Eu tenho empresas e sou digno do visto para ir a Nova York. O dinheiro que chove em Nova York é para pessoas com poder de compra. Pessoas que tenham um visto do consulado americano. O dinheiro que chove em Nova York também é para os nova-iorquinos. São milhares de dólares. […] Estou indo para Nova York, onde está chovendo dinheiro. Sou um grande administrador. Sim, está chovendo dinheiro em Nova York. Deu no rádio. Vejo que há pedestres invadindo a via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Vejo que há carros nacionais trafegando pela via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Ao chegar em Nova York, tomarei providências.
SANTANNA, A. O importado vermelho de Noé. In: MORICONI. I. (Org.). Os cem melhores contos. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001.
As repetições e as frases curtas constituem procedimentos linguísticos importantes para a compreensão da temática do texto, pois
A) expressam a futilidade do discurso de poder e de distinção do narrador.
B) disfarçam a falta de densidade das angústias existenciais narradas.
C) ironizam a valorização da cultura norte-americana pelos brasileiros.
D) explicitam a ganância financeira do capitalismo contemporâneo.
E) criticam os estereótipos sociais das visões de mundo elitistas.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto Literário
- Teoria da Literatura (Fluxo de Consciência, Estilo Narrativo)
- Recursos Estilísticos (Repetição, Frases Curtas)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar como os recursos estilísticos (repetição e frases curtas) são utilizados para construir o perfil psicológico de um personagem e expressar a temática da obra.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige que o candidato vá além do o que o narrador diz para analisar o como ele diz. É preciso perceber que a forma repetitiva e fragmentada da escrita não é acidental, mas uma escolha deliberada do autor para caracterizar a mente superficial e obsessiva do personagem.
- Gabarito: A
- A alternativa está correta porque as repetições obsessivas de símbolos de status (“dinheiro em Nova York”, “carro vermelho, importado da Alemanha”) e as frases curtas e afirmativas criam um discurso que gira em círculos, sem profundidade, revelando uma mentalidade vazia e focada apenas na aparência. Essa forma de narrar expressa perfeitamente a futilidade do discurso de poder do personagem.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O narrador deste texto repete as mesmas ideias várias vezes e usa frases curtas. O que essa forma de falar nos revela sobre a personalidade e os valores dele?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você está ouvindo uma pessoa que, em cinco minutos de conversa, diz dez vezes: “Eu tenho um relógio de ouro. Meu relógio de ouro é suíço. As pessoas olham para meu relógio de ouro. Eu vou viajar para um lugar onde todos usam relógios de ouro”. O que as repetições e as frases focadas em um único objeto te dizem sobre essa pessoa? Que a mente dela é como um disco arranhado, presa em uma única ideia, e que seus valores são superficiais e materialistas. A forma como ela fala revela a futilidade de seu pensamento. A questão nos pede para fazer essa mesma análise com o narrador do conto.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar as Pistas Estilísticas: Vamos listar os exemplos de repetições e frases curtas no texto.
- Analisar o Conteúdo das Repetições: O que está sendo repetido?
- Conectar Forma e Conteúdo: Como a forma (repetição, frases curtas) e o conteúdo (dinheiro, carro importado) trabalham juntos para construir o perfil do narrador?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve o efeito dessa combinação.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é construir o perfil do suspeito juntos, analisando seu “depoimento”. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.
- 🕵️♂️ Mentor: “Detetive, vamos analisar o padrão de fala do nosso narrador. A primeira coisa que chama a atenção é a repetição. Quais são as ideias que ele repete de forma quase obsessiva?”
- 🧠 Aluno: “Ele repete duas coisas: ‘está chovendo dinheiro em Nova York’ e ‘o meu carro vermelho, importado da Alemanha’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exato. O que essas duas ideias têm em comum? Elas falam sobre sentimentos, arte, conhecimento?”
- 🧠 Aluno: “Não, de jeito nenhum. Ambas falam sobre riqueza, status e poder de compra. Uma é sobre dinheiro, a outra sobre um bem de luxo que o diferencia dos ‘carros nacionais’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Perfeito. Agora, vamos olhar a forma. Ele usa frases longas e complexas para desenvolver essas ideias?”
- 🧠 Aluno: “Não, o oposto. São frases curtas, diretas e afirmativas: ‘Sou um grande administrador.’, ‘Sim, está chovendo dinheiro…’. É como se ele estivesse recitando um mantra para si mesmo.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Ótima observação! Então, vamos juntar as pistas. Temos um discurso que repete obsessivamente símbolos de status, com frases curtas que não permitem nenhuma reflexão profunda. Que tipo de mentalidade essa forma de falar revela?”
