Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e de matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dois dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascáveis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regimen mereciam o desprezo do nosso século.
ASSIS, M. O alienista. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 2 jun. 2019 (adaptado).
O fragmento faz uma referência irônica a formas de divulgação e circulação de informações em uma localidade sem imprensa. Ao destacar a confiança da população no sistema da matraca, o narrador associa esse recurso à disseminação de
A) campanhas políticas.
B) anúncios publicitários.
C) notícias de apelo popular.
D) informações não fidedignas.
E) serviços de utilidade pública.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Literário (Machado de Assis)
- Análise de Figuras de Linguagem (Ironia)
- História da Comunicação no Brasil
Tema/Objetivo Geral: Identificar, a partir de uma narrativa irônica, a crítica do autor à credulidade e à manipulação da informação em uma sociedade pré-imprensa.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige a percepção da ironia machadiana. O narrador elogia a “grande energia de divulgação” do sistema, mas o exemplo que ele usa para provar essa energia é a disseminação de uma mentira. O leitor precisa captar essa contradição para entender a crítica.
Gabarito: D) informações não fidedignas.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o principal exemplo dado pelo narrador para ilustrar a “energia” do sistema da matraca é a história de um vereador que construiu uma reputação completamente falsa, provando que o sistema era extremamente eficaz em espalhar mentiras.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é entender a pegadinha do narrador. Quando ele fala da “absoluta confiança no sistema”, ele está elogiando a fé do povo ou ridicularizando sua ingenuidade? E a que tipo de conteúdo essa confiança estava servindo?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na matraca como o Twitter do século XIX. É uma ferramenta poderosa para espalhar mensagens rapidamente (“grande energia de divulgação”). O texto nos mostra que essa ferramenta era usada para tudo: anúncios, classificados, cultura (“um soneto”). Mas, para provar o poder da ferramenta, o narrador não escolhe um exemplo de uma verdade que se espalhou, mas de uma fake news que viralizou: a história do vereador “encantador de serpentes”. O verdadeiro desafio aqui é entender que, ao usar uma mentira para provar a eficácia do sistema, o narrador está, ironicamente, revelando que a principal “eficácia” do sistema era a de fazer as pessoas acreditarem em qualquer coisa.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a Ferramenta: Como o sistema da matraca funcionava e para que servia?
- Periciar o “Case de Sucesso”: Qual é o exemplo principal que o narrador usa para ilustrar o poder da matraca?
- Identificar a Conclusão Irônica: O que o sucesso desse exemplo específico nos diz sobre a verdadeira natureza da informação que circulava?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma da Ironia Machadiana, que nos mostrará como o argumento do narrador é construído para nos levar a uma conclusão oposta à que ele aparenta defender.
[A PREMISSA APARENTE (O ELOGIO)]
- O sistema da matraca era conservado pela “grande energia de divulgação que possuía”.
- Parece que o narrador vai nos mostrar como ele era bom.
⬇️
[A “PROVA” DO ELOGIO (O EXEMPLO)]
- O Caso: Um vereador que “nunca domesticara um só desses bichos” usava a matraca para espalhar a fama de que era um “perfeito educador de cobras e macacos”.
- A “Prova” é uma MENTIRA.
⬇️
[O RESULTADO DA “ENERGIA DE DIVULGAÇÃO”]
- O Efeito: A mentira foi tão bem divulgada que “algumas pessoas afirmavam ter visto cascáveis dançando no peito do vereador”.
- A Conclusão do Narrador (A Pista): “afirmação perfeitamente falsa“.
⬇️
[A CONCLUSÃO IRÔNICA (A PUNCHLINE)]
- A Causa do Efeito: O povo acreditou na mentira devido à “absoluta confiança no sistema“.
- O que isso realmente significa? A “grande energia de divulgação” do sistema não era para espalhar a verdade, mas para criar “verdades”. Sua eficácia se media pela capacidade de fazer as pessoas acreditarem em informações não fidedignas.
