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Questão 22, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

E eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa… Nossa!

ANDRADE, C. D. Viola de bolso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952 (fragmento).

Considerando-se a exploração das palavras “maria” e “chuvosíssima” no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)

A) registro social típico de variedades regionais.

B) variante particular presente na oralidade.

C) inovação lexical singularizante da linguagem literária.

D) marca de informalidade característica do texto literário.

E) traço linguístico exclusivo da linguagem poética

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto Poético, Figuras de Linguagem (Neologismo, Metáfora), Funções da Linguagem (Função Poética).

Tema/Objetivo Geral:
Análise da criação de neologismos e do uso conotativo da linguagem como recursos expressivos para a construção do sentido em um texto poético.

Nível da Questão
Médio – A questão exige o reconhecimento de um neologismo (“chuvosíssima”) e a interpretação de um uso metafórico, conectando esses recursos a um conceito mais amplo sobre a natureza da linguagem literária. A dificuldade está em diferenciar as nuances entre as alternativas, que descrevem fenômenos linguísticos próximos.

Gabarito
A alternativa E está correta. A criação de palavras e o uso de termos de forma inusitada são características marcantes da linguagem poética, que se distingue da linguagem cotidiana por sua liberdade e foco na expressividade.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Considerando-se a exploração das palavras ‘maria’ e ‘chuvosíssima’ no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)”

O que está sendo pedido?
A questão pede para a gente classificar o tipo de recurso de linguagem que o poeta utiliza ao brincar com as palavras “maria” e, principalmente, ao criar a palavra “chuvosíssima”.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é identificar o que representa esse ato de “inventar” uma palavra e de usar outra de forma metafórica, e em qual domínio da linguagem esse tipo de liberdade criativa é mais característico.

Pergunta de Atenção
A palavra “chuvosíssima” existe no dicionário? Se não, por que um poeta tem a “licença” para inventar palavras e o que isso nos diz sobre a linguagem da poesia?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para entender o que Drummond fez, precisamos de alguns conceitos sobre a criatividade na língua.

Conceito Definição Simplificada Exemplo do Cotidiano
Linguagem Poética É o uso da linguagem com foco na sua forma, na sua expressividade e na sua capacidade de sugerir múltiplos sentidos. A linguagem poética tem mais liberdade para quebrar regras gramaticais, criar palavras e usar metáforas do que a linguagem do dia a dia. Enquanto a linguagem de uma notícia de jornal busca ser objetiva, a de um poema ou letra de música busca ser subjetiva, sonora e rica em imagens.
Neologismo É a criação de uma palavra nova, que não existe (ou não existia) no vocabulário padrão da língua. Poetas e escritores frequentemente criam neologismos para expressar uma ideia ou sentimento de uma forma única, que nenhuma palavra existente conseguiria capturar. A palavra “deletar” foi um neologismo que veio da informática e hoje faz parte do nosso vocabulário. Em literatura, Guimarães Rosa era um mestre em criar neologismos, como “nonada”.
Linguagem Conotativa vs. Denotativa A linguagem denotativa é o sentido literal, de dicionário, da palavra (Ex: “Coração” é um órgão do corpo). A linguagem conotativa é o sentido figurado, simbólico (Ex: “Você partiu meu coração”). A poesia opera majoritariamente no campo da conotação. O poema usa “chuva” e “maria” de forma conotativa, fundindo a pessoa e o fenômeno natural em uma única metáfora.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
O poeta faz duas coisas muito criativas: primeiro, ele transforma a mulher “maria” na própria chuva (“maria é que chovia”). Depois, para intensificar essa ideia, ele inventa uma palavra: “chuvosíssima”. A questão é: esse tipo de “mágica” com as palavras, essa liberdade de criar e transformar, é característica de que tipo de linguagem?

Estratégia Geral
Vamos analisar os dois usos (“maria” e “chuvosíssima”) separadamente para entender a natureza do recurso. Em seguida, vamos procurar a alternativa que melhor classifica esse tipo de liberdade criativa dentro do universo da língua.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado

  • Análise de “maria”: O poeta não diz que Maria gosta de chuva ou que ela está na chuva. Ele diz que “a chuva era maria” e “maria é que chovia“. Ele funde a identidade da pessoa com a do fenômeno natural. Trata-se de um uso altamente metafórico e conotativo, que foge da lógica da linguagem cotidiana.
  • Análise de “chuvosíssima”: Esta palavra é a chave da questão. Ela é um neologismo. O poeta pega o adjetivo “chuvoso” e aplica o sufixo superlativo “-íssima”. O objetivo é intensificar a qualidade de Maria ser “chuva” ao máximo, de uma forma original e sonora que a expressão comum “muito chuvosa” não conseguiria.
  • Síntese do Recurso: O que esses dois usos têm em comum? Ambos demonstram uma manipulação criativa e intencional da língua com um propósito estético e expressivo. O poeta está quebrando as convenções da linguagem comum (onde pessoas não “chovem” e “chuvosíssima” não existe) para criar um efeito único. Essa liberdade é a essência da linguagem poética.

Verificação Intermediária
O recurso não é um sotaque regional, nem uma gíria da fala, nem um erro. É uma construção deliberada, artística, que explora as potencialidades da língua.

Possível armadilha
A armadilha mais forte é a alternativa C. Ela está parcialmente correta ao identificar o recurso como uma “inovação lexical”. No entanto, a alternativa E é mais abrangente. A criação de neologismos é um exemplo de um “traço linguístico” da poesia, mas a própria metáfora de “Maria chover” também é. A alternativa E, ao falar de um “traço linguístico […] da linguagem poética”, engloba tanto a criação da palavra quanto o seu uso metafórico como características definidoras desse tipo de linguagem.

Fechamento e expectativa
O raciocínio mostra que o fenômeno observado é um exemplo da liberdade e da criatividade que definem a linguagem poética em oposição à linguagem utilitária do dia a dia.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) A: Esta alternativa está incorreta. A palavra “chuvosíssima” não é um regionalismo; é uma criação individual do autor.
  • (🔴) B: Esta alternativa está incorreta. O recurso não é típico da oralidade; pelo contrário, é uma construção literária e elaborada.
  • (🔴) C: Esta alternativa está parcialmente correta, pois “chuvosíssima” é uma inovação lexical. No entanto, a alternativa E é mais completa, pois descreve a natureza geral do fenômeno (a liberdade da linguagem poética) que permite tanto o neologismo quanto o uso metafórico de “maria”.
  • (🔴) D: Esta alternativa está incorreta. A criação de um superlativo como “chuvosíssima” é um recurso mais associado à linguagem formal ou literária do que à informalidade.
  • (🟢) E: Esta alternativa é a correta. A capacidade de criar palavras (neologismo) e de subverter o sentido literal dos termos (metáfora) são traços distintivos e característicos da linguagem poética, que busca a máxima expressividade.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
O poema “Caso pluvioso” explora a linguagem de forma criativa e não convencional. O autor utiliza uma metáfora ao fundir a identidade de “maria” com a “chuva” e cria um neologismo, “chuvosíssima”, para intensificar essa imagem. Esse ato de inventar palavras e subverter seus sentidos literais para atingir um efeito estético e emocional é um traço fundamental e distintivo da linguagem poética.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E.

Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: a poesia tem “licença poética”. Isso significa que o poeta tem a liberdade de quebrar as regras da linguagem comum, criar palavras e usar metáforas ousadas para expressar o inexprimível. Essa liberdade é um traço que define a linguagem poética.

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