A questão 52 do Enem 2021 PPL (caderno azul, Dia 1) é de Ciências Humanas (História) e cobra a participação política de excluídos do voto na Primeira República. O gabarito é a alternativa D. Abaixo você confere o enunciado, a resolução passo a passo e por que cada alternativa errada engana tantos candidatos.
Enunciado da questão 52 do Enem 2021 PPL
Com direitos civis, mas sem direitos políticos, além das mulheres, milhões de camponeses iletrados, em sua maioria não brancos, num contexto altamente racista e racializado, milhares de imigrantes estrangeiros recém-chegados e de ex-escravos recém-libertos não deixaram, apesar disso, de agir politicamente e de influir decisivamente no devir da república em formação.
MATTOS, H. A vida política. In: SCHWARCZ, L. M. (Org.). A abertura para o mundo: 1889-1930. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Um meio pelo qual esses grupos exerceram a cidadania, nas primeiras décadas do regime político mencionado, foi o(a):
A) prática do sufrágio livre e universal.
B) programa de democratização do ensino.
C) aliança de oligarquias partidárias estaduais.
D) irrupção de levantes populares espontâneos.
E) discurso de inspiração social-darwinista e eugenista.

Resolução comentada da questão 52
Matérias necessárias para resolver a questão
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História do Brasil (Primeira República / República Velha) e Sociologia (Cidadania e Movimentos Sociais).
Tema e objetivo geral
Tema/Objetivo Geral: Compreender como a exclusão política formal (proibição do voto) na Primeira República levou grupos marginalizados a buscarem outras vias de participação, especificamente através de revoltas e movimentos populares.
Nível da questão
Nível da Questão:Médio.
Por que Médio? Exige que o aluno vá além do óbvio (“eles não podiam votar”) e identifique a forma de ação política alternativa. O aluno precisa conectar a teoria da exclusão republicana com os eventos práticos (Revolta da Vacina, Canudos, Chibata).
Gabarito da questão 52: alternativa D
Gabarito:D (irrupção de levantes populares espontâneos).
A alternativa está correta pois, diante da impossibilidade de participar do sistema político via voto (sufrágio), mulheres, ex-escravizados, imigrantes e camponeses manifestaram suas demandas e insatisfações através de revoltas, motins e greves, exercendo uma “cidadania ativa” fora das urnas.

Passo 1: o que a questão pede (o mapa da mina)
Decodificação do Objetivo:
A questão descreve um paradoxo: Havia muita gente (mulheres, negros, pobres, imigrantes) que não podia votar (sem direitos políticos), mas o texto diz que eles agiam politicamente.
A pergunta é: COMO? Qual foi a ferramenta que eles usaram para “fazer barulho” e influenciar o governo, já que a urna estava trancada para eles?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um condomínio (a República).
- O síndico trancou a sala de reuniões e disse: “Só os ricos proprietários podem entrar e votar”.
- Os moradores do térreo (pobres/excluídos) querem reclamar do vazamento. Como eles não podem entrar na reunião, o que eles fazem?
- Eles fazem um panelaço no corredor ou quebram a porta.
- A pergunta quer o nome técnico para esse “panelaço/quebra-quebra”.
Plano de Ataque:
- Identificar os Excluídos: O texto cita camponeses, mulheres, negros, imigrantes.
- Analisar o Bloqueio: Eles não tinham “direitos políticos” (não votavam).
- Encontrar a Saída: Se não é pelo voto, é pela força ou pelo protesto (Revolta).
Passo 2: Primeira República
Vamos abrir a caixa de ferramentas da História da Primeira República (1889-1930):
Ferramenta 1: A Constituição de 1891 (A Porta Fechada)
Ela definiu o voto apenas para homens, maiores de 21 anos e alfabetizados.
- Isso excluía: Mulheres, analfabetos (a maioria dos camponeses e negros pós-abolição), mendigos e soldados rasos.
Ferramenta 2: As Revoltas da República Velha (O Grito)
Como essa galera não votava, eles protestavam na rua ou no campo.
- No Campo: Guerra de Canudos (camponeses/religiosidade), Guerra do Contestado, Cangaço.
- Na Cidade: Revolta da Vacina (povo pobre), Revolta da Chibata (marinheiros negros), Greve Geral de 1917 (imigrantes operários).
Passo 3: resolução passo a passo (mão na massa)
Vamos analisar o texto e a história:
- O Texto diz: “…milhões de camponeses iletrados… ex-escravos… não deixaram de influir decisivamente”.
- A Conexão: Como os camponeses influíram? Em Canudos, eles criaram uma comunidade tão forte que o Exército teve que ser mobilizado 4 vezes. Isso é influir na República!
- A Conexão: Como os ex-escravos/negros influíram? Na Revolta da Chibata, João Cândido (negro) apontou canhões para o Rio de Janeiro e mudou as regras da Marinha.
- A Conclusão: Essas ações não foram eleições, foram levantes populares.
Síntese do Detetive:
Voto bloqueado -> Pressão social explode na rua -> Levantes e Revoltas.
Expectativa: Alternativa D.
Passo 4: alternativas comentadas (a autópsia)
- A) prática do sufrágio livre e universal.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. “Sufrágio” significa voto. O texto diz explicitamente “sem direitos políticos”. O voto na época não era universal (excluía mulheres e analfabetos) e não era livre (voto de cabresto).
- Conclusão: Contradição direta com o texto e a história.
- B) programa de democratização do ensino.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. A educação na Primeira República era elitista. Não houve um projeto amplo para ensinar o povo (o que, inclusive, mantinha os analfabetos fora das urnas).
- Conclusão: Fato histórico inexistente.
- C) aliança de oligarquias partidárias estaduais.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Essa era a estratégia dos donos do poder (Política dos Governadores/Café com Leite), não dos grupos oprimidos citados no texto (imigrantes, negros, mulheres).
- Conclusão: Erro de agente (confundiu oprimido com opressor).
- D) irrupção de levantes populares espontâneos.
- Análise: 🟢 CORRETA. Sem canais institucionais (voto), a cidadania era exercida “na marra”. O termo “irrupção” (explosão repentina) descreve bem eventos como a Revolta da Vacina (povo quebrando bondes) ou Canudos. Foi assim que esses grupos se fizeram ouvir.
- Conclusão: Gabarito.
- E) discurso de inspiração social-darwinista e eugenista.
- Diagnóstico do Erro: 🟡 DISTRATOR FORTE (Erro de Agente). O darwinismo social e a eugenia (ideia de branqueamento da raça) existiam na época e o texto cita o “contexto racista”. PORÉM, esse era o discurso da ELITE BRANCA para oprimir os negros e imigrantes. Não era o meio usado pelos oprimidos para exercer cidadania.
- Conclusão: Atribuiu a ideologia do vilão à vítima.
Passo 5: resumo e aprendizagem expandida
Frase de Fechamento:
Na Primeira República, a cidadania dos grupos marginalizados (excluídos do voto censitário e literário) manifestou-se não pelas urnas, mas pela força de levantes populares e revoltas sociais que pressionaram o Estado oligárquico.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
“Urna fechada, rua lotada. Se o povo não vota, o povo se revolta.”
🧠 Para ir Além (Sociologia Atual):
O historiador José Murilo de Carvalho chama esse fenômeno de “Cidadania Bestializada” (o povo assistia a tudo sem entender) versus “Cidadania Ativa” (quando o povo reagia, como na Vacina). Hoje, vemos ecos disso: quando a população sente que o Congresso não a representa, ela vai para a rua (Jornadas de Junho de 2013). A “rua” é o parlamento dos sem-poder.
Resolução elaborada por
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