Questão 49, caderno azul ENEM 2018

O filósofo reconhece-se pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambiguidade. Quando se limita a suportar a ambiguidade, esta se chama equívoco. Sempre aconteceu que, mesmo aqueles que pretenderam construir uma filosofia absolutamente positiva, só conseguiram ser filósofos na medida em que, simultaneamente, se recusaram o direito de se instalar no saber absoluto. O que caracteriza o filósofo é o movimento que leva incessantemente do saber à ignorância, da ignorância ao saber, e um certo repouso neste movimento.

MERLEAU-PONTY, M. Elogio da filosofia. Lisboa: Guimarães, 1998 (adaptado).

O texto apresenta um entendimento acerca dos elementos constitutivos da atividade do filósofo, que se caracteriza por

A) reunir os antagonismos das opiniões ao método dialético.
B) ajustar a clareza do conhecimento ao inatismo das ideias.
C) associar a certeza do intelecto à imutabilidade da verdade.
D) conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.
E) compatibilizar as estruturas do pensamento aos princípios fundamentais.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Filosofia Contemporânea (Fenomenologia).
  • Teoria do Conhecimento (Epistemologia).
  • Atitude Filosófica (Dogmatismo vs. Criticismo).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a natureza da atividade filosófica não como um “chegar lá” (posse da verdade absoluta), mas como um “caminhar” contínuo entre a busca por clareza e a aceitação da complexidade (ambiguidade).

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O texto é abstrato e exige vocabulário filosófico. O aluno precisa traduzir termos como “evidência” e “ambiguidade” para conceitos de comportamento intelectual (“rigor” e “inquietude”).

Gabarito:
Letra D – conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.
Resumo: O texto diz que o filósofo busca a “evidência” (rigor), mas aceita a “ambiguidade” e recusa o “saber absoluto”. Isso gera uma inquietude constante, um movimento eterno de busca, sem estagnação.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pede para definirmos, com base no texto, o DNA do filósofo. Quais são os ingredientes que compõem a mente de quem faz filosofia? O autor apresenta uma dualidade (dois lados da moeda) e diz que o filósofo vive equilibrando esses dois pratos. Nossa missão é encontrar a alternativa que descreva esse equilíbrio dinâmico.

A Analogia Central (O Equilibrista no Arame):
Imagine um equilibrista.

  • Ele precisa de uma base sólida para pisar (Evidência/Saber).
  • Mas ele está sempre balançando, nunca parado, lidando com o vento e a instabilidade (Ambiguidade/Ignorância).
    Se ele parar totalmente (achar que sabe tudo), ele cai (deixa de ser filósofo e vira dogmático). O filósofo é aquele que encontra repouso no próprio movimento de caminhar na corda bamba.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Identificar os dois polos citados no texto (“Gosto da evidência” vs. “Sentido da ambiguidade”).
  2. Traduzir “movimento incessante” para uma postura intelectual.
  3. Encontrar a alternativa que une “busca por certeza” com “eterna dúvida”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Dicionário de Tradução Filosófica para decodificar Merleau-Ponty:

Termo no Texto Significado Prático (A Atitude)
“Gosto da evidência” Vontade de entender, rigor, busca por clareza, racionalidade.
“Sentido da ambiguidade” Consciência de que o mundo é complexo e as verdades não são finais.
“Recusa do saber absoluto” Humildade intelectual, Inquietude, não ser dono da verdade.
“Movimento incessante” A filosofia é um verbo (ação), não um substantivo (coisa parada).

Conceito-Chave: Aporia e Dialética do Pensamento.
A filosofia não serve para “encerrar o assunto”. Ela serve para manter o assunto vivo. O filósofo sai da ignorância, aprende algo, mas esse novo saber gera novas dúvidas, levando-o de volta à “douta ignorância”.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o texto cirurgicamente.

O autor diz: “O filósofo reconhece-se pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambiguidade.”

