Piquititim
Se eu fosse um passarin
Destes bem avoado
Destes bem piquititim
Assim que nem beija-flor
Avoava do gaim e assentava sem assombro
Nas grimpinha do seu ombro
Mode beijá seus beicim
E se ocê deixasse as veiz
Com um fio do seu cabelim
No prazo de quaiz um mês
Eu fazia nosso nin
Aí sei que dessa veiz
Em poquim tempo dispôiz
Nóis largava de ser dois
Pra ser quatro, cinco ou seis
CARNEIRO, H.; MORAIS, J. E. Disponível em: www.palcomp3.com.br. Acesso em: 3 jul. 2019.
A estratégia linguística predominante na configuração regional da linguagem representada na letra de canção é o(a)
A) ausência da marca de concordância nominal.
B) redução da sílaba final de determinadas palavras.
C) emprego de vocabulário característico da fauna brasileira.
D) uso da regra variável de concordância verbal.
E) supressão do R na sílaba final dos vocábulos.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Variação Linguística (Regionalismo/Diatópica).
- Fonética e Fonologia (Processos de mudança sonora).
- Oralidade vs. Escrita.
Tema/Objetivo Geral:
Identificar marcas da oralidade e do regionalismo (especificamente o dialeto caipira ou mineiro) na escrita literária, reconhecendo processos fonéticos como a apócope (supressão de fonemas finais).
Nível da Questão
Médio.
Por que? Embora o texto seja fácil de ler, a questão exige que o aluno diferencie fenômenos gramaticais (concordância) de fenômenos fonéticos (redução). O texto apresenta vários desvios da norma culta (concordância, supressão de R, redução), e o aluno precisa identificar qual é o predominante e estrutural para a rima da canção.
Gabarito
Alternativa B.
A alma da canção e sua estrutura de rimas dependem inteiramente da redução das palavras (Passarinho ➝ Passarin; Ninho ➝ Nin). Esse fenômeno fonético é a “assinatura” visual e sonora do texto.
📖 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
O enunciado pede a “estratégia linguística predominante“. Isso significa que podem existir vários “erros” ou variações no texto, mas um deles é o chefe, o mais importante, aquele que dá a “cara” e o “ritmo” da música.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você está desenhando uma caricatura de um personagem caipira. Você pode colocar um chapéu de palha (concordância) e uma botina (supressão do R), mas o que realmente define o desenho é o traço do rosto (a redução das palavras).
A questão pergunta: “Qual é o traço principal que faz esse texto parecer regional?”.
Olhe para as rimas: Passarin / Piquititim / Beicim / Cabelim / Nin.
Se você tirar esse efeito, a música acaba.
Plano de Ataque:
- Escanear o Texto: Identificar todas as palavras que fogem da norma culta.
- Agrupar os Fenômenos: O que é erro de plural? O que é corte de letra?
- Identificar o Padrão Mestre: Qual fenômeno acontece mais vezes e sustenta a estrutura da poesia (as rimas)?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos classificar as “pistas” deixadas pelo autor na cena do crime linguístico:
📁 DOSSIÊ: O DIALETO CAIPIRA/MINEIRO
| Fenômeno | O que é? | Exemplos no Texto |
| Apócope / Redução | Engolir o final da palavra, especialmente em diminutivos. | Passarin (Passarinho), Beicim (Beicinho), Nin (Ninho). |
| Supressão do R | Não pronunciar o R final dos verbos. | Beijá (Beijar), Avoá (Avoar/Voar – implícito). |
| Desvio de Concordância | Não colocar o plural no substantivo ou verbo. | Nas grimpinha (Nas grimpinhas), Nóis largava (Nós largávamos). |
| Rotacismo | Trocar L por R (comum no caipira, mas ausente aqui). | (Não aparece explicitamente como “Arto” em vez de “Alto”). |
Conceito Chave:
A Redução (-inho ➝ -im) não é apenas um “erro”, é uma marca de identidade cultural e, neste texto, é um recurso estético. O autor usa essa redução para criar as rimas. Sem a redução, “Passarinho” não rima com “Assim”.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Investigação Textual:
Vamos ler o poema em voz alta (mentalmente).
