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Questão 135, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 2

Quando se considera a extrema velocidade com que a luz se espalha por todos os lados e que, quando vêm de diferentes lugares, mesmo totalmente opostos, [os raios luminosos] se atravessam uns aos outros sem se atrapalharem, compreende-se que, quando vemos um objeto luminoso, isso não poderia ocorrer pelo transporte de uma matéria que venha do objeto até nós, como uma flecha ou bala atravessa o ar; pois certamente isso repugna bastante a essas duas propriedades da luz, principalmente a última. 

HUYGENS, C. In: MARTINS, R. A. Tratado sobre a luz, de Cristian Huygens. Caderno de História e Filosofia da Ciência, supl. 4, 1986.

 O texto contesta que concepção acerca do comportamento da luz? 

A) O entendimento de que a luz precisa de um meio de propagação, difundido pelos defensores da existência do éter. 

B) O modelo ondulatório para a luz, o qual considera a possibilidade de interferência entre feixes luminosos. 

C) O modelo corpuscular defendido por Newton, que descreve a luz como um feixe de partículas. 

D) A crença na velocidade infinita da luz, defendida pela maioria dos filósofos gregos. 

E) A ideia defendida pelos gregos de que a luz era produzida pelos olhos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História da Física (Teorias da Luz).
  • Óptica (Ondulatória vs. Geométrica).

Tema/Objetivo Geral:

  • Análise de textos históricos científicos para identificar a contraposição entre teorias rivais sobre a natureza da luz (Modelo Corpuscular vs. Modelo Ondulatório).

Nível da Questão: Médio.

  • A questão exige leitura atenta e conhecimento prévio sobre o grande debate da física do século XVII: Newton (partícula) contra Huygens (onda). A dificuldade está em traduzir a linguagem arcaica do texto (“transporte de uma matéria”, “flecha”, “bala”) para o conceito físico correspondente (modelo corpuscular).

Gabarito: C.

  • Huygens argumenta que, se a luz fosse feita de matéria (partículas/corpúsculos), dois feixes de luz colidiriam ao se cruzar, como balas no ar. Como a luz se cruza sem se atrapalhar, ela não pode ser matéria. Isso refuta diretamente o Modelo Corpuscular de Newton.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão nos dá um texto de Christian Huygens, o pai da teoria ondulatória da luz. No texto, ele ataca uma ideia rival. O objetivo é identificar qual teoria Huygens está criticando e tentando destruir com seus argumentos.

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine dois mangueiras de jardim atirando água uma contra a outra. As águas batem e espirram para todo lado (colisão de matéria).
Agora imagine duas pessoas falando ao mesmo tempo. O som da voz de uma atravessa o da outra e chega aos ouvidos de quem está do outro lado sem “bater e cair”.
Huygens diz: “A luz é como o som (onda), não como a água da mangueira (matéria)”. Ele está dizendo que a ideia de que a luz é “água/bala” (matéria) é absurda. A questão quer saber: quem defendia que a luz era “bala”? (Spoiler: Newton).

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar no texto os argumentos de Huygens (luz se cruza sem bater).
  • Identificar a analogia que ele usa para criticar o rival (“flecha”, “bala”, “transporte de matéria”).
  • Associar “flecha/bala” ao Modelo Corpuscular de Newton.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Precisamos conhecer os dois lados do “Ringue da Física” do século XVII.

Tabela Comparativa: O Grande Debate da Luz

Característica Isaac Newton (Modelo Corpuscular) Christian Huygens (Modelo Ondulatório)
O que é a Luz? Um feixe de partículas minúsculas (corpúsculos). Uma onda mecânica (como o som) se propagando no Éter.
Analogia Balas de canhão, pedras, flechas. Ondas na água, som no ar.
Cruzamento Dois feixes deveriam colidir (choque de partículas). Dois feixes se atravessam (interferência/superposição).
Velocidade Mais rápida na água (para explicar refração). Mais lenta na água (correto).

