Questão 14, caderno azul do ENEM 2021 PPL

Sou leitor da revista e, acompanhando a entrevista da juíza Kenarik Boujikian, observo que há uma informação passível de contestação histórica. Na página 14, a meritíssima cita que “tivemos uma lei que proibia a entrada de africanos escravizados no Brasil (Lei Eusébio de Queirós), e sabemos que mais de 500 mil entraram no país mesmo após a promulgação da lei”. Sou professor de História e, apesar de, após a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, africanos escravizados terem entrado clandestinamente no país, o número me parece exagerado. É possível que meio milhão de africanos tenham entrado ilegalmente após uma lei antitráfico de 1831, a Lei Feijó, que exatamente por seu não cumprimento passou a ser no anedotário jurídico chamada de “lei para inglês ver”. Como a afirmação está entre parênteses, me parece ter sido uma nota equivocada do entrevistador, e não da juíza entrevistada. De toda sorte, há a ilegalidade do trânsito de escravizados para o Brasil apesar da existência de uma lei restritiva.

J.C.C.

Cult, n. 229, nov. 2017 (adaptado).

A função social da carta do leitor está contemplada nesse texto porque, em relação a uma publicação em edição anterior de uma revista, ele apresenta um(a)

A) posicionamento relacionado a uma informação contida em uma entrevista.
B) relato de acontecimentos históricos norteadores de uma entrevista.
C) sistematização de dados apresentados em uma entrevista.
D) descrição de uma entrevista.
E) síntese de uma entrevista.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Gêneros Textuais (Carta do Leitor), Funções da Linguagem, Interpretação de Texto, História do Brasil (Leis Abolicionistas).

Tema/Objetivo Geral:
A função social da escrita no ambiente jornalístico. O objetivo é compreender que a Carta do Leitor não serve apenas para elogiar, mas para estabelecer um diálogo crítico, contestando, corrigindo ou ampliando informações veiculadas anteriormente.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Embora o texto seja claro, as alternativas (especialmente a B) contêm “iscas” (palavras como “relato” e “históricos”) que podem confundir o aluno que foca no conteúdo (História) em vez de focar na função do gênero (Posicionamento).

Gabarito:
Letra A.
A alternativa está correta porque a essência da carta é apresentar uma contestação fundamentada (um posicionamento) sobre um dado estatístico específico citado em uma entrevista anterior.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Para que serve essa carta?”. Qual é o papel que esse texto desempenha na sociedade (função social)? O leitor escreveu para contar uma história, para resumir a revista ou para dar sua opinião técnica sobre um erro?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você está assistindo a um vídeo no YouTube sobre futebol. O apresentador diz: “O Brasil ganhou a Copa de 98”.
Você vai aos comentários e escreve: “Opa, sou historiador do futebol. O Brasil perdeu em 98. Ganhou em 94 e 2002. Acho que você confundiu as datas.”
O que você fez? Você fez um posicionamento crítico. Você corrigiu uma informação. A Carta do Leitor é o “avô” da seção de comentários da internet.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Identificar a intenção do autor (J.C.C.): Ele concorda ou discorda?
  2. Analisar o argumento: Ele usa sua autoridade (“sou professor”) para corrigir um dado.
  3. Classificar a ação: Isso é narrar? Resumir? Ou debater/posicionar-se?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a anatomia da Carta do Leitor.

Ficha Técnica: O Gênero Carta do Leitor 📩

Característica Definição
Emissor Um leitor do veículo (jornal/revista).
Receptor Os editores e o público em geral.
Objetivo Interagir com matérias publicadas.
Tipos de Ação Elogiar, Criticar, Sugerir, Corrigir/Contestar.
Natureza Textos Argumentativos e Opinativos.

Diferenciação Importante:

  • Relatar: Contar o que aconteceu (Foco nos fatos).
  • Sintetizar: Resumir o que foi dito (Foco na redução).
  • Posicionar-se: Emitir um juízo de valor ou correção sobre o que foi dito (Foco na opinião/crítica).

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos rastrear a atitude do leitor J.C.C.:

A Identificação:

  • “Sou leitor da revista… Sou professor de História…”
  • Ele estabelece seu lugar de fala e autoridade.

O Conflito:

  • “…observo que há uma informação passível de contestação histórica.”
  • Aqui ele define o jogo: ele não está ali para bater papo, está ali para contestar (discordar/corrigir).

O Argumento:

  • Ele explica a diferença entre a Lei Eusébio de Queirós (1850 – eficaz) e a Lei Feijó (1831 – “pra inglês ver”). Ele argumenta que o número de 500 mil escravizados se refere ao período pós-1831, não pós-1850.

A Conclusão (O Posicionamento):

  • “…me parece ter sido uma nota equivocada do entrevistador…”
  • Ele emite uma opinião sobre a origem do erro.

Síntese: O texto não é uma aula de história gratuita; é uma crítica corretiva a uma publicação anterior.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa B (“relato de acontecimentos históricos”).
O texto contém relatos históricos? Sim.
Mas a função do texto é relatar? Não.
O relato histórico é o argumento que ele usa para sustentar seu posicionamento. Ele usa a História como ferramenta para corrigir a revista. Não confunda o meio (história) com o fim (crítica).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O leitor escreve para apontar um erro e oferecer a versão correta dos fatos, assumindo uma postura ativa e crítica diante do conteúdo consumido.
  • Expectativa: Devemos buscar palavras como “opinião”, “crítica”, “contestação” ou “posicionamento”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) posicionamento relacionado a uma informação contida em uma entrevista.
    • Análise: Perfeita.
      • “Posicionamento” = A contestação do dado histórico.
      • “Informação contida em uma entrevista” = A fala da juíza Kenarik Boujikian.
      • Resume a função social da carta: permitir o contraditório.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • B) relato de acontecimentos históricos norteadores de uma entrevista.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão entre Conteúdo e Função.
    • Análise: O leitor cita fatos históricos, mas a função da carta não é “nortear a entrevista” (a entrevista já aconteceu e já foi publicada). A função é corrigir um ponto específico dela.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) sistematização de dados apresentados em uma entrevista.
    • Diagnóstico do Erro: Distorção da Ação.
    • Análise: Sistematizar é organizar. Ele não está organizando os dados da juíza, ele está refutando um dado específico.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) descrição de uma entrevista.
    • Diagnóstico do Erro: Gênero Errado.
    • Análise: Uma descrição seria apenas contar como foi a entrevista (“A juíza falou sobre X e Y”). A carta vai além: ela julga a validade do que foi dito.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • E) síntese de uma entrevista.
    • Diagnóstico do Erro: Reducionismo.
    • Análise: Síntese é resumo. A carta foca em apenas um parêntese da página 14. Não é um resumo da entrevista toda.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra A, pois a carta do leitor cumpre sua função democrática de abrir espaço para o direito de resposta e a correção colaborativa, manifestando um posicionamento crítico sobre a veracidade de uma informação divulgada pela mídia.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
📢 O Apito do Juiz: O leitor não é o narrador do jogo, ele é o VAR (árbitro de vídeo). Ele parou o jogo para dizer: “Aquele lance ali (o número de escravizados) estava errado”.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O leitor J.C.C. está correto historicamente.

  • Lei Feijó (1831): Proibia o tráfico, mas foi ignorada (“Lei pra inglês ver”). O tráfico explodiu clandestinamente.
  • Lei Eusébio de Queirós (1850): Reprimiu o tráfico de verdade sob ameaça de guerra com a Inglaterra. O tráfico caiu drasticamente após 1850.
    Essa distinção é vital para entender a formação social do Brasil Império.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.