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Questão 42, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

O acesso às Práticas Corporais/Atividades Físicas (PC/AF) é desigual no Brasil, à semelhança de outros indicadores sociais e de saúde. Em geral, PC/AF prazerosas, diversificadas, mais afeitas ao período de lazer estão concentradas nas populações mais abastadas. As atividades físicas de deslocamento, trajetos a pé ou de bicicleta para estudar ou trabalhar, por exemplo, são mais frequentes na classe social menos favorecida. Aqui, há uma relação inversa e perversa entre variáveis socioeconômicas de acesso às PC/AF. As maiores prevalências de inatividade física foram em mulheres, pessoas com 60 anos ou mais, negros, pessoas com autoavaliação de saúde ruim ou muito ruim, com renda familiar de até quatro salários mínimos por pessoa, pessoas que desconhecem programas públicos de PC/A e residentes em áreas sem locais públicos para a prática.

KNUTH, A. G.; ANTUNES, P. C. Saúde e Sociedade, n. 2, 2021 (adaptado).

O fator central que impacta a realização de práticas corporais/atividades fisicas no tempo de lazer no Brasil é a

a) diferença entre homens e mulheres.

b) inexistência de políticas públicas.

c) diversidade de faixa etária.

d) variação de condição étnica.

e) desigualdade entre classes sociais.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • Sociologia (Desigualdade Social, Estratificação)
    • Saúde Pública
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar como a desigualdade social estrutura o acesso e o tipo de práticas corporais realizadas pela população brasileira.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque, embora o texto seja claro, ele apresenta múltiplas variáveis (gênero, idade, etnia, renda). O candidato precisa ter a capacidade de hierarquizar essas informações e identificar qual delas é apresentada pelo autor como o fator central e estruturante, que ajuda a explicar as outras.
  • Gabarito: E) desigualdade entre classes sociais.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o texto estabelece, desde o início, que a principal divisão no acesso às atividades físicas é entre as “populações mais abastadas” e a “classe social menos favorecida”, tratando as outras variáveis (gênero, etnia, idade) como manifestações dessa desigualdade fundamental.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto nos mostra que, no Brasil, a forma como as pessoas fazem atividade física é bem diferente dependendo de quem elas são. Os ricos se exercitam por prazer (no lazer), enquanto os pobres se exercitam por necessidade (indo para o trabalho a pé). A questão quer saber: qual é o fator central, a grande divisória de águas que causa essa diferença?

Simplificando, imagine que o acesso ao lazer é um banquete. O texto descreve que algumas pessoas (os ricos) estão sentadas à mesa, escolhendo pratos deliciosos e variados (“PC/AF prazerosas”). Outras pessoas (os pobres) não estão na festa; elas estão correndo na cozinha, trabalhando, e o máximo de “exercício” que fazem é o deslocamento para servir as mesas. A questão quer saber o nome do sistema que separa quem senta à mesa de quem trabalha na cozinha.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Identificar a Principal Contradição: Vamos focar na oposição que o texto estabelece entre os dois tipos de atividade física e os dois grupos que as praticam.
  • 2. Analisar os Fatores Secundários: Vamos observar as outras variáveis mencionadas (gênero, idade, etnia) e ver como elas se relacionam com a contradição principal.
  • 3. Determinar a Causa Estruturante: Vamos deduzir qual é o fator de base que explica tanto a contradição principal quanto a maior vulnerabilidade dos outros grupos.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, uma Tabela Comparativa é a ferramenta ideal para visualizar a “relação inversa e perversa” que o texto descreve.

Tabela do “Apartheid” da Atividade Física:

Critério de AnálisePopulações mais AbastadasClasse Social Menos Favorecida
Tipo de Atividade“Prazerosas, diversificadas”“De deslocamento” (funcional, obrigatória)
Contexto“Afeitas ao período de lazer”Para “estudar ou trabalhar”
Relação com a AtividadeEscolha, prazer, bem-estar.Necessidade, obrigação, desgaste.

