pergunta: Quando a sociedade decide parar de ter muitos filhos por causa desse custo, o que acontece com o gráfico da população? (O gráfico “termina” a subida louca e estaciona).
  • Nosso Plano de Ataque:
    1. Entender o motivo da queda da natalidade citado no texto (custo de oportunidade).
    2. Visualizar as 4 fases da Transição Demográfica.
    3. Localizar a Europa de meados do séc. XX nesse gráfico.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial aqui é o Gráfico da Transição Demográfica. Vamos descrevê-lo em etapas:

Fase O que acontece? Resultado Populacional Onde estava a Europa no texto?
1. Pré-Transição Nasce muito, morre muito. Crescimento baixo ou nulo. (Europa no Séc. XVIII).
2. Explosão Demográfica A medicina melhora. Morre menos, mas continua nascendo muito. Crescimento acelerado (Baby Boom). (Europa no Séc. XIX).
3. Desaceleração A vida urbana encarece. Mulher no mercado de trabalho. A natalidade começa a cair. O crescimento diminui. (Início do Séc. XX).
4. Conclusão (Estabilização) Natalidade baixa encontra a Mortalidade baixa. Baixíssimo crescimento ou estagnação. (Europa em meados do Séc. XX – O cenário da questão).

Conceito Chave: A Conclusão da Transição ocorre quando o número de filhos por mulher (Taxa de Fecundidade) cai a ponto de apenas repor a população ou ficar abaixo disso. O texto descreve exatamente o mecanismo social (planejamento familiar) que causa isso.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  • O Diagnóstico do Texto: Pierre George fala em “limitação do número de nascimentos”. Isso significa Queda da Taxa de Natalidade.
  • O Motivo: “Garantir transmissão das vantagens econômicas”. Ou seja, se eu tiver 10 filhos, todos serão pobres. Se eu tiver 1 ou 2, posso dar boa educação e herança. Isso é a mentalidade urbana industrial.
  • A Consequência: Se a mortalidade já estava baixa (graças à medicina e saneamento) e agora a natalidade também ficou baixa (graças a essa nova mentalidade), o país parou de crescer loucamente. Ele concluiu o processo de transição.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (A) estabilização da pirâmide etária.
Muitos alunos marcam essa. Mas atenção: A pirâmide etária europeia não estabilizou nesse momento; ela começou a envelhecer (inverter). A base (jovens) estreitou e o topo (idosos) alargou. “Estabilizar” dá a ideia de que parou de mudar, mas a estrutura etária continuou mudando drasticamente rumo ao envelhecimento. O termo técnico correto para o ciclo demográfico é “Transição”.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto descreve o controle de natalidade. Controle de natalidade + Baixa mortalidade = Fim da transição demográfica.
  • Expectativa: Procuramos uma alternativa que fale sobre o fim do ciclo de crescimento populacional ou o termo “transição demográfica”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) estabilização da pirâmide etária.

  • Análise: O termo é impreciso. A pirâmide etária europeia sofreu um estreitamento da base (menos crianças) e um alargamento do topo (mais velhos). Ela mudou de formato (de triângulo para algo parecido com uma ânfora ou retângulo), não simplesmente “estabilizou”. Além disso, a pirâmide continua mudando hoje (encolhimento).
  • Diagnóstico do Erro: Imprecisão Terminológica. A pirâmide estava em mutação (envelhecimento), não estática.
  • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR. (É consequência, mas o termo técnico para o processo global descrito é outro).,

B) conclusão da transição demográfica.

  • Análise: Perfeito. A “transição” é a passagem de um equilíbrio primitivo (nasce muito/morre muito) para um equilíbrio moderno (nasce pouco/morre pouco). O texto descreve a ação final necessária para fechar esse ciclo: a redução voluntária dos nascimentos.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) contenção da entrada de imigrantes.

  • Análise: Pelo contrário! Como a natalidade caiu muito (conforme o texto diz), faltou mão de obra na Europa no pós-guerra. Isso estimulou a entrada de imigrantes (turcos na Alemanha, argelinos na França) para trabalhar nas fábricas. A baixa natalidade cria necessidade de imigrantes, não contenção.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição Histórica. A Europa precisou importar gente justamente porque parou de produzir gente.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) elevação do crescimento vegetativo.

  • Análise: Crescimento Vegetativo = Natalidade – Mortalidade. Se a natalidade cai (como diz o texto), o crescimento vegetativo diminui, não se eleva.
  • Diagnóstico do Erro: Erro Matemático. O texto descreve o freio do crescimento, não a aceleração.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) formação de espaços superpovoados.

  • Análise: “Superpovoamento” (ou explosão demográfica) ocorre na Fase 2 da transição (muitos nascimentos). O texto descreve a limitação de nascimentos, o que evita o superpovoamento e leva à estabilidade demográfica.
  • Diagnóstico do Erro: Oposição ao Texto. O texto descreve o remédio contra a superpopulação.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A mentalidade burguesa de “investir na qualidade do filho em vez da quantidade” foi o motor cultural que derrubou as taxas de natalidade na Europa, selando a conclusão da transição demográfica e inaugurando a era das sociedades envelhecidas.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
📉 Do Triângulo ao Retângulo: A Europa deixou de ser uma pirâmide (muitos bebês) para virar um prédio retangular (poucos bebês, muitos adultos), encerrando a transição.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Previdência Social (INSS)!
A conclusão da transição demográfica (alternativa B) cria um problema grave hoje: se nascem poucas crianças e os idosos vivem muito, quem paga a aposentadoria? É por causa desse fenômeno de 1968 (descrito na questão) que hoje discutimos reformas da previdência no mundo todo.

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