O gramático tem uma percepção muito estrita da língua. Ele se vê como alguém que tem de defender a língua da mudança. O problema é que eles, ao se esforçarem para que as pessoas obedeçam às normas da língua, não viram que estavam dando um cala-boca no cidadão brasileiro. Como se dissessem: “Tem de falar e escrever de acordo com as regras. Não fale errado!”. E as pessoas, com medo de não conseguir, falam e escrevem pouco. O dono da língua é o falante, não o gramático. Aprendemos com o falante a língua como ele fala e procuramos saber por que está falando de um jeito ou de outro. Dizer que está falando errado não é uma atitude científica, de descoberta. A linguística substituiu o cala-boca ao prazer da descoberta científica. Foi só com a linguística que se ampliou o olhar e se passou a considerar que qualquer assunto é digno de estudo
Entrevista de Ataliba de Castilho. Pesquisa Fapesp, n. 259, set. 2017 (adaptado).
Com base na tese defendida na conclusão do texto, infere-se a intenção do autor de:
A) atribuir à gramática os desvios do português brasileiro.
B) defender uma atitude política diante das regras da língua.
C) contrapor o trabalho do linguista às prescrições gramaticais.
D) contribuir para reverter a escassez de produções textuais no país.
E) isentar o falante da responsabilidade de seguir as normas linguísticas.

Resolução em Texto
📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão
- Linguística (Linguística Descritiva vs. Gramática Prescritiva/Normativa)
- Sociolinguística (Variação Linguística, Preconceito Linguístico)
- Interpretação de Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreender a diferença fundamental entre a abordagem prescritiva do gramático tradicional e a abordagem descritiva e científica do linguista em relação aos usos da língua.
📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige a compreensão da distinção entre duas posturas em relação à língua. O texto é claro, mas o aluno precisa captar a oposição central que está sendo construída para escolher a alternativa correta. É um teste de interpretação conceitual.
✅ Gabarito: Alternativa C.
Resumo: O texto pinta dois retratos opostos. O gramático é retratado como um “defensor” da língua que impõe regras (“Tem de falar e escrever de acordo com as regras”), julga o que é “errado” e acaba silenciando os falantes (“cala-boca”). A linguística (e o linguista), por outro lado, tem uma atitude científica de observação e descoberta (“procuramos saber por que está falando de um jeito ou de outro”), considerando “qualquer assunto digno de estudo”. Portanto, a intenção do autor é contrapor a atitude prescritiva e julgadora do gramático à atitude descritiva e científica do linguista.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Com base na tese defendida na conclusão do texto, infere-se a intenção do autor de:”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos o objetivo principal do autor, Ataliba de Castilho, no texto. O que ele está tentando nos mostrar ao comparar a figura do gramático com a da linguística?
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar as descrições que o autor faz do “gramático” e do “linguista” para entender a relação de oposição que ele estabelece entre eles.
🧠 O texto apresenta o gramático e o linguista como colegas que trabalham da mesma forma, ou como profissionais com métodos e objetivos completamente diferentes, até mesmo opostos?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Gramático (Tradicional / Normativo):
- Postura: Prescritiva. Ele prescreve (receita) como a língua deve ser usada, com base em um conjunto de regras (a norma padrão).
- Atitude: Julgadora. Classifica os usos da língua em “certo” e “errado”.
- Objetivo (segundo o texto): “Defender a língua da mudança”, “que as pessoas obedeçam às normas”.
- Linguista:
- Postura: Descritiva. Ele descreve como a língua é realmente usada pelos falantes em suas diversas variedades.
- Atitude: Científica, de observação e análise. Ele não julga, mas busca entender as razões dos fenômenos linguísticos (“procuramos saber por que está falando de um jeito ou de outro”).
- Objetivo (segundo o texto): O “prazer da descoberta científica”, considerar “qualquer assunto digno de estudo”.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
O autor, que é um linguista, está nos mostrando a diferença entre dois “profissionais da língua”.
- O Gramático: É como um juiz severo ou um “guarda de trânsito” da língua. Ele só tem um livro de regras e fica multando todo mundo que “fala errado”. O resultado, segundo o autor, é que as pessoas ficam com medo de falar e acabam se calando (“cala-boca”).
- O Linguista: É como um cientista, um biólogo ou um antropólogo da língua. Ele não julga, ele observa. Ele vai a campo, ouve como as pessoas realmente falam e tenta entender por que elas falam daquele jeito. Para ele, tudo é interessante e digno de estudo.