- 🧠 Aluno: “Revela uma mente superficial, vazia de outros interesses. Um pensamento raso, que só se preocupa com a aparência e a distinção social. Revela… futilidade.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Caso encerrado. A técnica do autor foi usar a própria linguagem para construir a futilidade do personagem. É com essa conclusão que vamos analisar os suspeitos.”
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso diálogo já resolveu o caso. A forma como o narrador fala é a própria mensagem.
- As frases curtas não deixam espaço para o desenvolvimento de uma ideia complexa.
- As repetições mostram que não há outras ideias para desenvolver.
- Juntas, elas criam um ritmo quase hipnótico, como um mantra de autoafirmação de alguém profundamente inseguro, que precisa repetir para si mesmo (e para nós) os símbolos de seu sucesso.
O resultado é um discurso que, apesar de falar de “poder”, soa vazio, oco, fútil.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (D), “explicitam a ganância financeira do capitalismo contemporâneo”. Embora o personagem seja ganancioso, o foco do texto não é fazer uma crítica sociológica ampla sobre o “capitalismo”. O foco é muito mais fechado e psicológico: a construção de um personagem específico, a exposição da sua mente. O texto é um “Retrato de homem”, não um “Tratado sobre o Capitalismo”. A alternativa (A) é mais precisa por focar no discurso do narrador.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação do estilo narrativo mostra que a repetição de símbolos de status e o uso de frases curtas constroem um personagem cuja visão de mundo é superficial e obcecada por distinção social.
- Expectativa: A alternativa correta deve conectar os recursos linguísticos (repetição, frases curtas) à futilidade do discurso do personagem.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) expressam a futilidade do discurso de poder e de distinção do narrador.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela conecta perfeitamente a técnica (“repetições e frases curtas”) ao seu efeito: expressar a superficialidade (“futilidade”) do pensamento do narrador, que é todo baseado em “poder e distinção”.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- B) disfarçam a falta de densidade das angústias existenciais narradas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, por trás da superficialidade, há um sofrimento oculto.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Indevida. O texto não narra nenhuma angústia existencial. Pelo contrário, o narrador parece satisfeito em sua bolha de materialismo. As repetições não “disfarçam” a falta de densidade; elas expressam a falta de densidade.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) ironizam a valorização da cultura norte-americana pelos brasileiros.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na obsessão por Nova York e a interpreta como uma crítica nacional.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. Embora a ironia possa estar presente, o alvo principal não é a “valorização da cultura norte-americana” em geral, mas a mentalidade específica deste narrador. Prova disso é que o maior símbolo de status dele é um carro “importado da Alemanha“. A questão é o status, não a nacionalidade.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) explicitam a ganância financeira do capitalismo contemporâneo.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, generalizando a crítica.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. O texto não é um ensaio sobre o capitalismo. É um trecho de um conto focado em construir um personagem. A crítica ao capitalismo é uma consequência, mas o objetivo primeiro e mais direto dos recursos linguísticos é expor a psicologia fútil do narrador.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) criticam os estereótipos sociais das visões de mundo elitistas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato identifica que o narrador é elitista.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. O texto não está “criticando estereótipos”. Ele está construindo um personagem que encarna um estereótipo para, através dele, tecer sua crítica. A função dos recursos linguísticos não é criticar o estereótipo, mas sim dar voz a ele.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta. Este caso é uma aula de como, na literatura moderna, o estilo não é um ornamento, mas uma ferramenta de diagnóstico: a forma como um personagem fala é um raio-X de sua alma.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A mente do narrador é um eco em uma sala vazia, repetindo sempre as mesmas duas palavras: dinheiro e poder.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar a repetição e a linguagem fragmentada para revelar um estado mental é uma técnica central no cinema e no teatro. Pense em um personagem que está tendo um colapso nervoso. O diretor não precisa dizer “ele está em crise”. Em vez disso, o diálogo do personagem se torna repetitivo, ele repete as mesmas frases sem sentido, sua fala é cortada e fragmentada. A forma do discurso quebra antes mesmo que o conteúdo revele a crise. A técnica de Domingos Pellegrini para construir a futilidade de seu narrador é a mesma que um cineasta como Darren Aronofsky usa para construir a obsessão e a paranoia de seus personagens.