O fluxograma mostra que o narrador usa a lógica de forma perversa: ele prova a “qualidade” de um sistema de informação mostrando sua capacidade de disseminar desinformação.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A narrativa começa descrevendo um sistema de comunicação de forma quase neutra. A matraca anunciava de tudo, de remédios a sonetos. A primeira pista da ironia vem quando o narrador diz que o sistema “tinha inconvenientes para a paz pública”.
Mas a prova definitiva é o exemplo do vereador. O narrador é explícito: o vereador NUNCA domesticou um bicho. Sua reputação era 100% fabricada. E qual a ferramenta usada para essa fabricação? A matraca.
O resultado é ainda mais absurdo: o poder da matraca era tão grande que as pessoas não apenas acreditavam na fama do vereador, elas alucinavam provas, “afirmavam ter visto” o que nunca aconteceu. O narrador esfrega a verdade na nossa cara: “afirmação perfeitamente falsa”.
Portanto, quando ele conclui que tudo isso se devia à “absoluta confiança no sistema”, ele está nos mostrando que a principal função desse sistema, em sua máxima potência, era legitimar a mentira.
🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui são as alternativas (A), (B), (C) e (E). Todas elas descrevem coisas que a matraca de fato anunciava: campanhas políticas (a do vereador), anúncios, notícias populares e serviços. Mas a armadilha é focar no conteúdo variado e ignorar o ponto principal do exemplo. A questão pergunta o que o narrador destaca ao falar da confiança da população. E o exemplo que ele escolhe para destacar isso é, propositalmente, o de uma informação falsa.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que o narrador constrói um argumento irônico. Ele elogia a eficácia de um sistema de comunicação e, para provar sua tese, usa como exemplo a disseminação bem-sucedida de uma mentira descarada.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, capturar essa essência crítica, associando o sistema da matraca à ideia de falsidade, mentira, boato ou informação não confiável.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) campanhas políticas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no fato de o personagem do exemplo ser um vereador.
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não a Essência. A campanha política é o contexto do exemplo, mas a essência do que está sendo disseminado é uma mentira.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) anúncios publicitários.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na lista inicial de coisas que a matraca anunciava.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. É um dos usos, mas não é o que o narrador destaca com seu exemplo principal para ilustrar a “confiança” cega.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) notícias de apelo popular.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que a história do vereador é uma notícia de “apelo popular”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão. A característica destacada pelo narrador não é o “apelo popular” da informação, mas sim a sua falsidade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) informações não fidedignas.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Informações não fidedignas” (ou seja, não confiáveis, falsas) é exatamente o que o exemplo do vereador ilustra de forma explícita e irônica.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) serviços de utilidade pública.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na parte sobre “remédio para sezões”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Assim como a (B), é um dos usos, mas não é o ponto da crítica irônica do narrador.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois Machado de Assis, em pleno século XIX, nos dá uma aula magistral sobre como a eficácia de um meio de comunicação, combinada à confiança cega do público, é o terreno perfeito para a proliferação da desinformação.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A matraca de Itaguaí era tão poderosa que fazia o povo ver cobras dançando onde só havia a barriga de um político.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O fenômeno descrito por Machado conecta-se diretamente à teoria do “Efeito de Verdade Ilusória” da Psicologia Cognitiva. Esse efeito descreve nossa tendência a acreditar que uma informação é verdadeira simplesmente porque fomos expostos a ela repetidamente. A matraca que “trabalhava todos os meses” para o vereador é a aplicação prática desse princípio. A repetição constante da mentira, através de um meio em que o povo “tinha absoluta confiança”, tornou a falsidade mais familiar e, portanto, mais crível, a ponto de gerar falsas memórias (“afirmavam ter visto”). Machado de Assis, sem ter o nome técnico, descreveu perfeitamente a mecânica de como a repetição, mesmo de um absurdo, pode fabricar a “verdade”.