A urbanização brasileira, no início da segunda metade do século XX, promoveu uma radical alteração nas cidades. Ruas foram alargadas, túneis e viadutos foram construídos. O bonde foi a primeira vítima fatal. O destino do sistema ferroviário não foi muito diferente. O transporte coletivo saiu definitivamente dos trilhos.
JANOT, L. F. A caminho de Guaratiba. Disponível em: www.iab.org.br. Acesso em: 9 jan. 2014 (adaptado).
A relação entre transportes e urbanização é explicada, no texto, pela
A) retirada dos investimentos estatais aplicados em transporte de massa.
B) demanda por transporte individual ocasionada pela expansão da mancha urbana.
C) presença hegemônica do transporte alternativo localizado nas periferias das cidades.
D) aglomeração do espaço urbano metropolitano impedindo a construção do transporte metroviário.
E) predominância do transporte rodoviário associado à penetração das multinacionais automobilísticas.

Resolução em texto
Matérias Necessárias:
- Geografia Urbana (Urbanização e Mobilidade)
- História do Transporte no Brasil (Década de 1950 em diante)
- Relações entre Indústria Automobilística e Planejamento Urbano
Nível da Questão: Médio
Gabarito: E
Objetivo Geral: Demonstrar que a urbanização acelerada do Brasil, a partir de meados do século XX, foi acompanhada pela hegemonia do transporte rodoviário impulsionado pelas montadoras automobilísticas.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 📌 Transcrição Essencial
“A urbanização brasileira, no início da segunda metade do século XX, promoveu uma radical alteração nas cidades. Ruas foram alargadas, túneis e viadutos foram construídos. O bonde foi a primeira vítima fatal. O destino do sistema ferroviário não foi muito diferente. O transporte coletivo saiu definitivamente dos trilhos.”
1.2 📌 O que está sendo pedido?
Identificar em qual fator histórico‐econômico se baseia a relação entre a urbanização e a substituição do transporte sobre trilhos pelo transporte rodoviário.
1.3 📌 Objetivo Cristalino
Mostrar que, nesse período, a predominância do transporte rodoviário está ligada ao forte investimento e influência das multinacionais automobilísticas no país, que pediram e receberam infraestrutura rodoviária (vias largas, viadutos) em detrimento dos sistemas sobre trilhos.
1.4 ✔ Pergunta de Atenção
Você lembra que, a partir do Plano de Metas de JK, o Brasil virou um “país‐carro-dependente” e as indústrias automobilísticas convenceram o governo a investir em estradas e viadutos, em vez de metrôs ou trens?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 📌 Definições e Fórmulas
- Urbanização acelerada (década de 1950): crescimento rápido das cidades brasileiras, principalmente em torno de grandes centros, com migração interna do campo.
- Transporte Rodoviário: sistema baseado em ônibus e automóveis, usando as rodovias e avenidas.
- Transporte sobre trilhos: inclui bonde, trem urbano e trens de subúrbio. Historicamente foi o principal transporte coletivo antes de ser suprimido.
- Multinacionais Automobilísticas: Empresas estrangeiras que instalavam fábricas de automóveis e caminhões no Brasil, incentivadas pelo governo.
- Plano de Metas (1956–1961): programa do governo Juscelino Kubitschek que priorizou, entre outros pontos, a indústria automobilística e a construção de rodovias.
2.2 ❓✔ Armadilha Clássica
- Confundir “retirada de investimentos estatais” (A) com a simples escolha de desviar dinheiro: o texto não fala de cortes, mas de substituição intencional de infraestrutura sobre trilhos pela rodovia, influenciada pela indústria de automóveis.
- Evitar achar que a demanda espacial isoladamente (B) teria matado o bonde: embora a expansão urbana aumente a necessidade de transporte, o texto enfatiza que foram as ruas alargadas e os viadutos—projetados para carros—que praticamente eliminaram o bonde e a ferrovia.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
3.1 📌 Contextualização Simplificada
No Brasil dos anos 1950–1960, cidades cresceram tanto e tão rapidamente que as antigas linhas de bonde e trem urbano passaram a ser vistas como obstáculos. Construíram‐se grandes avenidas, túneis e viadutos, todos pensados para automóveis e ônibus. As empresas automobilísticas, inclusive as multinacionais que montaram fábricas no país, pressionaram para que o governo priorizasse estradas. Assim, a ferrovia urbana e os bondes foram progressivamente abandonados.
3.2 📌 Estratégia Geral
- Identificar que a urbanização rápida provocou demanda por grandes vias, mas a mudança de prioridade só ocorreu porque as montadoras automobilísticas queriam expandir as vendas de carros e ônibus.
