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Questão 40, caderno azul ENEM 2020

– O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? (O diretor diz essas coisas a ele, mas olha para todos, como que a dar uma explicação a todos. Todas as caras sorriem.) Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. Não me peça mais nada. Não me encarregue de pagar as suas contas: já tenho as minhas, e é o que me basta… (Risos).

O diretor tem o rosto escanhoado, a camisa limpa. A palavra possui um tom educado, de pessoa que convive com gente inteligente, causeuse. O rosto do Dr. Rist resplandece, vermelho e glabro. Um que outro tem os olhos no chão, atitude discreta.

Naziazeno espera que ele lhe dê as costas, vá reatar a palestra interrrompida, aquelas observações sobre a questão social, consumismo e integralismo.

MACHADO, D. Os ratos. São Paulo: Circuito do Livro, s/d.

A ficção modernista explorou tipos humanos em situação de conflito social. No fragmento do romancista gaúcho, esse conflito revela a:

A) sujeição moral amplificada pela pobreza.

B) crise econômica em expansão nas cidades.

C) falta de diálogo entre patrões e empregados.

D) perspicácia marcada pela formação intelectual.

E) tensão política gerada pelas ideologias vigentes.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Literário
    • Teoria da Literatura (Modernismo Brasileiro, Crítica Social)
    • Sociologia (Luta de Classes, Humilhação Social)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar uma cena de conflito social em uma obra modernista para identificar como a desigualdade econômica se manifesta como uma forma de dominação e sujeição moral.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige a capacidade de ler nas entrelinhas. O conflito não é explícito (não há gritos ou ameaças), mas sim velado, construído sobre a ironia, os gestos e as reações da plateia. O candidato precisa interpretar a “violência simbólica” da cena, que é mais sutil do que uma agressão física.
  • Gabarito: A
    • A alternativa está correta porque a cena descreve um ritual de humilhação. O diretor, em posição de poder, nega um pedido de ajuda a Naziazeno de forma pública, usando ironia e lembrando favores passados (“eu o ajudei como pude”) para expor a dependência do empregado. Naziazeno, por sua vez, espera passivamente, incapaz de reagir. Essa dinâmica de poder desigual, onde um se impõe e o outro se submete, revela a sujeição moral que é intensificada (“amplificada”) pela sua condição de pobreza.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto mostra uma cena tensa entre um chefe e um empregado. O que essa cena, típica da ficção modernista, revela sobre o principal conflito social que está acontecendo ali?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a cena em um pátio de escola. Um garoto pobre (Naziazeno) pede ajuda a um garoto rico e popular (o Diretor). Em vez de responder em particular, o garoto rico chama a atenção de todo o grupo e diz em voz alta, com um sorriso sarcástico: “Pessoal, olha só, ele acha que eu sou o pai dele! Já te ajudei uma vez, não me peça mais nada!”. Todos riem. O garoto pobre fica de cabeça baixa, esperando o show acabar. O que essa cena revela? Revela a humilhação e a submissão (sujeição moral) que a diferença de poder e dinheiro (pobreza) pode causar. A cena do livro é esse pátio de escola, mas no mundo adulto.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar a Ação do Diretor: O que o diretor faz e diz? Qual é a intenção por trás de suas palavras e gestos?
  • Analisar a Reação de Naziazeno: O que o empregado faz? Sua atitude é de confronto ou de submissão?
  • Analisar a Plateia: Qual o papel dos outros personagens que assistem à cena?
  • Sintetizar o Conflito: Juntando tudo, qual é a dinâmica de poder que a cena expõe?

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é construir o perfil do conflito juntos, analisando a performance de cada personagem. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.

