— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar num troço chamado autoridades constituídas? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada Exército Brasileiro, que o senhor tem de respeitar? Que negócio é esse? […] Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: “dura lex”! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. […]
Foi então que a mulher do vizinho do General interveio:
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a, espantado com o atrevimento.
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos importunando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve força para engolir em seco e balbuciar humildemente:
— Da ativa, minha senhora?
SABINO, F. A mulher do vizinho. In: Os melhores contos. Rio de Janeiro: Record, 1986.
A representação do discurso intimidador engendrada no fragmento é responsável por
A) ironizar atitudes e ideias xenofóbicas.
B) conferir à narrativa um tom anedótico.
C) dissimular o ponto de vista do narrador.
D) acentuar a hostilidade das personagens.
E) exaltar relações de poder estereotipadas.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Narrativo (Conto)
- Análise do Discurso e Relações de Poder
- Identificação de Recursos de Humor (Ironia, Sátira, Anedota)
Tema/Objetivo Geral: Analisar como a construção de um diálogo, através de uma inversão de poder, pode gerar um efeito de humor e crítica social.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige que o leitor perceba a virada cômica no final do texto. As alternativas (A) e (D) descrevem elementos que de fato existem na narrativa (xenofobia, hostilidade), mas são a isca. A dificuldade está em entender que esses elementos sérios são usados como matéria-prima para construir uma cena com um desfecho humorístico, quase uma piada.
Gabarito: B) conferir à narrativa um tom anedótico.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a estrutura da narrativa (um confronto que escala e termina com uma reviravolta inesperada e cômica) é a de uma anedota, uma pequena história engraçada que ilustra um ponto sobre o comportamento humano.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão nos pergunta qual é o efeito final criado pela forma como os personagens se intimidam. A história nos deixa com raiva? Com medo? Ou com um sorriso no rosto diante do ridículo da situação?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na cena como uma briga de cães. Primeiro, um vira-lata grande (o delegado) late alto, mostra os dentes e tenta intimidar um cão menor e quieto (o “gringo”). De repente, aparece a dona do cão menor, que na verdade é uma leoa (a esposa). Ela não late, apenas ruge, e o vira-lata grande sai com o rabo entre as pernas. O verdadeiro desafio aqui é entender que a história não é sobre a ferocidade da briga, mas sobre o final cômico e inesperado em que o valentão se dá mal. A cena vira uma piada, uma anedota.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a Intimidação 1.0: Vamos decodificar as armas usadas pelo delegado.
- Analisar a Intimidação 2.0: Vamos periciar as armas, muito mais poderosas, usadas pela esposa.
- Avaliar o Nocaute: Entenderemos como a reviravolta súbita transforma a tragédia potencial em comédia.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma da Inversão de Poder, que mostra a ascensão e a queda vertiginosa do status na cena.
[ESTÁGIO 1: O PODER DO DELEGADO 🔼]
- Armas: Ameaça de prisão (“vai tudo em cana”), autoridade institucional (“delegado”), xenofobia (“gringo”), patriotismo agressivo (“Exército Brasileiro”), jargão legal (“dura lex”).
- Status: Ele se sente o dono da situação.
⬇️
[ESTÁGIO 2: A INTERVENÇÃO (O PONTO DE VIRADA)]
- A mulher intervém, quebrando o monólogo do delegado.
- Status: O equilíbrio começa a mudar.
⬇️
[ESTÁGIO 3: O PODER DA ESPOSA ⏫]
- Armas: Ela usa a mesma lógica do delegado, mas com munição de calibre muito maior. Ela não apela à lei, mas à rede de contatos, a famosa “carteirada”.
- Delegado apela ao “Exército” -> Ela apela a um Major, um Coronel e um GENERAL!
- Status: O poder se inverte completamente.
⬇️
[ESTÁGIO 4: O COLAPSO DO DELEGADO 🔽]
- A “Punchline”: O delegado, “estarrecido”, não questiona a lógica dela. Ele a aceita e, humildemente, pergunta sobre o status do General: “Da ativa, minha senhora?”.
