A reabilitação da biografia histórica integrou as aquisições da história social e cultural, oferecendo aos diferentes atores históricos uma importância diferenciada, distinta, individual. Mas não se tratava mais de fazer, simplesmente, a história dos grandes nomes, em formato hagiográfico — quase uma vida de santo —, sem problemas, nem máculas. Mas de examinar os atores (ou o ator) célebres ou não, como testemunhas, como reflexos, como reveladores de uma época.
DEL PRIORE, M. Biografia: quando o indivíduo encontra a história. Topoi, n. 19, jul.-dez. 2009
De acordo com o texto, novos estudos têm valorizado a história do indivíduo por se constituir como possibilidade de
A) adesão ao método positivista.
B) expressão do papel das elites.
C) resgate das narrativas heroicas.
D) acesso ao cotidiano das comunidades.
E) interpretação das manifestações do divino.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Teoria da História / Historiografia (Escola dos Annales, História Cultural, Micro-história)
- Interpretação de Texto
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um texto sobre historiografia para compreender a mudança no uso das biografias, que passaram de hagiografias de “grandes homens” para instrumentos de análise do social e do cotidiano.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige a capacidade de entender uma mudança de paradigma dentro da disciplina da História. O candidato precisa interpretar corretamente o que significa ver um indivíduo não como um herói isolado, mas como “testemunha, reflexo e revelador de uma época”.
- Gabarito: D
- A alternativa está correta porque o texto afirma que a nova biografia não se interessa mais em louvar “grandes nomes”, mas em examinar os indivíduos (“célebres ou não”) como “reveladores de uma época”. Ao estudar a vida de uma pessoa, mesmo comum, o historiador ganha uma janela para as crenças, os valores e as práticas de sua sociedade, ou seja, um acesso ao cotidiano das comunidades.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que o jeito de escrever biografias históricas mudou. Antigamente, era só para falar bem de ‘super-heróis’ (grandes nomes). Hoje, a biografia tem um novo valor, uma nova utilidade para os historiadores. Qual é essa nova utilidade?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que, antigamente, os historiadores eram como paparazzi de celebridades, focados apenas em tirar fotos glamorosas de reis, generais e santos (os “grandes nomes”). A “nova biografia” transformou o historiador em um detetive de cena do crime. Agora, ele não se importa se a pessoa é famosa ou não. Ele estuda a vida de um indivíduo (“célebre ou não”) como uma pista, uma “testemunha” que pode revelar os segredos de toda uma época: como as pessoas viviam, no que acreditavam, como eram suas casas, etc. A biografia deixou de ser um pôster e virou uma lupa para investigar o cotidiano.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar a “Velha Biografia”: O que o texto diz que a biografia histórica não é mais?
- Analisar a “Nova Biografia”: Qual é o novo propósito de se estudar a vida de um indivíduo, segundo o texto?
- Conectar Indivíduo e Época: Como a vida de uma pessoa pode ser “reveladora de uma época”?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa nova função da biografia.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa de Abordagens Biográficas. Ela nos ajudará a visualizar a mudança de paradigma na historiografia.
| Análise da Biografia | A “Velha” Biografia (Rejeitada pelo Texto) | A “Nova” Biografia (Defendida pelo Texto) |
| Objeto de Estudo | Apenas os “grandes nomes” (reis, santos, heróis). | Os indivíduos, “célebres ou não”. |
| Formato | Hagiográfico (como uma “vida de santo”), sem problemas nem defeitos. Uma narrativa heroica. | Uma análise crítica. |
| Função do Indivíduo | O indivíduo é o protagonista da história, um ser excepcional acima de seu tempo. | O indivíduo é uma “testemunha”, um “reflexo”, um “revelador” de uma época. |
| Objetivo do Historiador | Exaltar o grande homem. | Usar a vida do indivíduo como uma janela para entender a sociedade, a cultura, as mentalidades e a vida comum. |
Conclusão Forense: A tabela mostra uma inversão completa. Na velha biografia, a época era o pano de fundo para a história do grande homem. Na nova biografia, o homem (mesmo que comum) é a lupa através da qual o historiador investiga a época. O objetivo final é entender o coletivo através do individual, ganhando um acesso ao cotidiano das comunidades.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa tabela já revelou a mudança de foco. A frase-chave é: “…examinar os atores (ou o ator) célebres ou não, como testemunhas, como reflexos, como reveladores de uma época.”