A tabela revela a tese central: a atividade física não é a mesma para todos. Para um grupo, ela é um direito (ao lazer); para o outro, é um fardo (parte do trabalho). O que divide esses dois mundos? A condição socioeconômica, a classe social.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a entender que o texto organiza seu argumento de forma hierárquica. Ele começa com a afirmação geral: “O acesso […] é desigual no Brasil, à semelhança de outros indicadores sociais e de saúde”. Em seguida, ele apresenta a principal linha de desigualdade: ricos vs. pobres.

Só depois disso, ele adiciona outras camadas: “As maiores prevalências de inatividade física foram em mulheres, […] idosos, […] negros, […] pessoas com renda familiar de até quatro salários mínimos…”. Note como todos esses grupos são, historicamente e estruturalmente, mais vulneráveis à pobreza e à desigualdade de classe. Ser mulher, negro ou idoso no Brasil frequentemente significa ter menos acesso a renda, tempo e segurança, que são os pré-requisitos para a prática de atividade física no lazer.

Portanto, a desigualdade de gênero, etária e racial aparece no texto como uma consequência ou uma intensificação da desigualdade de classe, que é o fator estruturante.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é se apegar a uma das outras variáveis mencionadas, como (A) “diferença entre homens e mulheres” ou (D) “variação de condição étnica”. O erro é tratar um dos sintomas como a causa principal. O texto menciona que mulheres e negros são mais inativos, mas o argumento central, apresentado logo no início, é que a grande divisão é entre “abastados” e “menos favorecidos”. As desigualdades de gênero e raça são cruciais, mas no contexto deste texto, elas estão subordinadas à análise de classe social.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação demonstra que o texto estrutura toda a sua análise da desigualdade no acesso à atividade física em torno da oposição entre classes sociais com diferentes níveis de renda e acesso a recursos.
    • Expectativa: A alternativa correta deve nomear este fator socioeconômico como o elemento central do problema.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil do fator central em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) diferença entre homens e mulheres.
Este é o erro de Tomar a Parte pelo Todo. O gênero é mencionado como uma das variáveis onde a inatividade é prevalente, mas não como o fator organizador central da análise do texto.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) inexistência de políticas públicas.
O erro é Fator Secundário. O texto menciona que o desconhecimento de programas públicos é um fator, mas a crítica principal é sobre a estrutura social que impede o acesso ao lazer, algo que vai além da simples existência de programas.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) diversidade de faixa etária.
Este é outro erro de Tomar a Parte pelo Todo. A idade (60 anos ou mais) é mencionada como um fator de vulnerabilidade, mas não como a causa estruturante que opõe as atividades de lazer às de deslocamento.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) variação de condição étnica.
Mais um erro de Tomar a Parte pelo Todo. A etnia (negros) é citada, mas a análise central do texto é construída sobre a divisão de classes.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) desigualdade entre classes sociais.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. O texto inteiro é construído sobre a oposição entre “populações mais abastadas” e a “classe social menos favorecida”. É este o “fator central” que explica a “relação inversa e perversa” entre os tipos de atividade física. A correspondência é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa E é a correta. O texto demonstra de forma contundente que, no Brasil, a desigualdade entre classes sociais é o fator central que determina não apenas se você se exercita, mas como e por que você se exercita, transformando o que deveria ser um direito ao lazer em mais um marcador de privilégio.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Para os ricos, atividade física é uma escolha no cardápio do lazer; para os pobres, é o prato amargo da necessidade diária.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que a “desigualdade de classe” transforma uma atividade em seu oposto (prazer vs. obrigação) é visível na relação com a alimentação. Para as classes mais altas, cozinhar pode ser uma “prática prazerosa, diversificada, afeita ao período de lazer” (gastronomia, hobby). Para as classes menos favorecidas, cozinhar é uma “atividade de deslocamento” em sentido figurado: é uma obrigação diária, repetitiva e cansativa para garantir a sobrevivência (“estudar ou trabalhar”). A mesma atividade — cozinhar — tem significados e cargas completamente diferentes dependendo da posição de classe, revelando a mesma “relação inversa e perversa”.

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