Questão 51, caderno azul ENEM 2018

Desde que tenhamos compreendido o significado da palavra “Deus”, sabemos, de imediato, que Deus existe. Com efeito, essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber nada que lhe seja maior. Ora, o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. Donde se segue que o objeto designado pela palavra “Deus”, que existe no pensamento, desde que se entenda essa palavra, também existe na realidade. Por conseguinte, a existência de Deus é evidente.

TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. Rio de Janeiro: Loyola, 2002.

O texto apresenta uma elaboração teórica de Tomás de Aquino caracterizada por

A) reiterar a ortodoxia religiosa contra os heréticos.
B) sustentar racionalmente doutrina alicerçada na fé.
C) explicar as virtudes teologais pela demonstração.
D) flexibilizar a interpretação oficial dos textos sagrados.
E) justificar pragmaticamente crença livre de dogmas.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História da Filosofia (Filosofia Medieval).
  • Escolástica (O apogeu da filosofia cristã medieval).
  • Teoria do Conhecimento (Relação Fé x Razão).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar a característica central do método escolástico de Tomás de Aquino: a harmonização entre a teologia cristã (Fé) e a filosofia aristotélica/lógica (Razão).

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O texto é denso e utiliza um raciocínio lógico complexo (o Argumento Ontológico, adaptado de Santo Anselmo). O aluno precisa transcender a leitura religiosa e perceber a estrutura lógica do argumento para acertar.

Gabarito:
Letra B – sustentar racionalmente doutrina alicerçada na fé.
Resumo: Tomás de Aquino utiliza silogismos lógicos e argumentos racionais para provar verdades que já eram aceitas pela fé (como a existência de Deus), demonstrando que não há contradição entre pensar e crer.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão nos dá um texto onde Tomás de Aquino prova que Deus existe. Ele não diz “acredite porque está na Bíblia”. Ele diz “acredite porque é lógico”.
Nossa missão é classificar essa atitude. O que ele está fazendo ao usar a lógica para falar de Deus?

A Analogia Central (O Advogado da Fé):
Imagine que a Fé é o cliente e a Razão é o advogado.
O cliente (Fé) já sabe que é inocente (sabe que Deus existe). Mas, para convencer o júri (os intelectuais/céticos), ele contrata o melhor advogado da cidade (a Razão/Lógica) para montar uma defesa irrefutável baseada em provas e argumentos.
Tomás de Aquino é esse advogado. A questão quer que você identifique essa estratégia de defesa.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Analisar a estrutura do texto (Premissa -> Desenvolvimento -> Conclusão).
  2. Identificar que o tema é religioso (Deus), mas o método é filosófico (Lógica).
  3. Encontrar a alternativa que une esses dois mundos.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Dossiê da Escolástica para entender o contexto:

Elemento Patrística (Sto. Agostinho) Escolástica (São Tomás de Aquino)
Inspiração Platão. Aristóteles.
Lema “Crer para compreender.” “Compreender para crer” (e vice-versa).
Fé x Razão A Fé ilumina a Razão. Fé e Razão são caminhos distintos que levam à mesma verdade.
O Texto Intuitivo, místico. Sistemático, lógico, demonstrativo.

Conceito-Chave: Teologia Natural.
É a tentativa de provar a existência de Deus e seus atributos observando a natureza e usando a razão humana, sem depender exclusivamente da revelação bíblica.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o argumento do texto como se fosse uma equação matemática:

  1. Definição (Axioma): “Deus” = aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado.
  2. Fato Lógico: Existir na realidade + pensamento > Existir só no pensamento.
  3. Conclusão: Se Deus é o “maior de todos”, ele precisa existir na realidade. Se existisse só na mente, haveria algo maior que ele (aquele que existe na realidade), o que contradiz a definição.
  4. Resultado: “A existência de Deus é evidente.”

Observe a palavra “Evidente”. Ela não é uma palavra de fé cega; é uma palavra de ciência e lógica.
Tomás de Aquino pegou uma doutrina da fé (Deus existe) e construiu um alicerce racional (lógico) para sustentá-la. Ele não pediu para você ter fé no texto; ele pediu para você pensar junto com ele.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a ideia de “Confronto” (Alternativa A)!
Muitos alunos pensam: “Ah, Idade Média, Igreja… eles estavam caçando hereges!”. Embora a heresia fosse um problema na época, neste texto específico, o objetivo não é atacar inimigos ou queimar bruxas. O objetivo é construir conhecimento. O foco é epistemológico (como sabemos as coisas), não político-inquisitorial. Atenha-se ao que o texto faz, não ao que você sabe sobre a Inquisição.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O autor usa a lógica rigorosa para dar suporte a uma verdade religiosa.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que use verbos como “conciliar”, “sustentar”, “harmonizar” ou “fundamentar” relacionando a Razão (demonstração) com a Fé (doutrina).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) reiterar a ortodoxia religiosa contra os heréticos.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação de Contexto.
  • Análise: Embora a Suma Teológica sirva para defender a fé, este trecho específico é uma demonstração ontológica (lógica) da existência de Deus, não um ataque direto a uma heresia específica ou um discurso punitivo. O foco é a prova positiva, não o ataque negativo.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) sustentar racionalmente doutrina alicerçada na fé.

  • Análise: Perfeita.
    • Sustentar racionalmente: Usar argumentos lógicos (“donde se segue”, “logo”, “maior que”).
    • Doutrina alicerçada na fé: A existência de Deus.
    • Tomás de Aquino é o mestre da conciliação: a razão serve como pilar de sustentação para as verdades da fé.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

c) explicar as virtudes teologais pela demonstração.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Objeto.
  • Análise: As virtudes teologais são Fé, Esperança e Caridade. O texto não fala sobre comportamento moral ou virtudes; fala sobre ontologia (existência do Ser Divino).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

d) flexibilizar a interpretação oficial dos textos sagrados.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Histórica.
  • Análise: A Escolástica buscava sistematizar e fortalecer a interpretação oficial, não “flexibilizá-la” (torná-la relativa ou mole). Aquino queria dar rigidez lógica ao dogma, não deixá-lo mais solto.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) justificar pragmaticamente crença livre de dogmas.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (NO USO DA JUSTIFICATIVA, MAS ERRADA NO OBJETIVO).
    • Por que atrai: Ele está justificando a crença.
    • Por que falha: “Crença livre de dogmas” é o oposto do pensamento medieval. Aquino trabalhava dentro dos dogmas cristãos. Ele não queria uma fé livre, mas uma fé verdadeira e dogmática, provada pela razão. Além disso, “pragmaticamente” (pela utilidade prática) não se aplica; é uma justificativa lógica/metafísica.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Tomás de Aquino cristianizou Aristóteles. Ele mostrou que não é preciso desligar o cérebro para entrar na igreja.

Resumo-flash: ⚡
“A Fé é a casa, a Razão é o concreto: Aquino constrói a teologia com tijolos de lógica.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este texto usa uma variação do Argumento Ontológico (criado por Santo Anselmo). Séculos depois, René Descartes (pai da filosofia moderna) usaria uma versão muito parecida para provar Deus. Isso mostra que a lógica medieval não morreu na Idade Média; ela fundou as bases do racionalismo moderno.

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