  • Ele quer provas (Rigor), mas sabe que tudo tem duplos sentidos (Questionamento).

O autor continua: “se recusaram o direito de se instalar no saber absoluto.”

  • Instalar-se no saber absoluto é dizer: “Pronto, descobri tudo, acabou”. O filósofo verdadeiro diz: “Descobri isso, mas o que vem depois?”. Isso gera uma Inquietude.

Conclusão do texto: “movimento que leva incessantemente do saber à ignorância”.

  • A atividade filosófica é uma conciliação. Você investiga com seriedade (rigor), mas mantém a mente aberta para derrubar suas próprias certezas (inquietude).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a ideia de “Filósofo = Sábio que sabe tudo” (Alternativa C).
Muitos alunos marcam opções que falam em “verdade imutável” ou “saber absoluto” porque acham que filosofia é sobre ter respostas. Não! Para Merleau-Ponty (e para Sócrates), filosofia é sobre ter perguntas. Se você acha que a verdade é imutável e você já a possui, você parou de filosofar. A armadilha é confundir meta (a verdade) com posse (achar que já a tem).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O filósofo é um investigador rigoroso que nunca se satisfaz plenamente, mantendo-se em eterno movimento de questionamento.
  • Expectativa: Devemos buscar palavras que indiquem “união de opostos”: certeza/dúvida, rigor/movimento, investigação/questionamento.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) reunir os antagonismos das opiniões ao método dialético.

  • Diagnóstico do Erro: Restrição de Método.
  • Análise: Embora a dialética (Hegel/Marx) trabalhe com antagonismos, o texto de Merleau-Ponty foca na atitude interior do filósofo diante do saber (evidência vs. ambiguidade), e não na aplicação específica do método dialético de confronto de opiniões. É uma extrapolação técnica.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

b) ajustar a clareza do conhecimento ao inatismo das ideias.

  • Diagnóstico do Erro: Anacronismo / Erro Conceitual.
  • Análise: “Inatismo das ideias” é um conceito Racionalista (Descartes, Platão), que diz que nascemos sabendo. Merleau-Ponty é um fenomenólogo (foca na experiência). O texto fala de um “movimento” de busca, não de “lembrar” ideias inatas.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) associar a certeza do intelecto à imutabilidade da verdade.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Análise: O texto diz explicitamente que o filósofo recusa instalar-se no “saber absoluto”. Falar em “imutabilidade da verdade” (verdade que não muda) é justamente o oposto do “movimento incessante” defendido pelo autor.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

d) conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.

  • Análise: Perfeito.
    • Rigor da investigação: Corresponde ao “gosto da evidência” (buscar clareza, não aceitar qualquer coisa).
    • Inquietude do questionamento: Corresponde ao “sentido da ambiguidade” e ao “movimento incessante”. O filósofo não sossega; ele está sempre inquieto, questionando o que acabou de descobrir.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

e) compatibilizar as estruturas do pensamento aos princípios fundamentais.

  • Diagnóstico do Erro: Generalização Vaga / Estática.
  • Análise: Esta frase soa bonita (“academicês”), mas sugere um pensamento estático, de apenas encaixar coisas em princípios fixos. O texto valoriza o movimento, a ida e vinda entre saber e ignorância, e não a fixação em princípios fundamentais rígidos.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

O filósofo é aquele que sabe que a ilha do conhecimento é cercada por um oceano infinito de ignorância. Quanto mais a ilha cresce, maior fica o litoral do desconhecido.

Resumo-flash: ⚡
“O filósofo tem a lupa na mão (Rigor) e a pulga atrás da orelha (Inquietude).”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com Sócrates: “Só sei que nada sei”. Essa frase resume o texto. Sócrates buscava a verdade com rigor (maiolêutica), mas sua sabedoria estava justamente em reconhecer sua ignorância e nunca se dar por satisfeito (inquietude). É a base do pensamento científico moderno: toda teoria é provisória e deve ser questionada.

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