Questão 62, caderno azul do ENEM 2021 PPL

Alguns escravos morreram em consequência da violência essencial à sua captura na África, muitos outros nas jornadas entre os lugares que habitavam no interior e os portos dos oceanos Atlântico e Índico, ou enquanto aguardavam o embarque, muito mais ainda no mar, outros nos mercados de escravos brasileiros, e mais ainda durante o processo de ajustamento físico e mental ao sistema escravista no Brasil.

CONRAD, R. E. Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil.
São Paulo: Brasiliense, 1985.

As formas de violência relacionadas ao tráfico negreiro no Brasil colonial destacadas no texto derivam da

A) intensificação do expansionismo ultramarino.
B) exploração das atividades indígenas.
C) supressão da catequese jesuítica.
D) extinção dos contratos comerciais.
E) contração da economia ibérica.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História do Brasil Colonial (Tráfico Negreiro e Escravidão) e História Geral (Expansão Marítima e Mercantilismo).

Tema/Objetivo Geral: Relacionar a brutalidade e a escala do tráfico transatlântico de escravizados com o contexto macroeconômico da Expansão Marítima Europeia (Grandes Navegações).

Nível da Questão: Médio.
Por que Médio? A questão exige uma visão sistêmica. O texto descreve consequências (morte, violência, transporte), mas a pergunta pede a causa (“derivam da”). O aluno precisa sair do micro (o sofrimento individual descrito) para o macro (o sistema econômico que motivou tudo isso).

Gabarito: A (intensificação do expansionismo ultramarino).
A alternativa está correta pois o tráfico negreiro não foi um evento isolado, mas uma engrenagem fundamental do Sistema Colonial montado durante a Expansão Marítima. A necessidade de mão de obra para explorar as colônias (açúcar, ouro) foi o motor que impulsionou e intensificou a captura e o transporte forçado de africanos.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão apresenta um texto pesado sobre a jornada mortal dos escravizados (captura →navio →venda →trabalho).
A pergunta é: De onde veio essa violência toda? Qual foi o motor histórico que fez milhões de pessoas serem arrancadas da África e trazidas para o Brasil?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine uma fábrica gigante que precisa de combustível.

  • A fábrica é a Colônia (Brasil).
  • O produto é o Açúcar/Ouro (para a Europa).
  • O combustível são os Escravizados.
  • O dono da fábrica (Portugal) quer expandir os negócios (Expansionismo). Para a fábrica crescer, ele precisa buscar mais combustível de forma agressiva.
  • A violência descrita no texto é o processo de “extração e transporte” desse combustível humano para alimentar a expansão do império.

Plano de Ataque:

  1. Ler o Texto: Notar que ele descreve as etapas do tráfico.
  2. Identificar a Causa: Por que essas etapas existiam? Para atender à demanda colonial.
  3. Conectar com a História: Quem criou a colônia? A Expansão Marítima Europeia.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar os conceitos de Mercantilismo e Sistema Colonial:

Ferramenta 1: O Pacto Colonial
A Colônia (Brasil) existe para enriquecer a Metrópole (Portugal).
Para isso, precisa produzir produtos tropicais (plantation).
Para produzir, precisa de mão de obra barata e em larga escala.

Ferramenta 2: O Comércio Triangular
O tráfico negreiro não era apenas “maldade”, era negócio.
Navios saíam da Europa, iam para a África (pegavam escravos), iam para a América (deixavam escravos, pegavam açúcar) e voltavam para a Europa.
Esse ciclo foi criado pela Expansão Ultramarina.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a relação de Causa e Efeito:

  1. O Fenômeno: O texto lista mortes na captura, na viagem (tumbeiros) e na chegada. Isso mostra um sistema organizado de transporte em massa de pessoas.
  2. O Motivo: Por que transportar tanta gente? Porque Portugal estava colonizando o Brasil e precisava de braços para a lavoura de cana-de-açúcar.
  3. O Contexto: Isso tudo acontece dentro do projeto de Expansão Marítima. Sem as caravelas, sem a descoberta da América e sem a colonização, não haveria necessidade de trazer africanos através do Atlântico.
  4. Conclusão: A violência do tráfico é um “efeito colateral” direto da ambição expansionista europeia.

Síntese do Detetive:
A Europa queria crescer (Expansionismo). O Brasil precisava de gente. A África virou a fonte. O tráfico (e sua violência) foi a ponte construída por essa necessidade econômica.

Expectativa: Alternativa A.


4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) intensificação do expansionismo ultramarino.
    • Análise: 🟢 CORRETA. A expansão marítima europeia (ultramarina) criou o “Sistema Atlântico”. A colonização da América gerou uma demanda gigantesca por mão de obra, transformando o tráfico de escravos em um negócio lucrativo e essencial para a manutenção das colônias, o que motivou e sustentou a violência descrita.
    • Conclusão: Gabarito.

  • B) exploração das atividades indígenas.
    • Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. O texto fala especificamente da captura na África e travessia do oceano. A exploração indígena existiu, mas o tráfico negreiro substituiu ou complementou a mão de obra indígena, não derivou dela. Além disso, a Igreja e a Coroa impuseram restrições à escravidão indígena, o que aumentou a demanda por africanos.
    • Conclusão: Erro de sujeito histórico.

  • C) supressão da catequese jesuítica.
    • Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. A catequese jesuítica focava na conversão dos indígenas e, muitas vezes, protegia-os da escravidão (para convertê-los). A supressão dos jesuítas (Expulsão por Pombal) ocorreu muito depois do início do tráfico negreiro. Não há relação causal direta entre parar de catequizar e começar a traficar africanos.
    • Conclusão: Anacronismo e falta de nexo causal.

  • D) extinção dos contratos comerciais.
    • Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA (Contradição). O tráfico negreiro dependia da criação e manutenção de contratos comerciais (o Asiento, parcerias com chefes locais na África). Se os contratos fossem extintos, o tráfico pararia. A violência derivava da existência desse comércio, não da sua extinção.
    • Conclusão: Lógica inversa.

  • E) contração da economia ibérica.
    • Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. “Contração” significa encolhimento/crise. O tráfico negreiro ocorreu justamente durante a expansão e o auge da economia colonial ibérica (séculos XVI, XVII e XVIII). O tráfico era sinal de atividade econômica intensa, não de retração.
    • Conclusão: Erro de contexto econômico.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
As atrocidades inerentes ao tráfico transatlântico de escravizados são consequências diretas da lógica mercantilista adotada durante a expansão marítima europeia, que transformou seres humanos em mercadoria essencial para viabilizar a exploração econômica das colônias americanas.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
“O navio negreiro não navegava sozinho; ele era empurrado pelo vento da ganância europeia (Expansionismo).”

🧠 Para ir Além (Sociologia):
O conceito de “Coisificação” ou “Reificação” é essencial aqui. Para que a violência descrita no texto fosse aceita socialmente na época, o ser humano africano precisou deixar de ser visto como pessoa e passar a ser visto como “coisa” (peça), uma ferramenta de trabalho sem alma (ou com alma inferior), justificando a brutalidade em nome do lucro.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.