- Status: O valentão virou um subordinado medroso.
CONCLUSÃO DO FLUXOGRAMA: A estrutura de preparação -> inversão -> desfecho cômico é a anatomia de uma anedota.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A narrativa começa tensa. O discurso do delegado é um manual de autoritarismo e preconceito. Ele se sente poderoso por sua posição e por representar as “autoridades constituídas”. A hostilidade é palpável.
A virada é espetacular. A mulher não se defende com a lei ou com argumentos morais. Ela joga o mesmo jogo sujo do delegado, mas o faz com uma maestria que o humilha. Ela não diz “o senhor não tem o direito de falar assim”; ela diz “o meu poder é maior que o seu”.
O clímax é a pergunta do delegado. “Da ativa, minha senhora?”. Essa frase é a confissão de sua derrota. É o momento em que a tensão se desfaz em humor. O leitor não termina a história com raiva, mas rindo do quão rápido o poder do delegado evaporou. A história se revela uma piada sobre a “malandragem” das relações de poder no Brasil.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui são as alternativas (A) e (D). É inegável que o texto ironiza a xenofobia e que há hostilidade. Mas a questão pergunta pelo efeito geral que o discurso cria na narrativa. A xenofobia e a hostilidade são o tema e a tensão inicial. O resultado final, o tom da história como um todo, é cômico. A armadilha é analisar os ingredientes e esquecer o sabor do prato final. O prato final é uma comédia de costumes.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A força da narrativa não está na seriedade da intimidação, mas na forma como essa seriedade é subvertida e ridicularizada pela reviravolta final, transformando um confronto em uma história engraçada com uma moral.
- Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa qualidade de “história curta e engraçada”, ou seja, de anedota.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) ironizar atitudes e ideias xenofóbicas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no conteúdo do discurso do delegado.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a Parte, não o Todo). A ironia à xenofobia é um dos efeitos, mas não o efeito geral da narrativa, que inclui a virada de poder e o desfecho cômico. O tom anedótico é o que produz a ironia de forma eficaz.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) conferir à narrativa um tom anedótico.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A estrutura de setup-punchline, a reviravolta cômica e o objetivo de ilustrar uma fraqueza humana (a arrogância do poder) são as marcas de uma anedota.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) dissimular o ponto de vista do narrador.
- A “Narrativa do Erro”: Uma interpretação equivocada do papel do narrador.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O narrador é bastante objetivo e claro. Ele não dissimula nada; ele apenas nos mostra a cena para que tiremos nossas próprias conclusões.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) acentuar a hostilidade das personagens.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na tensão inicial da cena.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Meio com o Fim. A hostilidade é o meio, a tensão que o autor cria para depois desarmar com o humor. O efeito final não é de acentuação da hostilidade, mas de ridicularização dela.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) exaltar relações de poder estereotipadas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor confunde a representação de um comportamento com a sua aprovação.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Intenção. O conto critica e ridiculariza essas relações de poder, mostrando como são frágeis e absurdas. Ele não as exalta.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois Fernando Sabino, com maestria, transforma uma cena de abuso de poder em uma anedota que expõe o ridículo do autoritarismo.
Resumo-flash (A Imagem Mental): No jogo de poder brasileiro, a carteirada de um general sempre vence a carteirada de um delegado.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A dinâmica da cena é uma ilustração perfeita do conceito de “Homem Cordial” do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, mas em sua faceta negativa. O “Homem Cordial” não é alguém bonzinho, mas alguém que rege suas relações não pela lei impessoal, mas pelas afetividades e laços pessoais. No conto, a lei (“dura lex”) é a primeira coisa a ser abandonada. O que vale é a rede de contatos, o “quem você conhece”. O delegado tenta impor uma autoridade formal, mas é derrotado por uma autoridade informal e pessoal muito superior (ser “filha de um General”). A anedota de Sabino é uma pequena pílula que contém a essência de um traço profundo e complexo da cultura política brasileira.