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Questão 46, caderno azul do ENEM 2022 D1

Espera, resignado, o dia 13 daquele mês porque, em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a providência. É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo. Esta experiência é belíssima.

CUNHA, E. Os sertões. São Paulo: Editora Três, 1984.

No experimento descrito, a relação com a paisagem e com a religiosidade permite que o sertanejo seja

A) afeito à devoção ao aceitar destinos sacralizados.

B) acostumado à pobreza ao admitir acasos naturais.

C) habituado ao solo ao conhecer terrenos cultiváveis.

D) íntimo à Caatinga ao interpretar condições ambientais.

E) próximo à vegetação ao identificar espécies arbustivas.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Literatura Brasileira: Os Sertões (Euclides da Cunha) e o Pré-Modernismo.
  • Sociologia do Sertão: O homem sertanejo, sua cultura sincrética (religião + natureza) e adaptação ao meio.
  • Interpretação de Texto: Leitura de práticas culturais e suas finalidades.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um trecho de Os Sertões para compreender como o homem do campo utiliza rituais sincréticos (que misturam fé e observação empírica) para ler o ambiente e prever o clima, demonstrando uma profunda intimidade com o ecossistema da Caatinga.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O texto é poético e usa vocabulário culto (“usança avoenga”, “aljôfar”). O aluno precisa traduzir essa linguagem para entender que o ritual não é apenas superstição, mas uma forma de interpretação ambiental baseada na umidade do ar (o sal derrete com umidade). A resposta correta exige conectar o místico ao prático/climático.

Gabarito: D.

  • Resumo: O sertanejo faz a “experiência de Santa Luzia”: coloca pedras de sal ao relento. Se o sal derrete (“se deliu”), é sinal de umidade no ar, o que indica chuva. Se fica seco, indica seca. Embora seja um ritual religioso (dia da Santa), ele funciona como um higrômetro rudimentar. Isso mostra que o sertanejo sabe ler a natureza (Caatinga) através de seus ritos.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Decifrar a sabedoria popular.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que esse ritual com sal mostra sobre o sertanejo?”. Mostra que ele é apenas um religioso cego? Ou mostra que ele entende os sinais da natureza onde vive?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um marinheiro antigo que olha para o céu vermelho e diz: “Amanhã vai ventar”.

Ele está rezando? Não.

Ele está lendo o ambiente. Ele conhece o mar.

O sertanejo faz o mesmo com o sal e a Caatinga. Ele usa a religião como calendário, mas a leitura é climática.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Entender o ritual: Sal + Relento = Previsão de Chuva.
  • Analisar o mecanismo: Por que o sal derrete? (Umidade).
  • Concluir que isso é interpretar o ambiente.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender como o sertanejo prevê o tempo, vamos desenhar o Fluxograma da “Experiência de Santa Luzia”.

O texto descreve um processo lógico de causa e efeito, misturado com fé.

O ALGORITMO DO SERTÃO:

  1. 🧪 O INPUT (A Preparação):
    • Data: 12 de dezembro (Véspera de Santa Luzia).
    • Material: 6 pedrinhas de sal (representando os meses de Jan a Jun).
    • Ambiente: Ao “relento” (exposto ao ar da noite).

    ⬇️ A Natureza age durante a noite

  2. ⚙️ O PROCESSO (A Reação):
    • O sal interage com a umidade do ar (higroscopia).

    ⬇️ O Sertanejo observa ao amanhecer

  3. 👀 A LEITURA (A Interpretação):
    • Cenário A: O sal está intacto? ➔ Sinal: Ar seco. ➔ Previsão: Seca.
    • Cenário B: O sal derreteu (“deliu”)? ➔ Sinal: Ar úmido. ➔ Previsão: Chuva (“Inverno benfazejo”).

Conceito Chave: Empirismo Caboclo
Empirismo é o conhecimento que vem da experiência prática. O sertanejo não chuta; ele interpreta. Ele usa o sal como um sensor natural para ler as condições invisíveis da Caatinga (a umidade que antecede a chuva). É ciência vestida de fé.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos traduzir o vocabulário difícil de Euclides da Cunha:

  • “Usança avoenga” -> Costume dos avós (tradição).
  • “Sondar o futuro” -> Prever o tempo.
  • “Se a primeira apenas se deliu” -> Se a pedra de sal derreteu.
  • “Transmudada em aljôfar límpido” -> Virou gotinhas de água (orvalho).

Conclusão:
O texto descreve um homem que observa a natureza (“ao alvorecer observa-as”). Ele não está apenas aceitando o destino passivamente; ele está investigando ativamente o futuro através dos sinais do ambiente. Ele interpreta a umidade do ar na pedra de sal.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“afeito à devoção ao aceitar destinos sacralizados”) é o grande perigo.

  • Por que seduz? Porque o texto fala de “Santa Luzia”, “providência” e “resignado”.
  • Por que está errada? O sertanejo não está apenas aceitando o destino; ele está tentando descobri-lo (“sondar o futuro”). Ele age como um meteorologista prático. A questão pede a relação com a paisagem e a religiosidade. A alternativa (A) ignora a paisagem (o ambiente físico). A alternativa (D) une os dois: ele é íntimo do lugar (paisagem) e por isso consegue interpretar seus sinais (condições ambientais).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O ritual prova que o sertanejo sabe ler os sinais físicos da natureza (umidade/chuva) usando uma tradição cultural.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre conhecimento do meio ambiente, interpretação da natureza ou leitura do clima.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) afeito à devoção ao aceitar destinos sacralizados.
    • Diagnóstico do Erro: Visão Passiva e Incompleta.
    • Narrativa do Erro: Foca apenas na religião (“devoção”), ignorando a parte científica/empírica do sal e da previsão do tempo. O sertanejo aqui é um observador ativo, não apenas um devoto passivo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) acostumado à pobreza ao admitir acasos naturais.
    • Diagnóstico do Erro: Pessimismo não fundamentado no trecho.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de esperança e previsão (“sondar o futuro”), não de resignação à pobreza. A experiência é descrita como “belíssima”, não como um ato de miséria.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) habituado ao solo ao conhecer terrenos cultiváveis.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Objeto.
    • Narrativa do Erro: A experiência é sobre o ar e a chuva (clima), não sobre o solo ou a terra (geologia/agricultura). O sal mede a umidade atmosférica, não a fertilidade do chão.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) íntimo à Caatinga ao interpretar condições ambientais.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Íntimo à Caatinga”: Conhece os ciclos do sertão.
      • “Interpretar condições ambientais”: Lê no derretimento do sal a umidade do ar e a probabilidade de chuva. É uma leitura semiótica da natureza.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) próximo à vegetação ao identificar espécies arbustivas.
    • Diagnóstico do Erro: Inexistência Fática.
    • Narrativa do Erro: O texto não menciona plantas, arbustos ou vegetação. O elemento usado é mineral (sal).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Para o sertanejo, o céu é um livro aberto e a natureza fala: ao usar o sal no dia de Santa Luzia, ele une fé e observação para interpretar as condições ambientais (Alternativa D), provando que sua sobrevivência depende da intimidade profunda com os segredos da Caatinga.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O sal é o barômetro de Deus. Se chora (derrete), o céu chora também.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este conhecimento tradicional é chamado de Etnoclimatologia. Cientistas hoje estudam esses “profetas da chuva” do sertão porque, muitas vezes, suas observações sobre o comportamento de formigas, o florescer de cactos ou a umidade do sal antecipam fenômenos que satélites demoram a captar. É a ciência da sobrevivência.

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