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Questão 67, caderno azul do ENEM 2022 D1

Após sete anos da ocupação de um terreno abandonado em Santo André, no ABC paulista, os condomínios Novo Pinheirinho e Santos Dias foram inaugurados, com a presença de representantes dos governos federal, estadual e municipal. A ocupação começou em 2012 e, desde então, o movimento vinha reivindicando o direito de usufruir do espaço para a construção de casas. A Carta Magna, em seu art. 6º, garante a todos os brasileiros o direito à moradia.

PUTTI, A. Disponível em: www.cartacapital.com.br. Acesso em: 13 nov. 2021 (adaptado).

O texto apresenta uma estratégia usada pelo movimento social para

A) fragilizar o poder público.

B) fomentar a economia solidária.

C) controlar a propriedade estatal.

D) garantir o preceito constitucional.

E) incentivar a especulação imobiliária.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Sociologia: Movimentos Sociais Urbanos (MTST, por exemplo).
  • Direito Constitucional: Artigo 6º (Direitos Sociais) e a Função Social da Propriedade.
  • Interpretação de Texto: Identificação de estratégia e finalidade.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender como os movimentos sociais utilizam a ocupação de espaços ociosos não como um ato de “invasão” criminosa, mas como uma ferramenta política para pressionar o Estado a cumprir o que já está escrito na Constituição: o direito à moradia.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O aluno precisa desconstruir o senso comum que vê a ocupação apenas como desordem e enxergar a lógica jurídica por trás dela. A chave está em ligar a ação (“ocupação”) ao respaldo legal citado (“Carta Magna, art. 6º”). A resposta correta exige entender que a ocupação serve para efetivar a lei, não para quebrá-la.

Gabarito: D.

  • Resumo: O texto narra que um movimento ocupou um terreno abandonado para reivindicar moradia. O texto cita explicitamente a Constituição (“Carta Magna… garante o direito à moradia”). Portanto, a ocupação foi a estratégia usada para sair da teoria e garantir na prática esse preceito constitucional que estava sendo ignorado pelo Estado.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar o “porquê” da ação.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Para que serviu essa ocupação?”. Foi para criar caos? Para ganhar dinheiro? Ou para fazer a lei valer?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você tem um vale-refeição (Direito na Constituição), mas o restaurante não quer aceitar. Você faz um protesto na porta até eles aceitarem.

O seu protesto serviu para quê? Para garantir que o seu vale (preceito) fosse aceito.

A ocupação do terreno é o protesto. A casa é o vale-refeição.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o problema: Terreno abandonado (função social não cumprida).
  • Identificar a ação: Ocupação pelo movimento.
  • Identificar a base legal: Art. 6º da Constituição (Direito à Moradia).
  • Concluir que a ação serviu para cumprir a lei (garantir o preceito).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a função estratégica dessa ocupação, precisamos desenhar o caminho que a lei percorre até virar tijolo. Vamos usar o Fluxograma da Cidadania Ativa.

O PROCESSO DE EFETIVAÇÃO DE DIREITOS:

  1. 📜 A LEI (A Teoria):
    • Artigo 6º da Constituição: “Todos têm direito à moradia.”
    • Status: É uma promessa bonita no papel, mas sozinha não constrói casas.

    ⬇️ O Abismo (A realidade não bate com a lei)

  2. 🏗️ O CENÁRIO REAL (O Problema):
    • Existe um terreno abandonado (não cumpre sua função social).
    • Existem pessoas sem casa.

    ⬇️ A Ponte (A Ação do Movimento)

  3. ✊ A ESTRATÉGIA (A Pressão):
    • Ação: Ocupar o terreno vazio.
    • Objetivo: Chamar a atenção do Estado e dizer: “Cumpra a lei que você mesmo escreveu!”.

    ⬇️ O Resultado Final

  4. 🏠 A CONQUISTA (A Prática):
    • Inauguração dos condomínios.
    • Conclusão: A ocupação garantiu o preceito constitucional (o direito à moradia virou realidade).

Conceito Chave: Função Social da Propriedade
A Constituição diz que você pode ter um terreno, desde que ele sirva para algo (moradia, produção). Se você abandona o terreno por anos (especulação), você está descumprindo a Constituição. O movimento social entra para cobrar esse cumprimento.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear a estratégia no texto:

  • O Início:“ocupação de um terreno abandonado”.
    • Isso mostra que o terreno não estava cumprindo sua função social.
  • A Reivindicação: “direito de usufruir do espaço para a construção de casas”.
  • O Argumento Legal: “A Carta Magna… garante… o direito à moradia”.
  • O Desfecho: “condomínios… foram inaugurados”.

Síntese:
O movimento não quis “fragilizar o poder público” (A); pelo contrário, ele obrigou o poder público a agir (construir). Ele não quis “controlar a propriedade estatal” (C); ele quis transformá-la em propriedade popular/habitacional. A estratégia foi usar a ação direta para materializar o que a Constituição prometeu.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“fragilizar o poder público”) é o pensamento do senso comum conservador.

  • Por que seduz? Porque ocupação parece desordem ou desafio à autoridade.
  • Por que está errada? O texto mostra o sucesso da ação com a presença de representantes do governo na inauguração. O movimento não destruiu o Estado; ele fez o Estado funcionar (entregar casas). A ocupação pressiona, mas o objetivo final é a política pública, não a anarquia.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A ocupação forçou o Estado a cumprir a lei maior (Constituição) que garante teto para todos.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre cumprimento da lei, direitos, Constituição ou cidadania.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) fragilizar o poder público.
    • Diagnóstico do Erro: Interpretação Equivocada da Relação Movimento-Estado.
    • Narrativa do Erro: O movimento pressiona, mas busca a parceria final com o Estado para a construção (tanto que governantes foram à inauguração). O objetivo é fortalecer a política pública de habitação, não destruir o governo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) fomentar a economia solidária.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema Específico.
    • Narrativa do Erro: Economia solidária envolve cooperativas de trabalho, bancos comunitários, etc. O texto fala de moradia, que é um direito social, não necessariamente uma atividade econômica de produção.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) controlar a propriedade estatal.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão de Objetivo.
    • Narrativa do Erro: O objetivo não é o “controle” pelo movimento, mas o uso para moradia. O terreno muitas vezes era privado (abandonado) e foi desapropriado, ou era público e foi destinado. A meta é a casa própria, não o poder sobre o patrimônio estatal.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) garantir o preceito constitucional.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Preceito constitucional”: Art. 6º (Direito à Moradia), citado no texto.
      • “Garantir”: A ocupação foi o meio para transformar a letra da lei em casas de tijolo (condomínios Novo Pinheirinho).
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) incentivar a especulação imobiliária.
    • Diagnóstico do Erro: Oposto da Realidade.
    • Narrativa do Erro: A especulação imobiliária ocorre quando terrenos ficam vazios esperando valorização (o que acontecia com o terreno abandonado antes da ocupação). O movimento combate a especulação ao dar uso social ao terreno.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A Constituição não pode ser apenas um pedaço de papel: os movimentos sociais, ao ocuparem vazios urbanos, atuam como fiscais da cidadania, utilizando a pressão popular para garantir o preceito constitucional (Alternativa D) de que toda propriedade deve ter uma função social e toda pessoa deve ter um lar.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
A ocupação é o grito que acorda a Constituição adormecida.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este tema se conecta ao Estatuto da Cidade (2001), que regulamenta a Constituição. Ele define instrumentos como o IPTU Progressivo (aumentar imposto de terreno vazio) para combater a especulação e forçar o uso do solo. Quando a lei falha, os movimentos sociais entram em cena.

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