Questão 42, caderno azul ENEM 2018

A Casa de Vidro

Houve protestos.

Deram uma bola a cada criança e tempo para brincar. Elas aprenderam malabarismos incríveis e algumas viajavam pelo mundo exibindo sua alegre habilidade. (O problema é que muitos, a maioria, não tinham jeito e eram feios de noite, assustadores. Seria melhor prender essa gente – havia quem dissesse.)

Houve protestos.

Aumentaram o preço da carne, liberaram os preços dos cereais e abriram crédito a juros baixos para o agricultor. O dinheiro que sobrasse, bem, digamos, ora o dinheiro que sobrasse!

Houve protestos.

Diminuíram os salários (infelizmente aumentou o número de assaltos) porque precisamos combater a inflação e, como se sabe, quando os salários estão acima do índice de produtividade eles se tornam altamente inflacionários, de modo que.

Houve protestos.

Proibiram os protestos.

E no lugar dos protestos nasceu o ódio. Então surgiu a Casa de Vidro, para acabar com aquele ódio.

ÂNGELO, I. A casa de vidro. São Paulo: Círculo do Livro, 1985

Publicado em 1979, o texto compartilha com outras obras da literatura brasileira escritas no período as marcas do contexto em que foi produzido, como a

A) referência à censura e à opressão para alegorizar a falta de liberdade de expressão característica da época.
B) Valorização de situações do cotidiano para atenuar os sentimentos de revolta em relação ao governo instituído.
C) utilização de metáforas e ironias para expressar um olhar crítico em relação à situação social e política do país.
D) tendência realista para documentar com verossimilhança o drama da população brasileira durante o Regime Militar.
E) sobreposição das manifestações populares pelo discurso oficial para destacar o autoritarismo do momento histórico.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira Contemporânea (Literatura de Resistência/Ditadura).
  • Contexto Histórico: Regime Militar (1964-1985).
  • Figuras de Linguagem (Ironia, Metáfora, Alegoria).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar os procedimentos estilísticos (como o autor escreve) utilizados por escritores brasileiros durante o regime autoritário para criticar a realidade sem sofrer censura direta.

Nível da Questão:
Médio/Difícil.
Justificativa: O texto é aparentemente simples, mas exige que o aluno perceba que a simplicidade é uma máscara para uma crítica profunda. Os distratores (especialmente a letra A) são muito próximos da resposta correta, exigindo distinção entre tema e recurso literário.

Gabarito:
Letra C – utilização de metáforas e ironias para expressar um olhar crítico em relação à situação social e política do país.
Resumo: Impedidos de falar claramente “abaixo a ditadura”, os autores usavam o duplo sentido. O texto é irônico ao narrar as “soluções” do governo (dar bola, baixar salário) e metafórico ao criar a imagem da “Casa de Vidro” como símbolo do controle ou isolamento social.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
O enunciado nos situa no tempo: 1979 (período de abertura lenta e gradual, mas ainda sob ditadura). A pergunta quer saber quais “marcas” (características de estilo) esse texto compartilha com outras obras da época.
Traduzindo: Como os escritores faziam para criticar o governo sem serem presos ou censurados? Qual era a “arma” literária deles?

A Analogia Central (O Contrabandista de Ideias):
Imagine que você quer passar uma mensagem secreta por uma fronteira vigiada por guardas (censores). Se você escrever “O governo é ruim”, o papel é rasgado.
Então, você escreve: “O rei construiu um lindo castelo de vidro para proteger seu amado povo do vento”.
O guarda deixa passar, achando que é um elogio ou um conto de fadas. Mas o povo entende que o “castelo de vidro” é uma prisão.
A questão quer o nome dessa técnica de contrabando: Metáfora e Ironia.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Identificar o tom de deboche no texto (Ironia).
  2. Identificar os símbolos que não existem na realidade, mas representam algo (Metáfora).
  3. Associar esses recursos à necessidade de crítica política velada.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar o Decodificador de Resistência para ler o texto:

Recurso Definição Exemplo no Texto
Ironia Dizer o contrário do que se pensa ou ridicularizar uma ação fingindo concordância. “Deram uma bola a cada criança… O problema é que muitos não tinham jeito” (Ridiculariza a política de “Pão e Circo”).
Metáfora/Alegoria Criar uma imagem ou história simbólica para representar a realidade. “A Casa de Vidro”. Pode representar a transparência forçada (vigilância), a fragilidade do sistema ou uma bolha de alienação.
Contexto (1979) Censura prévia e repressão. Necessidade de usar linguagem figurada para a crítica passar.

