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Questão 56, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Mulheres naturalistas raramente figuraram a corrida por conhecer terras exóticas. No século XIX, mulheres como Lady Charlotte Canning eventualmente coletavam espécimes botânicos, mas quase sempre no papel de esposas coloniais, viajando para locais onde seus maridos as levavam e não em busca de seus próprios projetos científicos.

SOMBRIO, M. M. O. Em busca pelo campo – Mulheres em expedições cientificas no Brasil em meados do século XX. Cadernos Pagu, n. 48, 2016.

No contexto do século XIX, a relação das mulheres com o campo cientifico, descrita no texto, é representativa da

A) afirmação da igualdade de gênero.

B) transformação dos espaços de lazer.

C) superação do pensamento patriarcal.

D) incorporação das estratificações sociais.

E) substituição das atividades domésticas.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Sociologia (Estratificação Social, Papéis de Gênero)
  • História das Mulheres e da Ciência

Tema/Objetivo Geral: Analisar como as hierarquias sociais de gênero se manifestavam no campo científico do século XIX, limitando a participação feminina.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a aplicação de um conceito sociológico (“estratificações sociais”) para interpretar uma situação histórica específica. O leitor precisa entender que o papel de “esposa colonial” não é uma escolha individual, mas o reflexo de uma estrutura social hierárquica maior.

Gabarito: D) incorporação das estratificações sociais.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto mostra que o campo científico não era um espaço neutro; ele reproduzia (“incorporava”) as hierarquias (“estratificações”) da sociedade. A posição da mulher na ciência era determinada por sua posição social como esposa, subordinada ao homem, e não por seu mérito científico.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: analisar a situação das mulheres cientistas no século XIX, conforme descrita, e identificar qual fenômeno social mais amplo essa situação exemplifica.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o “campo científico” como um clube de elite exclusivo para homens. As mulheres não podiam se tornar sócias por mérito próprio. A única maneira de uma mulher entrar no clube era se ela fosse a esposa de um sócio e ele a levasse como acompanhante. Dentro do clube, ela não podia participar das decisões ou iniciar projetos; podia apenas ajudar o marido em suas atividades. O verdadeiro desafio aqui é entender o nome da regra que diz que ‘só homens podem ser sócios’ e ‘esposas são apenas acompanhantes’. Essa regra se chama ‘estratificação social de gênero’.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Analisar a Participação Feminina: Como as mulheres participavam da ciência, segundo o texto?
    2. Identificar as Limitações: Quais eram as barreiras para uma participação plena e autônoma?
    3. Nomear o Sistema: Vamos dar o nome sociológico ao sistema que impunha essas limitações.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise de Papéis Sociais, que nos ajudará a entender a hierarquia descrita no texto.

Ator Social Papel no Campo Científico (Séc. XIX) Nível de Autonomia
Homem (Cientista/Marido Colonial) Lidera a “corrida por conhecer terras exóticas”; tem “seus próprios projetos científicos”. Alta. Ele é o protagonista, o agente principal.
Mulher (Esposa Colonial) Coleta espécimes “eventualmente”; viaja para onde “seus maridos as levavam”. Baixa/Nula. Ela é a coadjuvante, a auxiliar. Sua participação é condicionada e subordinada à do homem.

Conclusão da Análise: A tabela revela uma clara hierarquia no campo científico, que não se baseia em capacidade, mas em gênero. O papel do homem é ativo e autônomo; o da mulher é passivo e dependente. Essa divisão hierárquica de papéis e oportunidades na sociedade é a definição de estratificação social. O campo científico, portanto, estava apenas incorporando essa estratificação.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A investigação do texto nos dá pistas cruciais. A primeira é a raridade: “Mulheres naturalistas raramente figuraram…”. Isso já indica uma barreira.

A segunda pista é a natureza da participação: quando participavam, era “quase sempre no papel de esposas coloniais“. Este não é um título científico, é um papel social definido pela relação com um homem.

A terceira e mais importante pista é a falta de autonomia: elas viajavam “para locais onde seus maridos as levavam e não em busca de seus próprios projetos científicos“. Esta frase é a confissão do crime. Ela mostra que a agência, o poder de decisão e a autoria intelectual pertenciam exclusivamente aos homens.

O que essa estrutura revela? Que a ciência do século XIX não era um campo imune às regras da sociedade. Pelo contrário, ela era um espelho fiel da ordem social patriarcal e hierárquica da época.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C): “superação do pensamento patriarcal”. O leitor pode pensar que o simples fato de uma mulher estar coletando plantas já representa uma “superação”. Mas a armadilha é não ler os detalhes. O texto enfatiza que essa participação era dentro das regras do jogo patriarcal (como esposa, acompanhando o marido), e não uma quebra dessas regras. A situação descrita é a confirmação do pensamento patriarcal, não sua superação.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O texto descreve um cenário em que a posição de uma pessoa na hierarquia social (homem como protagonista, mulher como coadjuvante) determinava sua possibilidade de atuação no campo científico.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, conter a ideia de que as hierarquias ou divisões da sociedade estavam sendo reproduzidas dentro da ciência.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) afirmação da igualdade de gênero.

  • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve um cenário de profunda desigualdade de gênero.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) transformação dos espaços de lazer.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pode interpretar “coletar espécimes” como um hobby ou lazer.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto está discutindo a participação das mulheres no “campo científico”, não em atividades de lazer.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) superação do pensamento patriarcal.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O cenário descrito é a própria manifestação do pensamento patriarcal, que confina a mulher a um papel secundário.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) incorporação das estratificações sociais.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. O campo científico estava “incorporando” (reproduzindo em seu interior) as “estratificações sociais” (as hierarquias de gênero) da sociedade da época.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) substituição das atividades domésticas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor assume que, por estar coletando plantas, a mulher não estava fazendo tarefas domésticas.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O texto não diz que a atividade científica substituía o papel doméstico. Na verdade, ser “esposa colonial” implicava uma série de deveres domésticos e sociais, e a coleta de plantas era provavelmente vista como uma extensão “adequada” e ornamental desse papel.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois o texto demonstra que a ciência do século XIX, longe de ser uma torre de marfim objetiva, era um clube que refletia e reforçava os preconceitos e as hierarquias da sociedade que a financiava.

Resumo-flash (A Imagem Mental): No século XIX, a ciência deu às mulheres uma prancheta e uma lupa, mas o homem segurava o mapa e a bússola.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O fenômeno descrito no texto é um exemplo do que a historiadora da ciência Londa Schiebinger chama de “A Mente Não Tem Sexo? Corpos Femininos na Ciência Moderna”. A conexão interdisciplinar surpreendente é com a Arquitetura. Por séculos, a profissão de arquiteto foi predominantemente masculina. Isso se refletiu no design das cidades e das casas, que muitas vezes ignoravam as necessidades específicas das mulheres (por exemplo, cozinhas isoladas, falta de espaços seguros para crianças, trajetos urbanos que não consideravam a “jornada dupla”). Assim como na ciência do século XIX, a exclusão das mulheres como protagonistas no campo da arquitetura resultou em um mundo construído (literalmente) a partir de uma perspectiva majoritariamente masculina. A luta das mulheres por espaço na ciência e na arquitetura não é apenas uma questão de justiça, mas também uma busca por um conhecimento e um mundo mais completos e diversos.

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