Questão 46, caderno azul ENEM PPL 2023

O Estado surge pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social, político. O Estado provê, inicialmente, a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e positivas, defesa e segurança, conservação e engrandecimento, de outro modo irrealizáveis. Mas o seu fim essencial é espiritual, isto é, deve promover a virtude e, consequentemente, a felicidade dos súditos mediante a ciência.
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2006 (adaptado)

Segundo o autor, é função do Estado garantir o(a):
a) justiça divina, pregando a salvação eterna dos fiéis.
b) soberania, respeitando a autonomia dos três poderes.
c) propriedade privada, protegendo o direito natural inalienável.
d) vida ética, proporcionando a formação moral dos cidadãos.
e) direito de resistência, suprimindo governos considerados impopulares.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Filosofia Antiga: Política e Ética em Aristóteles.
  • Conceito de Eudaimonia: Felicidade como fim último da vida humana.
  • Conceito de Virtude (Areté): Excelência moral e intelectual.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender que, para Aristóteles, a política não é apenas gerenciar recursos ou garantir segurança. A finalidade suprema (télos) da cidade (Pólis) é ética: formar cidadãos virtuosos para que alcancem a felicidade.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O texto é curto, mas denso. Ele opõe “necessidades materiais” (defesa, segurança) ao “fim essencial espiritual” (virtude, felicidade). O aluno precisa saber que, na filosofia clássica, “espiritual” não é religioso/místico, mas sim relativo ao espírito/mente/moral. A resposta exige conectar “virtude” à “vida ética” e “formação moral”.

Gabarito: D.

  • Resumo: O texto diz que o Estado provê segurança (material), mas seu fim essencial é promover a virtude e a felicidade. Na filosofia aristotélica, virtude é o hábito de agir corretamente (ética). Logo, a função do Estado é garantir uma vida ética, educando moralmente os cidadãos.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar a missão suprema do Estado.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Para que serve o governo/Estado segundo Aristóteles?”. Serve só para a polícia prender ladrão (segurança)? Ou serve para ensinar as pessoas a serem boas (virtude)?

Simplificação Radical (A Analogia Central):

Estado Moderno: É um síndico. Cuida do prédio, da luz e da segurança. Não se mete na vida moral dos moradores.

Estado Aristotélico: É um Pai-Educador. Cuida da casa, mas principalmente educa os filhos para serem boas pessoas.

O texto diz que o fim essencial é “promover a virtude”.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Ler a primeira parte: O Estado provê necessidades materiais (Ok, mas é “inicialmente”).
  • Ler a segunda parte (O foco): “Seu fim essencial é… promover a virtude”.
  • Traduzir “promover a virtude” para “formação moral/vida ética”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender Aristóteles, precisamos entender que ele vê a política como uma escada. Não basta subir o primeiro degrau (sobreviver); o objetivo é chegar ao topo (viver bem). Vamos desenhar o Fluxograma da Finalidade do Estado.

O CAMINHO DA “POLIS” (CIDADE/ESTADO):

  1. 🧱 A BASE (O Meio):
    • Função: Prover necessidades materiais, defesa e segurança.
    • Objetivo: Garantir a Vida (sobrevivência física).
    • Status: Necessário, mas insuficiente.

    ⬇️ O Estado existe para algo maior

  2. ✨ O TOPO (O Fim Essencial):
    • Função: Promover a Virtude e a Felicidade.
    • Objetivo: Garantir a Vida Boa (vida ética/moral).
    • Status: A verdadeira missão da política.

Conceito Chave: Teleologia
Do grego télos (fim/finalidade). Para Aristóteles, tudo na natureza tem um fim. O fim de uma semente é virar árvore. O fim do Estado não é apenas evitar a guerra (segurança), é tornar o ser humano virtuoso (ética). Se o Estado não educa moralmente, ele falhou.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o texto:

  • “O Estado provê… defesa e segurança”. (Função Material).
  • “Mas o seu fim essencial é espiritual… promover a virtude e a felicidade”. (Função Ética).

Síntese:
O Estado não é uma igreja (A), nem um banco (C). Ele é uma escola de cidadania. Seu objetivo é criar um ambiente onde as pessoas possam desenvolver seu caráter (virtude).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“justiça divina, pregando a salvação”) é um distrator perigoso.

  • Por que seduz? O texto fala de “fim espiritual”.
  • Por que está errada? “Espiritual” em Aristóteles (Grécia Antiga, séc. IV a.C.) não significa “religioso cristão” (salvação eterna, céu, inferno). Significa relativo ao espírito humano (intelecto, caráter, alma racional). A filosofia grega busca a felicidade nesta vida (na Pólis), não no além. A salvação eterna é um conceito medieval/cristão, anacrônico para Aristóteles.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto diz que o Estado deve promover a virtude. Virtude é o comportamento moral correto.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre ética, moral, educação, virtude ou bem viver.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) justiça divina, pregando a salvação eterna dos fiéis.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Erro de Tempo/Conceito).
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, Aristóteles é grego clássico, não cristão medieval. Ele fala de felicidade política e humana, não de salvação da alma no paraíso.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) soberania, respeitando a autonomia dos três poderes.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Montesquieu).
    • Narrativa do Erro: A divisão em três poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário) é uma teoria moderna (Iluminismo, séc. XVIII). Aristóteles discutia formas de governo (Monarquia, Aristocracia, Democracia), não a tripartição de poderes moderna.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) propriedade privada, protegendo o direito natural inalienável.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão com John Locke (Liberalismo).
    • Narrativa do Erro: A defesa da propriedade privada como direito natural e fim do Estado é a base do Liberalismo (séc. XVII), não da filosofia aristotélica. Para Aristóteles, o fim é a virtude, não o bem material.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) vida ética, proporcionando a formação moral dos cidadãos.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Vida ética”: Corresponde a “promover a virtude”.
      • “Formação moral”: É o meio para alcançar a virtude. A cidade educa o cidadão.
      • Isso traduz exatamente o “fim essencial” citado no texto.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) direito de resistência, suprimindo governos considerados impopulares.
    • Diagnóstico do Erro: Teoria Moderna (Contratualismo).
    • Narrativa do Erro: O “direito de resistência” é um conceito mais associado a Locke e teorias revolucionárias modernas. Aristóteles discute a estabilidade das constituições e como evitar revoluções, mas o texto foca na finalidade positiva do Estado (felicidade), não na derrubada dele.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Para Aristóteles, a cidade não é apenas um lugar para viver, mas para viver bem: a função suprema do Estado não é a segurança dos muros, mas a formação moral (Alternativa D) das almas, garantindo que os cidadãos alcancem a virtude e a felicidade.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O Estado Aristotélico é um Pai que ensina, não apenas um Guarda que vigia.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A visão aristotélica (O Estado deve tornar as pessoas boas) contrasta com a visão moderna liberal (O Estado deve deixar as pessoas livres para serem o que quiserem). Esse debate continua hoje: o governo deve proibir o cigarro e o açúcar para “cuidar” da virtude/saúde do cidadão, ou deve respeitar a liberdade individual?

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