A humanidade, a humanidade do homem, ainda é um conceito completamente novo para o filósofo que não cochila em pé. A velha questão do próprio homem continua por ser inteiramente reelaborada, não apenas em relação às ciências do vivo, não apenas em relação ao que se nomeia com essa palavra geral, homogênea e confusa, o animal, mas em relação a todos os traços que a metafísica reservou ao homem e que nenhum deles resiste à análise.
DERRIDA, J. Papel-máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
No trecho, caracteriza-se o seguinte tema fundamental do pensamento filosófico contemporâneo:
A) Crise do sujeito.
B) Relativismo ético.
C) Virada linguística.
D) Teoria da referência.
E) Crítica à tecnociência.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Filosofia Contemporânea, Desconstrução, Metafísica, Antropologia Filosófica.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar a crítica contemporânea à concepção tradicional de “ser humano” (sujeito moderno), identificando a quebra das certezas metafísicas sobre quem somos.
Nível da Questão:
Difícil.
Por que está neste nível? Jacques Derrida é um autor complexo, conhecido por uma escrita densa. A questão exige que o aluno diferencie o método (análise da linguagem) do tema central do trecho (a indefinição do humano), além de conhecer o conceito técnico de “Sujeito” na filosofia.
Gabarito:
(A) Crise do sujeito.
Resumo: O texto afirma que as antigas definições de “homem” (racional, centro do mundo, estável) falharam (“não resistem à análise”). Quando a definição de quem somos colapsa, vivemos a Crise do Sujeito.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
O filósofo Jacques Derrida diz que tudo o que achávamos saber sobre o que define o “Homem” (a Humanidade) está errado ou precisa ser refeito. A questão quer saber: Qual é o nome técnico dado a esse momento histórico onde não sabemos mais definir com certeza o que é o ser humano?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que durante séculos a humanidade teve um documento de identidade (RG) onde estava escrito: “Nome: Homem. Profissão: Dono da Razão. Características: Fixo, Universal, Superior aos animais”.
Derrida chega, rasga esse RG e diz: “Nada disso é verdade. Tudo isso foi inventado”.
A questão pergunta: Como se chama a situação de alguém que teve seu RG rasgado e não sabe mais quem é? (Resposta: Crise de identidade, ou filosoficamente, Crise do Sujeito).
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Entender quem era o “Sujeito” na filosofia clássica (Descartes/Kant).
- Analisar como Derrida “desconstrói” esse sujeito no texto.
- Identificar a alternativa que nomeia esse colapso.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Precisamos abrir o arquivo sobre a História do “Eu”.
📂 DOSSIÊ: ASCENSÃO E QUEDA DO SUJEITO
- O Sujeito Moderno (Séc. XVII-XIX):
- Criado por Descartes (“Penso, logo existo”).
- Era visto como uma “rocha”: estável, consciente, racional, senhor de si mesmo e centro do conhecimento. A Metafísica garantia que o homem tinha uma “essência” imutável.
- A Crise Contemporânea (Séc. XX):
- Autores como Nietzsche, Freud e Derrida começaram a bater nessa rocha com uma marreta.
- Freud mostrou que o inconsciente nos domina (não somos senhores da nossa casa).
- Derrida (no texto) mostra que as definições de homem são apenas construções de linguagem que não se sustentam.
- Resultado: O “Sujeito” morreu ou entrou em crise. Ele não é mais o centro fixo. Ele é fragmentado, instável e uma incógnita.
Conceito Chave:
Desconstrução: É a estratégia de Derrida para desmontar conceitos que pareciam sólidos (como “Homem”), mostrando que eles são feitos de “papel” (linguagem/discurso), e não de “pedra” (verdade absoluta).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos ler o texto com a lupa do detetive.
- “A velha questão do próprio homem continua por ser inteiramente reelaborada” -> O conceito antigo não serve mais.
- “traços que a metafísica reservou ao homem… nenhum deles resiste à análise” -> As definições antigas (alma, razão pura) falharam.
A Análise do Detetive:
Se as velhas definições falharam e as novas ainda não estão prontas, o “Homem” está num limbo.
Na filosofia, o “Homem” enquanto centro do conhecimento e da ação chama-se Sujeito.
Se o Sujeito perdeu seus atributos e sua estabilidade, ele está em Crise.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (C) “Virada Linguística”. Derrida faz parte da Virada Linguística? Sim. Mas o tema do texto não é a linguagem em si, e sim o impacto da análise sobre a figura do Homem. A virada linguística é a ferramenta, a Crise do Sujeito é o diagnóstico apresentado no trecho.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
Síntese do raciocínio: O texto descreve o desmoronamento da definição de humano.
Expectativa: Uma expressão que indique o fim, a morte, a desconstrução ou a crise do conceito de homem/eu/sujeito.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos examinar os suspeitos.
- A) Crise do sujeito.
- Análise: Perfeito. O “sujeito” é o termo técnico para o “eu” ou o “homem” na filosofia moderna. O texto diz explicitamente que a definição desse homem não se sustenta mais e precisa ser refeita. Isso é a definição de crise.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- B) Relativismo ético.
- Análise: O relativismo ético diz que “o bem e o mal dependem da cultura”. O texto de Derrida é mais profundo (ontológico): ele questiona o que é o ser humano, e não apenas como ele deve agir.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo (Focar na moral quando o tema é a existência).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) Virada linguística.
- Análise: Distrator fortíssimo. A Virada Linguística é o movimento filosófico que diz que “os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem”. Derrida pertence a esse contexto. Porém, o trecho foca no objeto da análise (“a velha questão do homem”) e não no meio (a linguagem). A consequência descrita no texto é sobre a humanidade, caracterizando a crise do sujeito.
- Diagnóstico do Erro: Confundir a Causa/Contexto com o Efeito/Tema específico.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) Teoria da referência.
- Análise: A Teoria da Referência é um tópico da Filosofia Analítica (lógica, Russell, Frege) sobre como as palavras apontam para coisas no mundo. Derrida (Filosofia Continental) critica justamente a ideia de que a linguagem refere-se perfeitamente à realidade.
- Diagnóstico do Erro: Erro de Escola Filosófica (Analítica x Continental).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) Crítica à tecnociência.
- Análise: O texto menciona “ciências do vivo” apenas como um dos campos de comparação, mas o foco é a crítica à “metafísica”, não à tecnologia ou à ciência moderna em si.
- Diagnóstico do Erro: Fuga ao tema principal.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Quando a filosofia contemporânea puxou o tapete das certezas metafísicas, o “Homem” (Sujeito) caiu do seu pedestal de perfeição e estabilidade, inaugurando a era da Crise do Sujeito.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🪞 Espelho Quebrado: O homem olha no espelho e não vê mais uma imagem única, mas cacos fragmentados.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa “Crise do Sujeito” é o que permite hoje as discussões sobre Identidade de Gênero e Transumanismo. Se não existe uma “essência humana fixa” (como dizia a metafísica antiga), então o ser humano é uma construção que pode ser modificada, redefinida e performada de várias maneiras. A liberdade de “ser quem você quiser” nasce filosoficamente da morte do “sujeito fixo”.