A pergunta é: qual é a intenção do autor ao mostrar essa diferença? É colocar os dois em oposição, em contraste, para valorizar a abordagem da linguística.
Estratéia Geral 🗺️
Vamos focar nas palavras e expressões que o autor usa para caracterizar cada uma das duas figuras (gramático e linguista) e na oposição que ele constrói entre elas.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Caracterização do Gramático:
- Visão “estrita da língua”.
- Objetivo: “defender a língua da mudança”, “fazer obedecer às normas”.
- Ação/Efeito: Dá um “cala-boca”, gera medo.
- Atitude: Julgadora (“Não fale errado!”).
- Caracterização da Linguística (e do Linguista):
- Visão ampla: “se ampliou o olhar”.
- Objetivo: “saber por que está falando de um jeito ou de outro”, “descoberta científica”.
- Ação/Efeito: Substitui o “cala-boca” pelo “prazer da descoberta”.
- Atitude: Científica, não julgadora (“Dizer que está falando errado não é uma atitude científica”).
- Análise da Relação: O autor constrói uma antítese, uma oposição clara entre as duas abordagens. De um lado, a prescrição, o julgamento e a repressão (gramático). Do outro, a descrição, a análise e a descoberta (linguista).
- Conclusão da Tese: A tese do autor, que fica clara na conclusão do texto, é que a linguística oferece uma abordagem superior, mais democrática e cientificamente mais rica para o estudo da língua, em oposição à abordagem restritiva da gramática tradicional.
A Armadilha Comum 🚨
A alternativa B (“defender uma atitude política”) pode ser uma armadilha. Embora a discussão tenha implicações políticas (o “cala-boca no cidadão”), a intenção principal do autor no texto é estabelecer uma diferença epistemológica, ou seja, de método de estudo, entre duas áreas do saber. A oposição é entre a gramática e a linguística como disciplinas, o que é melhor descrito pela alternativa C.
Fechamento e Expectativa
O raciocínio nos leva a procurar a alternativa que expressa a ideia de oposição ou contraste entre a gramática e a linguística.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) atribuir à gramática os desvios do português brasileiro.
Incorreta. O texto não diz que a gramática causa os “desvios”, mas sim que ela os condena, e que a linguística não os vê como desvios.
🔴 B) defender uma atitude política diante das regras da língua.
Incorreta. A atitude defendida é primariamente científica (“descoberta científica”), embora tenha consequências políticas. A alternativa C é mais precisa sobre o foco do texto.
🟢 C) contrapor o trabalho do linguista às prescrições gramaticais.
Correta. Esta alternativa resume perfeitamente a estrutura argumentativa do texto. O autor dedica todo o tempo a colocar em oposição (“contrapor”) o método de trabalho do linguista (descritivo, científico) e as regras impostas pelo gramático (as “prescrições gramaticais”).
🔴 D) contribuir para reverter a escassez de produções textuais no país.
Incorreta. Embora o texto mencione que o medo de errar faz com que as pessoas “falem e escrevam pouco”, o objetivo principal do texto não é propor uma solução para a produção textual, mas sim discutir as diferentes abordagens de estudo da língua.
🔴 E) isentar o falante da responsabilidade de seguir as normas linguísticas.
Incorreta. O texto não “isenta” o falante de nada. Ele defende que o “erro” deve ser estudado e compreendido, em vez de simplesmente condenado. Isso não significa que não existam contextos em que a norma padrão é necessária (adequação linguística), mas o foco do texto é a atitude do estudioso da língua.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O texto de Ataliba de Castilho constrói uma argumentação baseada na oposição entre duas figuras e duas abordagens sobre a língua. De um lado, o gramático tradicional, com sua postura prescritiva, que julga os usos como “certos” ou “errados” e, segundo o autor, reprime o falante. De outro lado, o linguista, com sua postura descritiva e científica, que busca compreender as razões por trás das diferentes formas de falar, sem julgamento de valor. A intenção do autor é, portanto, contrapor esses dois modelos, valorizando o trabalho do linguista em oposição às prescrições gramaticais.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se da diferença fundamental: Gramático = Juiz (julga o certo e o errado). Linguista = Cientista (observa e descreve o que existe). O texto de Castilho defende a postura do cientista e critica a do juiz.