Texto I
Logo no início de Gira, um grupo de sete bailarinas ocupa o centro da cena. Mãos cruzadas sobre a lateral esquerda do quadril, olhos fechados, troncos que pendulam sobre si mesmos em vaguíssimas órbitas, tudo nelas sugere o transe. Está estabelecido o caráter volátil do que se passará no palco dali para frente. Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética dos cultos afro-brasileiros.
Texto II

Disponível em: www.grupocorpo.com.br. Acesso em: 2 jul. 2019.
No diálogo que estabelece com religiões afro-brasileiras, sintetizado na descrição e na imagem do espetáculo, a dança exprime uma
a) crítica aos movimentos padronizados do balé clássico.
b) representação contemporânea de rituais ancestrais extintos.
c) reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares.
d) releitura irónica da atmosfera mística presente no culto a entidades.
e) oposição entre o resgate de tradições e a efemeridade da vida humana.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto Verbal e Não Verbal (Imagem)
- História da Arte/Dança (Dança Contemporânea)
- Antropologia/Sociologia (Cultura Afro-Brasileira, Sincretismo)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar como a dança contemporânea se apropria e reinterpreta elementos de rituais religiosos populares, criando uma nova obra de arte que dialoga com a tradição sem ser uma cópia dela.
- Nível da Questão: Difícil.
- Justificativa: A questão é difícil pela sutileza da análise exigida. O candidato precisa entender a frase-chave “engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética” e conectá-la ao conceito de “reelaboração estética”. Além disso, as alternativas usam um vocabulário erudito, exigindo a diferenciação precisa entre “representação”, “reelaboração”, “releitura irônica”, etc.
- Gabarito: C) reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o espetáculo pega elementos das “práticas religiosas populares” (cultos afro-brasileiros), mas, como o texto adverte, não os copia literalmente. Em vez disso, ele os transforma através da linguagem da dança contemporânea (uma forma de arte “erudita”), resultando em uma “reelaboração estética”.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a missão é a seguinte: o texto e a imagem mostram um espetáculo de dança que se inspira claramente em rituais de religiões afro-brasileiras. No entanto, o texto nos dá um aviso importante: “não é uma cópia!”. A questão nos pede para dar o nome certo a esse processo: pegar uma inspiração de uma cultura popular e transformá-la em uma obra de arte para o palco, sem ser uma imitação.
Simplificando, imagine um chef de alta gastronomia que se inspira na feijoada da sua avó. Ele não vai servir a feijoada exatamente como ela faz. Ele vai pegar os ingredientes, os sabores, a “alma” da feijoada e vai criar um prato novo, sofisticado, com uma apresentação diferente (uma “desconstrução”, por exemplo). O que ele fez? Ele não imitou, ele reelaborou. A questão quer que a gente aplique essa mesma lógica à dança.
Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Identificar a Fonte de Inspiração: Vamos analisar o texto e a imagem para confirmar de onde vêm os elementos da dança.
- 2. Focar na “Cláusula de Exceção”: Vamos dar atenção máxima à frase que nos alerta para não esperarmos uma cópia fiel.
- 3. Definir a Natureza da Expressão: Ao juntar a inspiração com a advertência, vamos determinar a relação exata entre a dança e o ritual.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A ferramenta essencial aqui é a distinção entre três conceitos artísticos: Mimese, Paródia e Reelaboração.
- Mimese (ou Representação Mimética): É a imitação fiel, a cópia. Se o espetáculo fosse mimético, ele tentaria reproduzir um ritual de candomblé no palco da forma mais realista possível. O texto nega que seja isso.
- Paródia (ou Releitura Irônica): É uma imitação com o objetivo de zombar, criticar ou satirizar. O tom do texto (“sugere o transe”, “caráter volátil”) não tem nada de irônico; é respeitoso.
- Reelaboração Estética (ou Recriação): É o ato de pegar elementos de uma fonte, desmontá-los e reconstruí-los dentro de uma nova linguagem artística. O artista não copia nem zomba; ele se inspira e traduz. Ele pega a “prática religiosa popular” e a traduz para a linguagem da “dança contemporânea erudita”.
O texto nos guia para a terceira opção.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A execução do nosso plano nos leva a conectar as pistas.
1. A Inspiração: O texto fala de “transe” e a imagem mostra figurinos brancos e movimentos que remetem aos cultos afro-brasileiros. A fonte é clara: práticas religiosas populares.
2. A Advertência: A frase “Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética” é a chave. “Mimética” significa “baseada na imitação”. O autor está nos dizendo: “Atenção, detetive, isto não é uma cópia!”.
3. A Natureza da Dança: Se não é uma cópia, mas se inspira claramente nos rituais, o que é? É uma tradução, uma interpretação. O Grupo Corpo, uma companhia de dança contemporânea, que se apresenta em teatros e faz parte do circuito de arte erudita, está pegando elementos da cultura popular e os transformando em sua própria linguagem artística. É, portanto, uma reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B) “representação contemporânea de rituais ancestrais extintos”. Ela tem dois erros fatais. Primeiro, os rituais afro-brasileiros não estão “extintos”; são religiões vivas e praticadas por milhões de pessoas. Segundo, o texto nega explicitamente que seja uma “representação”, usando o termo “representação mimética” para dizer que não é isso.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que o espetáculo se apropria de elementos de rituais populares vivos, não para copiá-los, mas para recriá-los dentro da linguagem sofisticada da dança contemporânea de palco.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse processo de recriação, tradução ou reelaboração, e reconhecer a diferença de status entre a fonte (popular) e o resultado (erudito).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso perfil da expressão artística em mãos, vamos interrogar os suspeitos.
a) crítica aos movimentos padronizados do balé clássico.
O erro é Fuga ao Tema. O espetáculo dialoga com a cultura afro-brasileira, não com o balé clássico.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
b) representação contemporânea de rituais ancestrais extintos.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é duplo: Informação Falsa (rituais não são extintos) e Contradição Direta (o texto nega que seja uma representação).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Reelaboração estética” (a tradução artística que não é cópia), “erudita” (a linguagem da dança contemporânea de uma companhia como o Grupo Corpo) de “práticas religiosas populares” (os cultos afro-brasileiros). A descrição é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
d) releitura irónica da atmosfera mística presente no culto a entidades.
O erro é Interpretação Equivocada do Tom. O tom do espetáculo, como descrito, é de imersão e seriedade (“sugere o transe”), não de ironia.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
e) oposição entre o resgate de tradições e a efemeridade da vida humana.
O erro é Fuga ao Tema. O texto não estabelece essa oposição filosófica. O foco é no processo de criação artística.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos que a alternativa C é a correta. O espetáculo Gira é um exemplo magnífico de como a arte erudita pode dialogar respeitosamente com a cultura popular, resultando em uma poderosa reelaboração estética que enriquece ambos os universos.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O Grupo Corpo não colocou o terreiro no palco; ele ouviu o som dos tambores do terreiro e compôs uma nova sinfonia com os corpos dos bailarinos.
- 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da “reelaboração estética erudita de práticas populares” é um motor fundamental da Alta Costura na moda. Um estilista de renome pode viajar para uma comunidade indígena no Peru (prática popular) e se inspirar nos padrões têxteis e nas cores usadas por artesãos locais. Ele não vai copiar o poncho tradicional (isso seria apropriação ou mimese). Em vez disso, ele fará uma “reelaboração estética”: usará aquela inspiração para criar um vestido de noite sofisticado (a forma “erudita”), com um corte inovador e tecidos de luxo, que será apresentado em um desfile em Paris. O processo de traduzir a inspiração popular para a linguagem da alta cultura é exatamente o mesmo.