- Se um indivíduo é uma “testemunha” de sua época, sua vida nos conta como era viver naquele tempo.
- Estudar a vida de um moleiro como Menocchio (citado na questão anterior) não é interessante por causa do moleiro em si, mas porque sua história nos revela como um homem comum do século XVI pensava, no que acreditava, como a cultura oral e a escrita se misturavam em sua mente. A vida dele é uma porta de entrada para o cotidiano daquela comunidade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “expressão do papel das elites”. O candidato pode pensar que, mesmo estudando indivíduos, a história ainda foca nos “célebres”, ou seja, na elite. O erro é não ler a frase completa: “célebres ou não“. A inclusão do “ou não” é crucial, pois mostra que a nova história se interessa também por pessoas comuns, exatamente para fugir da armadilha de contar a história apenas do ponto de vista das elites.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que a nova biografia usa a vida de indivíduos (famosos ou anônimos) como uma fonte para compreender a sociedade e a cultura de uma época em seu nível mais concreto.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa função da biografia como uma forma de acesso à vida comum.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) adesão ao método positivista.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode confundir “história social e cultural” com abordagens mais antigas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Historiográfica. O método positivista do século XIX focava exatamente nos “grandes nomes”, nos eventos políticos e militares. A abordagem descrita no texto, que valoriza o social, o cultural e os indivíduos comuns, é uma crítica e uma superação do positivismo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) expressão do papel das elites.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Leitura Incompleta. A alternativa ignora o trecho crucial “ou não”, que expande o foco da história para além das elites. O texto afirma que a nova biografia supera a história focada apenas nos “grandes nomes”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) resgate das narrativas heroicas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato interpreta “biografia” em seu sentido mais tradicional.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto afirma explicitamente que a nova biografia NÃO se trata mais de fazer a história “em formato hagiográfico” (vida de santo) ou de resgatar heróis “sem problemas, nem máculas”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) acesso ao cotidiano das comunidades.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Se o indivíduo é uma “testemunha” e um “reflexo” de sua época, estudar sua vida nos dá um “acesso” privilegiado a como era a vida comum, as mentalidades e as práticas do “cotidiano das comunidades”.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- E) interpretação das manifestações do divino.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na palavra “hagiográfico” (vida de santo) e a generaliza.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Criticado com o Defendido. O texto menciona a hagiografia como o modelo que foi abandonado, e não como o novo objetivo. A nova história é secular e social, não religiosa.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. Este caso ilustra a grande revolução da historiografia no século XX: a história desceu dos palácios e dos campos de batalha para entrar na casa das pessoas comuns, descobrindo que o cotidiano também é um palco de grandes transformações.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O historiador parou de olhar para a estátua do herói e começou a ler o diário do pedreiro que construiu o pedestal.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar narrativas individuais para entender fenômenos coletivos é uma ferramenta central no Jornalismo Literário e em Documentários. Para explicar uma crise econômica complexa, um bom documentarista não foca apenas em gráficos e entrevistas com economistas. Ele escolhe a história de uma família (um “ator, célebre ou não”) e mostra como as políticas macroeconômicas impactam sua vida diária, suas compras no supermercado, seu emprego. Ao usar o indivíduo como “testemunha” e “revelador” de uma época, o jornalista/documentarista consegue traduzir um problema abstrato em uma realidade humana e compreensível, aplicando a mesma metodologia da “nova biografia histórica”.