Conceito-Chave: Literatura de Alegoria.
Muitas obras dessa época (como Incidente em Antares, de Erico Verissimo, ou as músicas de Chico Buarque) usavam o fantástico ou o absurdo para falar do real.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear a crítica nas entrelinhas.

  1. A Política do “Pão e Circo”: O texto diz “Deram uma bola a cada criança”. Isso é uma crítica irônica ao uso do futebol (Copa de 70, etc.) para distrair o povo. O narrador finge que é uma medida linda, mas o tom é de escárnio.
  2. A Economia: “Diminuíram os salários… porque precisamos combater a inflação”. Aqui a ironia é cortante. O narrador reproduz o discurso oficial absurdo (arrocho salarial) como se fosse lógico, expondo a crueldade econômica.
  3. A Repressão: “Proibiram os protestos”. Aqui a linguagem é direta.
  4. O Símbolo Final: “Surgiu a Casa de Vidro”. Para acabar com o ódio, o governo cria uma estrutura artificial.

O autor não está fazendo um documentário (Realismo) nem elogiando o governo. Ele está usando uma narrativa cheia de metáforas (a bola, a casa) e ironias (a lógica econômica falha) para desmontar o discurso autoritário.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a confusão entre TEMA e TÉCNICA (Alternativa A)!
A alternativa A fala em “referência à censura”. Sim, o texto refere-se a isso. Mas a pergunta pede as “marcas” compartilhadas com outras obras. A marca principal da literatura desse período não é apenas falar da censura, mas a forma como se falava: através de códigos, metáforas e alegorias. A alternativa C é mais completa tecnicamente.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto usa o absurdo e o sarcasmo para denunciar a manipulação e a violência do Estado.
  • Expectativa: Devemos buscar alternativas que falem sobre “linguagem figurada”, “ironia”, “metáfora” ou “alegoria” como ferramentas de crítica.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) referência à censura e à opressão para alegorizar a falta de liberdade de expressão característica da época.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O DISTRATOR FORTE.
    • Por que atrai: O texto fala de opressão (“proibiram protestos”).
    • Por que falha: A redação é confusa. Ela diz que o texto faz referência à censura para alegorizar a falta de liberdade. Na verdade, o texto usa a alegoria (a Casa de Vidro) para referenciar a censura. A relação de meio e fim está invertida ou imprecisa. Além disso, a (C) define os recursos literários (metáfora/ironia) de forma mais direta e abrangente para o período.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta (por precisão conceitual).

b) Valorização de situações do cotidiano para atenuar os sentimentos de revolta em relação ao governo instituído.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição de Intenção.
  • Análise: O texto não quer “atenuar” a revolta; ele quer expor o absurdo para gerar reflexão crítica (e talvez mais revolta). Ele não valoriza o cotidiano para acalmar, mas para mostrar como a repressão invadiu a vida comum.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) utilização de metáforas e ironias para expressar um olhar crítico em relação à situação social e política do país.

  • Análise: Perfeito.
    • Metáforas: “Casa de Vidro”, “bola”.
    • Ironias: A explicação sobre a inflação, a “alegre habilidade”.
    • Olhar crítico: A denúncia do autoritarismo.
    • Essas são as “armas” clássicas da literatura de resistência.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

d) tendência realista para documentar com verossimilhança o drama da população brasileira durante o Regime Militar.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Gênero Literário.
  • Análise: O texto não é realista/documental. A construção de uma “Casa de Vidro” para acabar com o ódio e a relação direta de causa e efeito simplificada (“deram uma bola”) são construções alegóricas, não verossímeis (realistas) no sentido jornalístico.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) sobreposição das manifestações populares pelo discurso oficial para destacar o autoritarismo do momento histórico.

  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Equivocada.
  • Análise: O texto mostra o conflito (Houve protestos vs. Medidas do governo). O discurso oficial aparece (na explicação da inflação), mas ele é ridicularizado pelo narrador, não sobreposto como verdade absoluta. O autoritarismo é destacado pela ironia sobre esse discurso, não pela vitória dele no texto.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Na ditadura, a literatura aprendeu a falar “entrelinhês”. O escritor fingia que falava de flores (ou vidro), mas estava falando de grades.

Resumo-flash: ⚡
“Para driblar o censor, o escritor virou mágico: usou a ironia para dizer a verdade mentindo.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a música “Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil. A palavra “Cálice” era uma metáfora sonora para “Cale-se”. A estratégia é a mesma do texto de Ivan Ângelo: usar a ambiguidade da linguagem (metáfora/som) para criticar a opressão sem ser pego (ou tentando não ser).

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