  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Detetive, vamos analisar a cena. Temos um conflito claro entre o Diretor e Naziazeno. Comecemos pelo Diretor. Ele nega o pedido de Naziazeno de forma privada e discreta?”
  • 🧠 Aluno: “Não, muito pelo contrário. O texto diz que ele ‘olha para todos’, transformando a conversa em um espetáculo público.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exato. É uma performance. E qual o tom dessa performance? É de empatia? Ele diz ‘Sinto muito, não posso ajudar’?”
  • 🧠 Aluno: “Também não. O tom é irônico e humilhante. Ele usa frases como ‘O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro?’ e faz a plateia rir. E ainda joga na cara de Naziazeno um favor antigo.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Perfeito. Agora, vamos analisar a outra parte: Naziazeno. Como ele reage a essa humilhação pública? Ele protesta, ele argumenta?”
  • 🧠 Aluno: “Não, ele não faz nada. O texto diz que ele ‘espera que ele lhe dê as costas’. É uma atitude de total passividade, de quem aceita a situação.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exato. Ele se submete. Essa atitude de submissão psicológica e humilhação perante o poder é o que chamamos de sujeição moral. Agora, a pergunta final: o que, na relação entre eles, dá ao diretor o poder de humilhar e força Naziazeno a aceitar essa sujeição?”
  • 🧠 Aluno: “A diferença de classe, a dependência. Naziazeno é pobre e o diretor é o chefe. A pobreza o deixa sem escolha.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Caso encerrado. O conflito, portanto, é a sujeição moral que é amplificada pela pobreza. É com essa conclusão precisa que vamos analisar os suspeitos.”

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa análise já resolveu o caso. O conflito não é uma simples “falta de diálogo”. Há um diálogo, mas é um monólogo de poder disfarçado de conversa.

  • A aparência do diretor (“rosto escanhoado, a camisa limpa”) contrasta com a situação humilhante de Naziazeno, reforçando a distância de classe.
  • O fato de o diretor estar no meio de uma “palestra” sobre “questão social” e “consumismo” adiciona uma camada de hipocrisia e ironia devastadora à cena. Ele teoriza sobre a sociedade enquanto pratica a opressão de classe no nível mais pessoal.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (C), “falta de diálogo entre patrões e empregados”. O erro é interpretar a cena de forma literal. Existe um diálogo, as pessoas estão falando. O problema não é a ausência de comunicação, mas a qualidade dessa comunicação. É um diálogo assimétrico, vertical, onde um fala para uma plateia e o outro apenas ouve e espera. A questão central é a dinâmica de poder, e não a simples troca de palavras.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra uma cena de humilhação pública em que a superioridade econômica de um personagem (o diretor) é usada para impor a submissão psicológica (sujeição moral) a outro (Naziazeno).
  • Expectativa: A alternativa correta deve conectar a pobreza à submissão moral.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) sujeição moral amplificada pela pobreza.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Sujeição moral” descreve perfeitamente a passividade e a humilhação de Naziazeno. “Amplificada pela pobreza” aponta a causa estrutural dessa sujeição, que é a dependência econômica em relação ao diretor.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • B) crise econômica em expansão nas cidades.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na questão do dinheiro e a generaliza para um contexto macroeconômico.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. O texto apresenta um conflito micro, interpessoal, focado na relação de poder entre dois indivíduos. Embora a pobreza de Naziazeno possa ser um reflexo de uma crise maior, o foco do fragmento não é esse.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) falta de diálogo entre patrões e empregados.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Literal. O problema não é a ausência de diálogo, mas um diálogo desigual e opressor. A alternativa é superficial e não captura a violência simbólica da cena.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) perspicácia marcada pela formação intelectual.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no fato de que o diretor é “educado” e fala de temas “inteligentes”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. O texto usa a “formação intelectual” do diretor de forma irônica, para mostrar sua hipocrisia, e não para destacar sua “perspicácia” (inteligência aguçada). A cena não é sobre uma batalha de intelectos.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) tensão política gerada pelas ideologias vigentes.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na menção a “integralismo”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A menção às ideologias serve para caracterizar a hipocrisia do diretor, mas o conflito central mostrado na cena não é um debate político, e sim um confronto de classe direto e pessoal.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta. Este caso é uma aula de como a literatura modernista brasileira usou cenas do cotidiano para dissecar as estruturas de poder, mostrando que a desigualdade econômica raramente é apenas sobre dinheiro; é, acima de tudo, sobre dignidade.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O diretor não negou apenas dinheiro; ele roubou a voz de Naziazeno na frente de todos.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar a humilhação pública como ferramenta de poder é um conceito central nos estudos sobre bullying e assédio moral no ambiente de trabalho. O agressor raramente ataca a vítima apenas no privado. A eficácia da agressão moral muitas vezes depende da existência de uma “plateia” (os colegas de trabalho) que, pelo riso ou pelo silêncio cúmplice (“olhos no chão”), valida o poder do agressor e isola a vítima. A cena descrita por Dyonélio Machado em 1935 é um estudo de caso perfeito para a psicologia organizacional contemporânea que analisa o assédio moral.

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