“Se eu fosse um passarin… piquititim… beicim… cabelim… nin… poquim…”
Percebeu a repetição musical?
O texto é construído em cima do som /im/.
Para conseguir esse som, o autor precisou pegar palavras que terminam em -inho (norma culta) e cortar a sílaba final, transformando em -in (norma regional).
Análise da Predominância:
Existem erros de concordância? Sim (“Nas grimpinha”).
Existe supressão de R? Sim (“Beijá”).
Mas a redução da sílaba final (especialmente dos diminutivos) aparece em quase todos os versos e é responsável pela sonoridade da canção. É a estratégia central.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! (A Caça aos Erros) 🚨
O aluno vê “Nóis largava” lá no final e corre para marcar “Concordância Verbal” (D). Ou vê “Nas grimpinha” e marca “Concordância Nominal” (A).
CUIDADO! O enunciado pede a estratégia predominante na configuração. Os problemas de concordância são pontuais (aparecem 1 ou 2 vezes). A redução da sílaba aparece mais de 6 vezes e define o estilo do poema inteiro. Não olhe para o detalhe, olhe para o todo.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese: A transformação de palavras proparoxítonas ou terminadas em “-inho” em palavras mais curtas (“im”) é o motor do poema.
- Expectativa: Uma alternativa que fale sobre cortar, reduzir ou suprimir o final das palavras.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) ausência da marca de concordância nominal.
- Diagnóstico do Erro: Foco no Detalhe. Ocorre em “Nas grimpinha” (deveria ser grimpinhas). Mas é um caso isolado comparado à quantidade de reduções fonéticas. Não é o traço “predominante” que configura o estilo do poema.
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Ocorre, mas não é a predominante).
- B) redução da sílaba final de determinadas palavras.
- Análise: Perfeita.
- Passarin(ho), piquititim(nho), beicim(nho), cabelim(nho), nin(ho), poquim(nho).
- Essa redução sistemática é o que dá o “sotaque” ao texto e viabiliza as rimas com “assim” e “mim”. É a estratégia estrutural da canção.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- C) emprego de vocabulário característico da fauna brasileira.
- Diagnóstico do Erro: Distrator Temático. “Beija-flor” e “Passarinho” são fauna, sim. Mas usar nomes de animais não é uma “estratégia linguística regional”. Um cientista na USP fala “beija-flor” e um sertanejo também. O que marca o regionalismo é a forma da palavra (passarin), não o animal em si.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) uso da regra variável de concordância verbal.
- Diagnóstico do Erro: Foco no Detalhe. Ocorre em “Nóis largava” (Nós largávamos). Assim como a alternativa A, é um fenômeno presente, mas aparece apenas nos últimos versos, não sendo a estratégia dominante que configura todo o poema.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) supressão do R na sílaba final dos vocábulos.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Fenômeno. A supressão do R ocorre em “beijá”. Porém, nas palavras principais (passarin, beicim, nin), o que sumiu não foi o R, foi a sílaba inteira “ho” ou “nho”. Dizer que é apenas supressão do R não explica “Passarinho” virar “Passarin”.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Na música popular, cortar o final das palavras não é preguiça, é economia linguística e recurso rítmico: o “mineirês” transforma o “inho” em “im” para fazer a poesia caber no compasso do violão.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
✂️ A Tesoura do Caipira: O dialeto corta o rabo das palavras. Onde tem “inho”, a tesoura passa e deixa só o “im”.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse fenômeno (apócope/redução) não é exclusivo do “caipira”. No inglês falado rápido, “Going to” vira “Gonna”. No português coloquial urbano, “Você” virou “Cê”, “Está” virou “Tá”. A língua sempre tende ao menor esforço (Lei do Menor Esforço Articulatório). O Modernismo (1922) usou muito isso para tentar criar uma “Língua Brasileira” literária, separada de Portugal.