- Reconhecer que essa influência resultou em uma predominância do transporte rodoviário, explicando o sumiço do bonde e do trem.
- Confrontar cada alternativa para ver qual menciona esse vínculo entre indústria automobilística e planejamento urbano.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
4.1 📌 Passo a Passo Detalhado
- Crescimento urbano e necessidade de vias maiores
- Com grande migração ao centro urbano, as ruas antes projetadas para bondes ficaram congestionadas. Foi preciso alargar avenidas e construir viadutos para suportar mais tráfego.
- Investimento estatal direcionado
- O governo JK concedeu incentivos fiscais para multinacionais de automóveis (Fiat, Ford, General Motors). Essas empresas exigiam rodovias e fábricas próximas às cidades.
- Pressão das montadoras
- As multinacionais pressionaram para que a capital e governos estaduais fechassem linhas de bonde e reduzissem infraestrutura ferroviária suburbana, alegando que “o futuro era o carro”.
- Consequência: transporte coletivo saiu dos trilhos
- Linhas de bonde foram desativadas e trilhos urbanos abandonados. O transporte coletivo concentrou‐se em ônibus urbanos, micro‐ônibus e carros particulares.
- Interpretação do texto
- Quando Janot fala que “o bonde foi a primeira vítima fatal” e “o transporte coletivo saiu definitivamente dos trilhos”, está apontando para as ruas alargadas e viadutos: infraestrutura feita sob medida para o automóvel.
- Essa lógica só é possível porque “houve predominância do transporte rodoviário associado à penetração das multinacionais automobilísticas” — as empresas de carro bancaram e orientaram obras para garantir espaço para veículos.
4.2 📌 Verificação Intermediária
- Confirme que as outras alternativas não referem a esse elo entre as multinacionais automobilísticas e a derrubada do bonde.
- Lembre‐se de que “demanda por transporte individual” (B) existe, mas só cresceu porque as cidades passaram a investir em rodovia. A causa principal foi o estímulo direto ao setor automotivo, não apenas o crescimento urbano.
Passo 5: Análise das Alternativas
5.1 Listagem das Alternativas
A) retirada dos investimentos estatais aplicados em transporte de massa.
B) demanda por transporte individual ocasionada pela expansão da mancha urbana.
C) presença hegemônica do transporte alternativo localizado nas periferias das cidades.
D) aglomeração do espaço urbano metropolitano impedindo a construção do transporte metroviário.
E) predominância do transporte rodoviário associado à penetração das multinacionais automobilísticas.
5.2 Justificativa Individual
- A) ❌
– Não ocorreu mero “corte” nos investimentos em bondes ou trens. O Estado investiu, sim, na construção de avenidas e viadutos, mas sob a influência das empresas de automóveis, não simplesmente para poupar dinheiro. - B) ❌
– Embora a expansão urbana estimule maior uso de carros, o texto enfatiza que foram as multinacionais automobilísticas que influenciaram a substituição do bonde pelo ônibus e carro, não somente o aumento da área urbana. - C) ❌
– “Transporte alternativo” (mototáxi, kombis) nas periferias não foi o fator que “matou” o bonde; o texto atribui a mudança às obras de alargamento de ruas e viadutos, voltados para o rodoviarismo oficial. - D) ❌
– Não se trata de impedimento para metrô (que só viria muito depois) mas sim de priorizar ônibus e automóveis. O texto não menciona a construção de metrô, e sim a eliminação do bonde. - E) ✅
– Corresponde ao cerne do enunciado: a indústria automobilística (sobretudo as multinacionais) ganhou força e garantiu investimento em rodovia, fazendo o bonde (transporte sobre trilho) ser abandonado em favor do transporte rodoviário.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 📌 Resumo do Raciocínio
A urbanização rápida foi acompanhada de um projeto viário orientado pelas montadoras de automóveis, que pressionaram por ruas largas e viadutos. Isso deslocou o transporte coletivo para ônibus e automóveis, deixando o bonde e a ferrovia obsoletos.
6.2 📌 Gabarito Reafirmado
Alternativa correta: E) predominância do transporte rodoviário associado à penetração das multinacionais automobilísticas.
6.3 🔍 Resumo Final para Revisão
Lembre-se: no Brasil dos anos 1950, a decisão de priorizar avenidas e viadutos foi fortemente influenciada por multinacionais de automóveis. Quando você vir que “o bonde foi a primeira vítima fatal”, saiba que isso reflete os interesses automobilísticos que orientaram o planejamento urbano em favor do rodoviário.