Suponha-se que seja trazida de súbito a este mundo uma pessoa dotada das mais poderosas faculdades da razão e reflexão. É verdade que ela observaria imediatamente um acontecimento seguindo-se a outro, mas não conseguiria descobrir nada além disso. Ela não seria, no início, capaz de apreender, por meio de nenhum raciocínio, a ideia de causa e efeito.
HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Unesp, 2003.
Segundo Hume, nossa capacidade de estabelecer relações como aquelas mencionadas no texto resulta do(a)
A) representação construída pela assimilação dos juízos universais.
B) hábito desenvolvido pela repetição de uma operação.
C) testemunho proveniente de relato de terceiros.
D) intuição formada pela atividade mental pura.
E) reminiscência advinda de vidas passadas.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Filosofia Moderna: O Empirismo de David Hume.
- Teoria do Conhecimento (Epistemologia): Crítica à causalidade.
- Conceito Chave: O Hábito (Costume).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a crítica de David Hume à ideia de Causalidade (Causa e Efeito). Hume argumenta que a conexão entre dois eventos não é descoberta pela razão pura, mas sim inferida pela experiência repetida, que gera em nós o Hábito de esperar um evento após o outro.
Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: O texto é um experimento mental clássico de Hume (“Adão Inexperiente”). O aluno precisa saber que, para o empirismo, a mente é uma tábula rasa. A dificuldade está em entender que a razão, por mais poderosa que seja (como diz o texto), é incapaz de deduzir causas sem experiência prévia. A resposta correta exige o conhecimento do conceito de “Hábito” em Hume.
Gabarito: B.
- Resumo: Hume diz que se uma pessoa inteligente caísse no mundo agora, ela veria uma bola de bilhar bater na outra, mas não saberia que a segunda vai se mexer. Por quê? Porque a razão não vê “causa”, ela só vê “sequência”. Só depois de ver isso acontecer 100 vezes é que criamos o Hábito de esperar o movimento. Logo, a relação de causa e efeito vem do hábito, não da razão.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Identificar a origem da ideia de causa.
Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Se a razão não consegue descobrir a causa e efeito sozinha (como diz o texto), de onde vem essa ideia na nossa cabeça?”.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você vê um botão vermelho pela primeira vez.
Você raciocina: “Se eu apertar, explode”? Não. Você não sabe.
Você aperta e ganha um doce. Você aperta de novo e ganha doce.
Depois de 10 vezes, você cria o Hábito de pensar: “Botão = Doce”.
Hume diz que a vida é assim. Não há lógica, há repetição.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Interpretar a negação do texto: “não seria capaz de apreender… por raciocínio”.
- Lembrar a solução de Hume para o problema: A repetição constante cria o costume.
- Ligar “repetição” a “hábito”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender por que a razão sozinha é “cega” para o futuro, vamos desenhar o processo de aprendizado descrito por Hume.
FLUXOGRAMA: A MÁQUINA DE CRER
- 👁️ A PRIMEIRA VEZ (A Ignorância):⬇️ O tempo passa…
- 🔄 A REPETIÇÃO (O Treinamento):
- Ação: Você vê A bater em B mil vezes.
- Resultado: Mil vezes a Bola B se mexeu.
- O que mudou? A natureza não mudou, mas sua mente mudou.
- 🧠 O HÁBITO (O Costume):
- Sua mente cria um “vício”: ela se acostuma a esperar o movimento de B sempre que vê A.
- Isso não é raciocínio lógico, é Hábito.
- 🔮 A CAUSALIDADE (A Crença):
- Você diz: “A causa o movimento de B”.
- Realidade: Você está apenas projetando sua expectativa (hábito) sobre o mundo.
Conceito Chave: O Ceticismo de Hume
Hume diz que não temos como provar que o sol vai nascer amanhã. Nós apenas acreditamos nisso porque o vimos nascer todos os dias até hoje. Essa fé racional vem do Hábito, não de uma prova matemática.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o texto:
- “pessoa dotada das mais poderosas faculdades da razão”. (Um gênio).
- “não conseguiria descobrir nada além disso [um evento seguindo outro]”.
- A razão vê A, depois vê B. Mas não vê o “fio invisível” que liga A e B.
- “não seria… capaz de apreender… a ideia de causa e efeito”.
- Conclusão: A causalidade não está na razão.
Raciocínio:
Se não está na razão (D), nem em vidas passadas (E – Platão), nem em juízos universais (A – Kant), de onde vem? Vem da vida prática. Vem de ver a coisa acontecer de novo e de novo. Vem do Hábito.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (D) (“intuição formada pela atividade mental pura”) é o oposto do que Hume diz.
- Por que seduz? Porque a gente sente que é intuitivo. “Fogo queima” parece óbvio.
- Por que está errada? Hume diz no texto que a pessoa “não seria capaz de apreender”. Se fosse intuição pura, ela saberia na hora, sem experiência. Para Hume, “atividade mental pura” (razão sem experiência) é vazia sobre fatos do mundo. Só a experiência preenche a mente.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A ideia de causa e efeito não é lógica, é psicológica. Ela nasce da repetição de experiências que cria um costume mental.
- Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre experiência, repetição, costume ou hábito.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) representação construída pela assimilação dos juízos universais.
- Diagnóstico do Erro: Conceito Kantiano/Racionalista.
- Narrativa do Erro: Hume nega que existam “juízos universais” sobre fatos antes da experiência. Quem vai tentar salvar a causalidade usando juízos universais a priori é Kant, justamente em resposta a Hume.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) hábito desenvolvido pela repetição de uma operação.
- Análise de Correspondência: Perfeito. Para Hume, a causalidade é uma crença gerada pelo hábito (ou costume). Após vermos repetidamente uma coisa seguir a outra (fogo -> calor), nossa mente cria o hábito de esperar o calor sempre que vê o fogo.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- C) testemunho proveniente de relato de terceiros.
- Diagnóstico do Erro: Fonte Secundária.
- Narrativa do Erro: Embora aprendamos coisas por testemunho, a origem da ideia de causa e efeito na mente humana é a experiência direta e a repetição, não a fofoca ou o ensino. Mesmo se alguém te contar, você precisa do hábito para internalizar a conexão necessária.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) intuição formada pela atividade mental pura.
- Diagnóstico do Erro: Racionalismo Cartesiano.
- Narrativa do Erro: Descartes acreditava na intuição racional. Hume é empirista: ele diz que a mente pura (sem experiência) não intui nada sobre causas de fatos (como diz o texto: “não seria capaz de apreender”).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) reminiscência advinda de vidas passadas.
- Diagnóstico do Erro: Platonismo.
- Narrativa do Erro: A Teoria da Reminiscência é de Platão (aprender é recordar o que a alma viu no Mundo das Ideias). Hume é um filósofo moderno e empirista, rejeitando explicações metafísicas ou reencarnacionistas para o conhecimento.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Não sabemos que o sol vai nascer, apenas estamos acostumados com isso: David Hume derruba a arrogância da razão ao provar que a ciência não se baseia em certezas lógicas, mas no hábito (Alternativa B) criado pela repetição da experiência.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Causa e Efeito não é Lógica, é Vício (Hábito) da mente.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa ideia abalou a filosofia e acordou Kant de seu “sono dogmático”. Hoje, na Inteligência Artificial, o Machine Learning funciona exatamente como Hume dizia: o computador não sabe as regras do mundo (razão), ele vê milhões de exemplos (experiência/repetição) e cria padrões (hábito) para prever o futuro.