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Questão 16, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Devagar, devagarinho

Desacelerar é preciso. Acelerar não é  preciso. Afobados e voltados para o próprio umbigo, operamos, automatizados, falas robóticas e silêncios glaciais. Ilustra bem esse estado de espírito a música Sinal fechado (1969), de Paulinho de Viola. Trata-se da história de dois sujeitos que se encontram inesperadamente em um sinal de trânsito. A conversa entre ambos, porém, se deu rápida e rasteira. Logo, os personagens se despedem, com a promessa de se verem em outra oportunidade. Percebe-se um registro de comunicação vazia e superficial, cuja tônica foi o contato ligeiro e superficial construído pelos interlocutores: “Olá, como vai? / Estou indo, e você, tudo bem? / Tudo bem, eu vou indo correndo, / pegar meu lugar no futuro. E você? / Quanto tempo… / Pois é, quanto tempo… / Me perdoe a pressa / é a alma dos nossos negócios… / Oh! Não tem de quê. / Eu também só ando a cem”.

O culto à velocidade, no contexto apresentado, se coloca como fruto de um imediatismo processual que celebra o alcance dos fins sem dimensionar a qualidade dos meios necessários para atingir determinado propósito. Tal conjuntura favorece a lei do menor esforço – a comodidade – e prejudica a lei do maior esforço – a dignidade.

Como modelo alternativo à cultura fast, temos o movimento slow life, cujo propósito, resumidamente, é conscientizar as pessoas de que a pressa é inimiga da perfeição e do prazer, buscando assim reeducar seus sentidos para desfrutar melhor os sabores da vida.

SILVA, M. F. L. Boletim UFMG, n. 1 749, set. 2011 (adaptado).

Nesse artigo de opinião, a apresentação da letras da canção Sinal Fechado é uma estratégia argumentativa que visa sensibilizar o leitor porque

A) adverte sobre os riscos que o ritmo acelerado da vida oferece.

B) exemplifica o fato criticado no texto com uma situação concreta.

C) contrapõe situações de aceleração e de serenidade na vida das pessoas.

D) questiona o clichê sobre a rapidez e a aceleração da vida moderna

E) apresenta soluções para a cultura da correria que as pessoas vivenciam hoje.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Análise de Estratégias Argumentativas (Uso de Exemplificação)
  • Gêneros Textuais (Artigo de Opinião)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a função de um exemplo (a letra de música) na construção da tese de um texto argumentativo.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão não testa apenas a compreensão do texto, mas a percepção de sua arquitetura. O candidato precisa entender que a letra da música não é um desvio, mas um pilar que sustenta o argumento principal. A dificuldade está em diferenciar a função do exemplo de outras funções, como a de apresentar soluções ou contrapontos.

Gabarito: B) exemplifica o fato criticado no texto com uma situação concreta.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a música não é o argumento em si, mas a ilustração perfeita dele. O autor critica a comunicação “vazia e superficial”, e a letra da canção oferece um diálogo que é a personificação exata dessa crítica.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pergunta: “Qual foi a jogada de mestre do autor ao colocar a letra de ‘Sinal Fechado’ bem no meio do seu texto? O que ele queria conseguir com isso?”.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no autor como um promotor em um julgamento. A tese dele é a acusação: “Senhoras e senhores do júri, a sociedade moderna é culpada de superficialidade!”. Mas palavras são apenas palavras. Para ganhar o caso, ele precisa de provas. A letra da música é a prova do crime: é a gravação de uma câmera de segurança que mostra o crime acontecendo em tempo real. O verdadeiro desafio aqui é entender que a música não é a acusação, é a evidência irrefutável que a torna real.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Identificar a Acusação: Qual é a crítica principal, a tese abstrata do autor?
    2. Analisar a Prova: O que a letra de “Sinal Fechado” mostra em detalhes?
    3. Conectar Acusação e Prova: Entenderemos como a prova (a música) serve para validar e dar força à acusação (a tese).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é um Fluxograma de Raciocínio (em Texto). Ele vai nos ajudar a visualizar como o autor nos guia de uma ideia geral para uma cena específica, a fim de nos convencer.

O Fluxograma do Argumento do Autor:

[TESE ABSTRATA]

  • O autor afirma: “Desacelerar é preciso. […] operamos, automatizados, falas robóticas e silêncios glaciais.”
    • Problema: Esta é uma afirmação geral. O leitor pode pensar: “Será que é pra tanto?”.

