Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.
ASSIS, M. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.domíniopúblico.gov.br. Acesso em: 25 jul, 2022.
O recurso linguístico que permite o Machado de Assis considerar o capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas como inventário é a:
A) enumeração de objetos e fatos.
B) predominância de linguagem objetiva.
C) ocorrência de período longo no trecho.
D) combinação de verbos no presente e no pretérito.
E) presença de léxico do campo semântico de funerais

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Recursos Estilísticos: Figuras de Linguagem (Enumeração) e Pontuação.
- Interpretação de Texto: Metalinguagem (o narrador comentando sobre o próprio texto).
- Literatura Brasileira: Realismo/Machado de Assis e o tom irônico/metódico.
Tema/Objetivo Geral:
Identificar o recurso sintático-estilístico (a enumeração por justaposição) que cria o efeito de “lista” ou “inventário” na narrativa machadiana.
Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão parece simples, mas exige que o aluno saiba o significado exato de “inventário” (lista de bens) e o conecte à estrutura do texto (sequência de vírgulas), e não apenas ao tema do texto (enterro, que levaria à alternativa E). A armadilha vocabular é forte.
Gabarito: A.
- Resumo: O texto é uma longa lista de substantivos (“soluços, lágrimas, casa, veludo…”) e orações sequenciais (“e tomam… e levantam… e descem…”) separados por vírgulas. Essa estrutura de lista é a definição linguística de uma enumeração, que é a base de qualquer inventário (lista de coisas).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Ligar a Metáfora à Gramática.
Decodificação do Objetivo: O narrador diz: “Isto parece um simples inventário”. A questão pergunta: “Por que parece?”. Qual ferramenta gramatical ele usou para transformar um enterro triste em uma lista de supermercado (inventário)?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Texto Narrativo Comum: “O dia estava triste. As pessoas choravam muito enquanto o caixão descia…” (Conta uma história).
Texto Inventário (O que Machado fez): “Lágrimas, caixão, choro, padre, terra, fim.” (Faz uma lista de itens).
A questão quer o nome dessa “técnica de fazer lista”.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Observar a pontuação (vírgulas, vírgulas, vírgulas).
- Observar a classe gramatical predominante (substantivos soltos).
- Associar “lista” com “enumeração”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o efeito de sentido, vamos usar a Tabela de Efeitos Textuais.
| Recurso Linguístico 🛠️ | Efeito de Sentido 🧠 | Nome Técnico 📚 |
| Colocar itens em sequência | Criar uma lista, acumular, descrever o todo pelas partes. | Enumeração |
| Usar palavras específicas | Criar ambiente, clima (ex: morte). | Campo Semântico |
| Usar frases curtas | Agilidade, rapidez. | Período Simples |
| Usar frases longas | Fluxo de pensamento, complexidade. | Período Composto |
Conceito Chave: O Inventário
Um inventário nada mais é do que uma enumeração de bens. Machado brinca com isso: ele faz o inventário não dos bens materiais, mas dos “bens” da cena (soluços, caixão, padre). Ele trata sentimentos e pessoas como objetos de uma lista.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos olhar a estrutura do texto:
- “Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto…”
- Vírgula, vírgula, vírgula. Substantivo, substantivo, substantivo.
- Não há conectivos complexos (“porque”, “embora”). É apenas uma coisa depois da outra.
- “…um homem que veio… outro que tomou… seis pessoas que o tomam… e o levantam…”
- Mesmo quando aparecem verbos, eles estão listando ações sequenciais mecânicas.
- A Confissão do Autor:“Isto que parece um simples inventário…”
- Ele admite que escreveu em forma de lista.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“presença de léxico do campo semântico de funerais”) é o distrator mais forte.
- Por que seduz? Porque o texto está cheio de palavras de funeral (caixão, coche, padre).
- Por que está errada? A pergunta é: o que faz parecer um INVENTÁRIO? Você pode escrever um poema romântico sobre funerais que não pareça um inventário. O que define o inventário não é o tema (funeral), é a forma (lista/enumeração). Se eu fizer uma lista de compras (“arroz, feijão, batata”), é um inventário de comida. A “lista” (enumeração) é a chave, não a “comida” (tema).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto amontoa substantivos e ações numa sequência rápida e cortada por vírgulas, imitando a estrutura de uma lista de conferência.
- Expectativa: A alternativa correta deve conter a palavra “enumeração”, “listagem” ou “sequência”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) enumeração de objetos e fatos.
- Análise de Correspondência: Perfeito. “Enumeração” é o nome técnico para “fazer uma lista”. O texto lista objetos (“caixão”, “veludo”) e fatos (“fechar do caixão”, “rodar do coche”). Isso cria a forma de inventário.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) predominância de linguagem objetiva.
- Diagnóstico do Erro: Imprecisão Descritiva.
- Narrativa do Erro: O texto é objetivo? Sim. Mas um texto jornalístico também é objetivo e não parece um inventário. O inventário exige a estrutura de lista, não apenas a objetividade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) ocorrência de período longo no trecho.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Causa.
- Narrativa do Erro: O texto é, de fato, um único período longo. Mas o que dá a sensação de inventário não é o comprimento, e sim o que está dentro dele: a sucessão de itens (enumeração). Um período longo poderia ser uma argumentação filosófica complexa, sem ser um inventário.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) combinação de verbos no presente e no pretérito.
- Diagnóstico do Erro: Irrelevância.
- Narrativa do Erro: A mistura de tempos verbais (veio/tomam) cria dinamismo, mas não cria a estrutura de lista. Inventários podem ser feitos sem verbos ou apenas com substantivos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) presença de léxico do campo semântico de funerais.
- Diagnóstico do Erro: Confusão entre Tema e Forma.
- Narrativa do Erro: Ter palavras de funeral faz o texto ser sobre um enterro. Ter essas palavras dispostas em sequência faz o texto ser um inventário. A questão pede o recurso estrutural (forma), não o temático (conteúdo).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Machado de Assis não narra a morte, ele a cataloga: ao usar a enumeração (Alternativa A), ele transforma a dor e o luto em meros itens de uma lista burocrática, reforçando o pessimismo e a frieza de Brás Cubas diante da vida e da morte.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
O texto não é um filme, é uma planilha de Excel: Item 1 (Lágrimas), Item 2 (Caixão), Item 3 (Padre).
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este recurso da “enumeração caótica” ou “acumulação” é muito usado na literatura moderna para mostrar a confusão da vida urbana ou o excesso de informações. O poeta Walt Whitman (EUA) e Mário de Andrade (Brasil) usavam listas gigantescas em seus poemas para tentar “abraçar o mundo todo” em um verso.