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Questão 38, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Se for possível, manda-me dizer:
— É lua cheia. A casa está vazia —
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
— É lua nova —
E revestida de luz te volto a ver.

HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia das Letras, 2018.

Falando ao outro, o eu lírico revela-se vocalizando um desejo que remete ao

A) ceticismo quanto à possibilidade do reencontro.

B) tédio provocado pela distância física do ser amado.

C) sonho de autorrealização desenhado pela memória.

D) julgamento implícito das atitudes de quem se afasta.

E) questionamento sobre o significado do amor ausente.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Poético
  • Análise da Voz do Eu Lírico
  • Identificação de Figuras de Linguagem e Simbolismo

Tema/Objetivo Geral: Analisar a expressão do desejo em um poema lírico, identificando sua relação com a memória e a imaginação.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige uma interpretação sensível e abstrata. O poema não expressa um desejo simples, mas um que é construído e alimentado por imagens do passado. A alternativa correta usa o termo “autorrealização”, que é conceitual e pode ser de difícil conexão imediata com o texto, exigindo uma análise mais profunda.

Gabarito: C) sonho de autorrealização desenhado pela memória.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o reencontro desejado pelo eu lírico não é apenas físico, mas uma forma de se sentir completo novamente (“paraíso”, “revestida de luz te volto a ver”). Essa plenitude é um “sonho” construído e sustentado inteiramente pelas “lembranças” do passado (“brilho das marés”, “pés molhados”).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é entender a “psicologia” do eu lírico. O que ele realmente quer? De onde vem esse querer? É um desejo baseado na raiva, na dúvida, na tristeza ou em outra coisa?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o eu lírico está em um quarto escuro (a ausência). O desejo dele é que a pessoa amada acenda a luz. Mas como ele descreve essa luz? Ele não diz “acenda a luz para que eu possa te ver”. Ele diz: “acenda a luz para que eu possa te ver como te via naquela praia, com peixes rosados e pés molhados“. O desejo pelo futuro (o reencontro) é, na verdade, um desejo de recriar o passado. O verdadeiro desafio aqui é entender que a energia para o desejo vem da “bateria” da memória.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Identificar os Pedidos: O que o eu lírico pede ao seu interlocutor?
    2. Analisar a Motivação: Por que ele faz esses pedidos? Qual é a fonte de sua esperança?
    3. Definir a Natureza do Desejo: Vamos sintetizar o que o reencontro representa para o eu lírico.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma do Desejo, que nos mostrará como a memória alimenta o sonho.

[O GATILHO: A POSSIBILIDADE]

  • “Se for possível, manda-me dizer…”
  • O desejo começa com uma condição, uma esperança.

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[A CONDIÇÃO PARA O REENCONTRO: A MEMÓRIA COMPARTILHADA]

  • O eu lírico não pede apenas para a pessoa voltar. Ele a convida a lembrar: “Se te lembras do brilho das marés / De alguns peixes rosados / […] E dos meus pés molhados…”
  • Análise: A memória não é apenas um detalhe; é a condição para o chamado. O desejo só é legítimo se o passado ainda viver no outro.

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[A NATUREZA DO DESEJO: UM SONHO DE RECONSTITUIÇÃO]

  • O que o reencontro traria?
    • Pista 1: “o paraíso / Há de ficar mais perto”. (Uma visão de plenitude, felicidade máxima).
    • Pista 2: “revestida de luz te volto a ver”. (Uma visão idealizada, quase sagrada, do ser amado).
  • Análise: O desejo não é apenas “matar a saudade”. É um projeto de alcançar um estado de perfeição (“paraíso”), de se sentir completo novamente, de se realizar através do outro.

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[A CONCLUSÃO]

  • O desejo é um SONHO (de paraíso, de plenitude) que é inteiramente DESENHADO PELA MEMÓRIA (as imagens da praia). A realização desse sonho é uma forma de AUTORREALIZAÇÃO (sentir-se pleno, completo, no paraíso).

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A voz do poema é uma súplica condicional: “Se for possível…”, “Se tens o dia…”, “Se é verdade…”, “Se te lembras…”. Essa repetição do “se” mostra que o eu lírico não tem certeza de nada. Ele vive em um mundo de hipóteses.

E qual é a base para que essas hipóteses se tornem realidade? A memória. A parte mais longa e sensorialmente rica do poema é a evocação de uma cena passada: “o brilho das marés”, “peixes rosados”, “pés molhados”. É como se o eu lírico estivesse dizendo: “Se você ainda guarda essa imagem, essa sensação, então nosso reencontro é possível”.

O reencontro é descrito em termos absolutos e idealizados: “paraíso”, “revestida de luz”. Não é um reencontro qualquer; é um evento transformador que trará a plenitude de volta. É a realização de um projeto de felicidade desenhado com as tintas do passado.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B), que fala em “tédio”. A menção a “só vês monotonia” e “dia tão longo como a noite” pode levar o leitor a pensar que o sentimento central é o tédio. Mas o tédio, aqui, não é o motor do poema; é o sintoma da ausência, o vazio que o eu lírico espera que o outro também sinta. O sentimento ativo, a força que move o poema, não é o tédio, mas sim o desejo vibrante de recriar a felicidade passada.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o desejo do eu lírico não é um impulso cego, mas um projeto consciente de reconstrução. Ele quer usar a memória como um mapa para voltar a um estado de felicidade idealizada, que ele chama de “paraíso”.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, combinar a ideia de desejo/sonho com o papel fundamental da memória como sua matéria-prima.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) ceticismo quanto à possibilidade do reencontro.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no uso repetido do “Se” e o interpreta como dúvida total.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Tom. O “Se” expressa uma condição, uma incerteza, mas o tom geral do poema é de esperança e desejo intenso, não de ceticismo (que seria a descrença na possibilidade).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) tédio provocado pela distância física do ser amado.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Sintoma com a Causa. O tédio é a descrição do vazio, não a força motriz do poema, que é o desejo ativo de preencher esse vazio.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) sonho de autorrealização desenhado pela memória.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Sonho” (de paraíso, de plenitude). “Autorrealização” (o reencontro como forma de o eu lírico se sentir completo). “Desenhado pela memória” (a base de tudo são as lembranças da praia).
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) julgamento implícito das atitudes de quem se afasta.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a súplica como uma acusação.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O tom do poema é de convite e evocação, não de crítica ou julgamento. Não há ressentimento na voz do eu lírico.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) questionamento sobre o significado do amor ausente.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor acha que o poema é uma reflexão filosófica.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O eu lírico não está questionando o que o amor significa; ele está afirmando seu desejo por ele. É um poema de desejo, não de dúvida existencial.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois o poema de Hilda Hilst nos mostra que, muitas vezes, o desejo não é um anseio pelo novo, mas um profundo sonho de reencontrar a nós mesmos em uma felicidade que já conhecemos, guiados pelo mapa da memória.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O futuro desejado pelo eu lírico é um museu luminoso do seu melhor passado.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A dinâmica do poema ecoa a teoria da “Repetição e Diferença” do filósofo Gilles Deleuze. Para Deleuze, nunca repetimos o passado de forma idêntica. Toda repetição traz consigo uma diferença. O eu lírico do poema deseja repetir a experiência passada (“te volto a ver”). No entanto, o próprio poema já introduz a diferença: a primeira lua era “cheia” (plenitude passada), a lua do reencontro será “nova” (um recomeço). O eu lírico, talvez inconscientemente, não anseia por uma cópia exata do passado, mas por uma repetição criativa: reviver a mesma essência de felicidade, mas em um novo ciclo, sob uma nova luz

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