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Questão 40, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Introdução a Alda

Dizem que ninguém mais a ama. Dizem que foi uma boa pessoa. Sua filha de doze anos não a visita nunca e talvez raramente se lembre dela. Puseram-na numa cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pôde mais sair. Lá, todos gritam-lhe irritados, mal se aproxima, ou lhe batem, como se faz com sacos de areia para treinar os músculos. 

Sei que para todos ela já não é, ninguém lhe daria uma maça cheirosa, bem vermelha. Mas não é verdade que alguém não a possa mais amar. Eu amo-a. Amo-a quando a vejo por trás das grades de um palácio, onde se refugiou princesa, chegada pelos caminhos da dor. Quando fora do reino sente o mundo de mil lanças, e selvagem prepara-se, posta no olhar. Amo-a quando criança brinca na areia sem medo. Uns pés descalços, uma mulher sem intenções. Cercada de mundo, às vezes sofrendo-o ainda.

CANÇADO, M. L. O sofredor do ver. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

Ao descrever uma mulher internada em um hospital psiquiátrico, o narrador compõe um quadro que expressa sua percepção

A) irônica quanto aos efeitos do abandono familiar.

B) resignada em face dos métodos terapêuticos em vigor.

C) alimentada pela imersão lírica no espaço da segregação.

D) inspirada pelo universo pouco conhecido da mente humana.

E) demarcada por uma linguagem alinhada à busca da lucidez.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário (Prosa Poética)
  • Análise de Foco Narrativo e Construção de Ponto de Vista
  • Identificação de Figuras de Linguagem (Metáfora)

Tema/Objetivo Geral: Analisar como a linguagem lírica pode ser usada para subverter uma realidade opressiva e construir uma percepção afetiva de um personagem marginalizado.

Nível da Questão: Difícil.

  • Por quê? A questão exige a compreensão de conceitos abstratos como “imersão lírica” e a capacidade de interpretar uma linguagem altamente poética e subjetiva. As alternativas são conceituais e a correta descreve um processo complexo: o narrador não apenas observa, ele mergulha poeticamente na realidade da personagem para recriá-la.

Gabarito: C) alimentada pela imersão lírica no espaço da segregação.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a percepção do narrador é construída através de um processo de transfiguração poética. Ele olha para o “espaço da segregação” (o hospital) e, através de sua linguagem lírica, o transforma em um “palácio”, e a paciente em uma “princesa”. Sua visão é nutrida por essa imersão na realidade, mas recodificada poeticamente.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é definir o “superpoder” do narrador. Como ele consegue olhar para um cenário de horror e abandono e enxergar algo diferente? De onde vem essa sua visão particular?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o hospital psiquiátrico como uma prisão fria e cinzenta.
    • Um observador comum (o “Dizem que…”) veria apenas a prisão: grades, uniformes, violência, uma mulher destruída.
    • O narrador, no entanto, é como um artista que entra na mesma cela, mas com uma lanterna mágica que projeta imagens nas paredes. Onde há grades, ele projeta os vitrais de um palácio. Onde há uma prisioneira, ele projeta a imagem de uma princesa. Sua visão não nega a prisão, mas a inunda com imagens poéticas, transformando-a. O verdadeiro desafio aqui é entender que a percepção do narrador vem dessa “lanterna mágica”, dessa sua capacidade de mergulhar na escuridão e projetar luz lírica.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Mapear a Realidade Bruta: Vamos listar todas as descrições objetivas e cruéis do ambiente e da condição de Alda.
    2. Analisar a Transfiguração Poética: Vamos identificar como o narrador descreve a mesma realidade sob seu olhar particular.
    3. Definir o Processo: Vamos dar um nome a essa operação de transformar a realidade através da poesia, encontrando a alternativa que melhor a descreve.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa: Duas Visões, Uma Realidade. Ela vai expor o contraste fundamental entre a visão “de fora” e a visão do narrador.

