Vaca Estrela e Boi Fubá
Seu doutô, me dê licença
Pra minha história contar
Hoje eu tô em terra estranha
É bem triste o meu penar
Eu já fui muito feliz
Vivendo no meu lugar
Eu tinha cavalo bão
Gostava de campear
Todo dia eu aboiava
Na porteira do currá
[…]
Eu sou fio do Nordeste
Não nego meu naturá
Mas uma seca medonha
Me tangeu de lá pra cá
PATATIVA DO ASSARÉ. Intérpretes: PENA BRANCA; XAVANTINHO; TEIXEIRA, R. Ao vivo em Tatuí. Rio de Janeiro: Kuarup Discos, 1992 (fragmento).
Considerando-se o registro linguístico apresentado, a letra dessa canção
A) exalta uma forma específica de dizer.
B) utiliza elementos pouco usuais na língua.
C) influencia a maneira de falar do povo brasileiro.
D) discute a diversidade lexical de um dado grupo social.
E) integra o patrimônio linguístico do português brasileiro.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Variação Linguística (Regionalismos e Dialetos).
- Sociolinguística (Preconceito Linguístico vs. Patrimônio Cultural).
- Interpretação de Texto (Análise de Registro).
Tema/Objetivo Geral:
Reconhecer as variedades regionais e populares não como “erros”, mas como manifestações legítimas que compõem a identidade e a riqueza cultural (patrimônio) da língua portuguesa.
Nível da Questão:
Médio.
Por que? O aluno precisa superar a visão normativa da gramática (que diria que “doutô” está errado) para adotar a visão sociolinguística (que diz que “doutô” é uma marca de identidade cultural válida). Requer sensibilidade para entender a língua como cultura.
Gabarito:
Alternativa E.
Essa alternativa é a correta pois reconhece que o modo de falar do sertanejo (o dialeto caipira/sertanejo), com suas marcas fonéticas e lexicais, é uma parte fundamental da história e da identidade do Brasil, sendo, portanto, um patrimônio a ser preservado.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A questão nos apresenta um poema do lendário Patativa do Assaré. O texto está escrito imitando a fala oral do sertanejo nordestino.
O comando pergunta: O que esse tipo de linguagem (registro linguístico) representa para a língua portuguesa?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine a Língua Portuguesa como um grande Museu Nacional.
- Na sala principal, temos a “Norma Culta” (o terno e gravata).
- A questão quer saber o que fazemos com a fala do Patativa (“doutô”, “bão”). Jogamos no lixo? Ou colocamos em uma vitrine especial chamada “Cultura Popular”?
- O verdadeiro desafio aqui é: Entender que a fala popular não é “sujeira”, é “relíquia”. É patrimônio.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Analisar as marcas de oralidade no texto (trocas de letras, cortes de palavras).
- Entender quem é o eu-lírico (o sertanejo migrante).
- Conectar essa linguagem ao conceito de identidade nacional.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar a Lente da Sociolinguística.
A gramática tradicional busca o “certo e errado”. A sociolinguística busca o “adequado e identitário”.
Dossiê: As Marcas do Dialeto Caipira/Sertanejo
Observe os fenômenos linguísticos presentes no texto, que são regras desse dialeto, não erros aleatórios:
- Rotacismo: Troca do “L” pelo “R” (ex: “fio” em vez de filho – variação comum, ou “pranta” em vez de planta). No texto temos a redução de ditongos e supressão de finais.
- Apócope (Corte final): “Doutor” vira “Doutô”; “Curral” vira “Currá”; “Natural” vira “Naturá”.
- Concordância simplificada: O foco é na comunicação e na sonoridade da rima.
Essas marcas funcionam como um RG Cultural. Quando você lê “Eu sou fio do Nordeste”, você sabe imediatamente de onde essa pessoa vem e qual é sua história. Isso transforma a língua em um monumento de identidade.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos ler o texto ouvindo a voz do narrador:
“Seu doutô, me dê licença / Pra minha história contar”
Ele está falando com alguém socialmente “superior” (Doutor), mas mantém sua identidade linguística. Ele não tenta imitar o doutor.
“Eu sou fio do Nordeste / Não nego meu naturá”
Aqui está a chave! Ele tem orgulho de sua origem. A língua dele (“fio”, “naturá”) é a prova viva dessa origem.
Se a língua prova quem ele é e conta a história de um povo (os retirantes da seca), então essa língua é um documento histórico. É um bem cultural. É um patrimônio.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a Alternativa A. Muitos alunos pensam: “Ah, ele está exaltando o jeito de falar”. Cuidado. O eu-lírico está exaltando sua terra e sua história usando o jeito de falar, mas o objetivo do poema não é fazer uma propaganda gramatical (“veja como meu sotaque é lindo”). O objetivo é contar a dor da seca. A linguagem é o veículo que, por existir e resistir, se torna patrimônio (Alternativa E).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto usa a variação regional para marcar identidade. A identidade de um povo expressa na língua é o que chamamos de patrimônio imaterial.
- Expectativa: A alternativa deve validar essa linguagem como parte integrante e valiosa da cultura brasileira.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos dissecar as opções:
(A) exalta uma forma específica de dizer.
O texto não é um poema sobre a linguagem (metalinguagem de exaltação). É um poema sobre a dor e a saudade, escrito numa linguagem específica. O foco temático é a vida do retirante, não a “exaltação da gramática torta”.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(B) utiliza elementos pouco usuais na língua.
Esses elementos (“tô”, “bão”, “pra”) são extremamente usuais na fala cotidiana de milhões de brasileiros, tanto no campo quanto na cidade (em situações informais). Dizer que é “pouco usual” é desconhecer a realidade linguística do Brasil.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(C) influencia a maneira de falar do povo brasileiro.
A relação é inversa: o poema reflete como o povo fala, e não o povo que passa a falar assim por causa da música. A arte imita a vida aqui.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(D) discute a diversidade lexical de um dado grupo social.
O texto não é um debate ou uma discussão teórica sobre léxico (vocabulário). Ele é uma obra de arte que usa o léxico, mas não discute sobre ele. Quem discute isso são os linguistas ou a própria questão de prova.
Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
(E) integra o patrimônio linguístico do português brasileiro.
Perfeito. Ao registrar a fala de um grupo social (sertanejos), a música documenta a cultura, a história e a identidade desse grupo. Assim como o Frevo ou a Capoeira são patrimônio cultural, o “falar sertanejo” é patrimônio linguístico. Ele pertence à riqueza do idioma nacional.
Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa (E) reconhece que a Língua Portuguesa não é apenas a gramática normativa dos livros, mas também a língua viva, suada e cantada pelo povo, tornando-se um bem cultural inestimável.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
💡 A língua não é só o terno do “Doutô”, é também o gibão de couro do Vaqueiro. Ambos são Brasil.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com História e Geografia: O êxodo rural (mencionado no texto como “tangeu de lá pra cá”) levou esse dialeto nordestino para o Sudeste (São Paulo/Rio), ajudando a formar a identidade urbana dessas metrópoles. A construção de Brasília, feita pelos “Candangos”, também foi erguda ao som desse sotaque. A língua viaja com o povo.