➡️ [A TRANSIÇÃO PARA A PROVA]

  • O autor diz: “Ilustra bem esse estado de espírito a música Sinal fechado…”
    • Estratégia: Ele anuncia que vai nos mostrar, e não apenas dizer.

➡️ [A PROVA CONCRETA (O EXEMPLO)]

  • A letra da música é apresentada:
    • “Olá, como vai?”
    • “Tudo bem, eu vou indo correndo…”
    • “Me perdoe a pressa…”
    • “Eu também só ando a cem.”
    • Análise: Um diálogo que é a essência da pressa e da superficialidade. Ninguém fala nada de verdade.

➡️ [A CONCLUSÃO DO AUTOR (A TESE REAFIRMADA)]

  • O autor comenta a prova: “Percebe-se um registro de comunicação vazia e superficial…”
    • Efeito: Agora, a tese inicial não é mais uma abstração. Nós a vimos “acontecer” no diálogo da música. A crítica se torna palpável.

➡️ [A PROPOSTA DE SOLUÇÃO]

  • Como alternativa, o autor apresenta o movimento “slow life”.

Este fluxo mostra que a música é a ponte que transforma uma crítica filosófica em uma experiência relatable.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Seguindo nosso plano, a tese do autor é clara: vivemos no “culto à velocidade”. É uma crítica forte, mas abstrata. Como nos fazer sentir isso?

Aí entra a genialidade de usar a letra de Paulinho da Viola. O diálogo é tão familiar, tão cotidiano, que nos reconhecemos nele. Quem nunca deu uma desculpa apressada para encerrar uma conversa? A música funciona como um espelho. Ao nos mostrar aquela cena, o autor nos faz pensar: “Eu também sou assim”.

É nesse momento que a sensibilização acontece. Não é quando ele nos diz que somos robóticos; é quando ele nos mostra a gravação de nós mesmos agindo como robôs.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é confundir a função da música com a função de outras partes do texto. A alternativa (E), por exemplo, fala em “apresentar soluções”. O texto de fato apresenta uma solução (o movimento slow life), mas quem faz isso é o último parágrafo, não a letra da música! A função específica da música é ilustrar o problema, não apresentar a solução.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a letra da canção não introduz uma nova ideia, não contrapõe argumentos nem oferece soluções. Sua única e poderosa função é pegar a tese abstrata do autor e dar a ela um rosto, uma voz, uma cena – ou seja, um exemplo concreto.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, descrever essa função de ilustrar, demonstrar, concretizar ou exemplificar o argumento principal.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) adverte sobre os riscos que o ritmo acelerado da vida oferece.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa na mensagem geral do texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. O texto inteiro adverte sobre os riscos. A pergunta é sobre a função específica da música dentro dessa advertência. A música não adverte, ela mostra.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) exemplifica o fato criticado no texto com uma situação concreta.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Exemplifica” é a função exata. “O fato criticado” é a superficialidade. “Situação concreta” é o diálogo no sinal de trânsito. A frase descreve a estratégia com precisão cirúrgica.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) contrapõe situações de aceleração e de serenidade na vida das pessoas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor mistura a função da música com a do último parágrafo.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A música apresenta apenas a situação de aceleração. A serenidade (slow life) é apresentada depois, em oposição a tudo que a música representa.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) questiona o clichê sobre a rapidez e a aceleração da vida moderna.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta mal a intenção.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto, e a música como seu exemplo, não questiona o clichê de que a vida é rápida; ele o confirma e o lamenta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) apresenta soluções para a cultura da correria que as pessoas vivenciam hoje.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Problema com a Solução. A música é o diagnóstico da doença; o “slow life” é o remédio. A letra da canção não cumpre essa função.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois o autor usou a música como um espelho, transformando sua crítica de uma acusação distante em um reflexo desconfortável de nós mesmos.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O autor não nos disse que a vida está vazia; ele nos fez escutar o eco.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A estratégia de usar um exemplo concreto para ilustrar um ponto abstrato é um pilar da neurociência da comunicação. Nosso cérebro é programado para prestar mais atenção e criar mais conexões emocionais com histórias e exemplos concretos do que com dados e afirmações abstratas. Ao apresentar a letra da música, o autor move seu argumento da área do cérebro responsável pelo pensamento lógico e abstrato (o córtex pré-frontal) para as áreas ligadas à experiência social e à emoção. Isso torna a mensagem mais memorável e, como a questão aponta, muito mais eficaz em “sensibilizar” o leitor.

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