Elemento da Realidade A Visão dos “Outros” / A Realidade Bruta A Visão do Narrador (A Transfiguração Lírica)
O Lugar “cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos” “as grades de um palácio
A Condição de Alda Abandonada, espancada (“batem […] como se faz com sacos de areia”), ninguém a ama, já não é mais. Uma princesa refugiada, “chegada pelos caminhos da dor”.
A Interação com o Mundo “todos gritam-lhe irritados”, ela sente “o mundo de mil lanças”. Quando criança, “brinca na areia sem medo”. Como mulher, “sem intenções”, apenas “cercada de mundo”.
O Sentimento dos Outros Irritação, desprezo, esquecimento. Amor incondicional: “Eu amo-a. Amo-a quando…”

A tabela revela a estratégia do narrador: ele não nega a dor (“caminhos da dor”, “mundo de mil lanças”), mas ele mergulha nesse “espaço de segregação” e o recria através de uma linguagem de amor e nobreza, uma linguagem lírica.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

O texto é construído em uma oposição violenta. O primeiro parágrafo é um soco no estômago. É a visão externa, cruel, objetiva: abandono, violência, desumanização. Alda é reduzida a um “saco de areia”.

O segundo parágrafo é a resposta do narrador a essa brutalidade. Ele começa com uma negação (“Mas não é verdade…”) e uma afirmação radical de afeto: “Eu amo-a”. A partir daí, ele inicia seu processo de “salvação poética”. Ele não pode tirá-la de lá fisicamente, então ele a resgata simbolicamente.

Como? Com metáforas. O hospício vira “palácio”. A loucura vira “reino”. As grades continuam sendo grades, mas agora são as grades de um palácio, não de uma jaula. A loucura não é mais uma doença, é uma condição de realeza ferida. Essa é a essência da imersão lírica: o eu lírico entra no espaço da dor e o transforma com sua linguagem poética.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E): “demarcada por uma linguagem alinhada à busca da lucidez”. A linguagem do narrador é, de fato, muito bem construída e precisa. Mas a armadilha é confundir a clareza da escrita com uma busca pela lucidez como tema. O narrador não está tentando “curar” Alda ou entender sua loucura racionalmente. Pelo contrário, ele abraça o mistério e a dor dela, respondendo não com a lógica, mas com a poesia e o afeto. Sua linguagem não busca a lucidez, busca a beleza e o amor em meio à “não-lucidez”.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A percepção do narrador é um ato de resistência poética. Ele combate a desumanização do ambiente aplicando sobre ele uma camada de linguagem lírica, que devolve a Alda sua dignidade e nobreza.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, capturar essa ideia de que a visão do narrador é nutrida pela sua capacidade de mergulhar na realidade opressiva (“espaço da segregação”) e transformá-la através da poesia (“imersão lírica”).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) irônica quanto aos efeitos do abandono familiar.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor não capta o tom do texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Tom. O tom é de uma sinceridade e afeto dolorosos, o exato oposto da ironia (que implica distanciamento e sarcasmo).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) resignada em facce dos métodos terapêuticos em vigor.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor confunde a impossibilidade de ação física com aceitação.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Atitude. A percepção do narrador é um ato de rebeldia, de não aceitação da realidade imposta. Ele não se resigna; ele recria.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) alimentada pela imersão lírica no espaço da segregação.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Alimentada por” (nutrida por). “Imersão lírica” (o mergulho poético, a transformação pela linguagem). “No espaço da segregação” (o hospital). A frase descreve o processo com precisão conceitual.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) inspirada pelo universo pouco conhecido da mente humana.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor acha que o texto é um estudo psicológico.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O foco não é explorar a “mente humana” de forma clínica ou curiosa, mas sim expressar um sentimento de amor e compaixão por uma pessoa específica.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) demarcada por uma linguagem alinhada à busca da lucidez.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Conceitual. A resposta do narrador à loucura não é a lógica ou a lucidez, mas a poesia e o afeto.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois o narrador nos ensina que o amor, às vezes, é um ato de tradução poética: a capacidade de ver um palácio onde todos os outros só veem grades.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A poesia do narrador é a única janela que se abre para dentro, e não para fora, da cela de Alda.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A atitude do narrador se conecta diretamente ao conceito de “Reparação” na teoria psicanalítica de Melanie Klein, aplicado aos estudos literários. Enquanto a “leitura paranoica” busca desmascarar e criticar (como a descrição do primeiro parágrafo), a “leitura reparativa” busca encontrar beleza, afeto e possibilidades de reconstituição mesmo em meio a um mundo fraturado. O narrador pratica uma leitura reparativa da vida de Alda. Ele não ignora a violência, mas escolhe focar nos fragmentos de beleza (“pés descalços”, “mulher sem intenções”) e usar sua linguagem para, simbolicamente, “consertar” a dignidade que foi quebrada, oferecendo uma visão de inteireza e amor.

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