Imagine Dois canhões disparando balas que se chocam no ar e caem 

 Modelo de Newton (Falho no cruzamento).
Dois lagos onde ondas se cruzam e continuam seu caminho

 →

Modelo de Huygens (Sucesso no cruzamento).
(O Teste do Cruzamento): A luz passa direto, logo, é onda.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o argumento de Huygens no texto:

1. A Observação:
Huygens diz: “[os raios luminosos] se atravessam uns aos outros sem se atrapalharem”.
Isso é um fato observável. Se você acender duas lanternas cruzadas, a luz de uma não bate na da outra e cai no chão. Elas seguem reto.

2. A Crítica:
Huygens diz: “isso não poderia ocorrer pelo transporte de uma matéria… como uma flecha ou bala atravessa o ar”.
Aqui ele está atacando a ideia de que a luz tem massa, que é um objeto físico sólido. Flechas e balas colidem. Se a luz não colide, ela não é flecha nem bala.

3. O Alvo do Ataque:
Quem dizia que a luz era feita de “matéria”, “corpúsculos” ou “pequenas balas”?
Isaac Newton.
Portanto, o texto contesta o Modelo Corpuscular.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode confundir “contestar” com “defender”.
Huygens defende o modelo ondulatório (B) e a existência do éter (A). Mas a pergunta é: “O texto CONTESTA que concepção?”.
Se ele defende a onda, ele contesta a partícula. Não marque a teoria que ele apoia, marque a que ele ataca!

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto diz que a luz não pode ser matéria (flecha/bala) porque raios se cruzam sem colidir. Essa ideia de “luz-matéria” é o Modelo Corpuscular.
  • Expectativa: Procuramos a alternativa que cite Newton ou Modelo Corpuscular.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) O entendimento de que a luz precisa de um meio de propagação… (Éter).
    • O Diagnóstico do Erro: Inversão de Autoria.
    • Por que está incorreta: Huygens era o maior defensor do Éter! Como ele achava que a luz era uma onda mecânica (igual ao som), ele precisava de um meio para ela vibrar. Ele não contestaria sua própria base teórica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) O modelo ondulatório para a luz…
    • O Diagnóstico do Erro: Erro de Interpretação (Contestar vs. Defender).
    • Por que está incorreta: O texto defende o modelo ondulatório (indiretamente) ao atacar o corpuscular. O argumento de que ondas se atravessam (Princípio da Superposição) é o pilar da teoria de Huygens.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) O modelo corpuscular defendido por Newton…
    • Análise de Correspondência: Perfeito. O texto usa as palavras “flecha”, “bala” e “transporte de matéria” para descrever a teoria rival e mostrar que ela é absurda (“repugna bastante”), pois balas colidiriam, e a luz não colide.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) A crença na velocidade infinita da luz…
    • O Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
    • Por que está incorreta: O texto começa falando da “extrema velocidade”, mas o foco do argumento não é medir a velocidade, e sim a natureza material ou imaterial da luz baseada na interação entre raios. Huygens sabia que a velocidade era finita (graças a Roemer).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) A ideia defendida pelos gregos de que a luz era produzida pelos olhos.
    • O Diagnóstico do Erro: Anacronismo/Irrelevância.
    • Por que está incorreta: Essa é a teoria da “emissão visual” (raios saindo dos olhos). O texto fala de luz vindo “do objeto até nós”, ou seja, Huygens já aceita que a luz vem de fora (intromissão). O debate aqui é sobre o que vem (onda ou partícula), não de onde vem.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Huygens utilizou a ausência de colisões entre raios de luz (“flechas”) como prova cabal para derrubar o Modelo Corpuscular de Newton (Alternativa C), estabelecendo as bases para a compreensão da luz como uma onda que se sobrepõe sem se destruir.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🏹 Newton: Luz = Flechas (Batem e caem).
🌊 Huygens: Luz = Ondas (Cruzam e seguem).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conexão com a Física Quântica (A Revanche de Newton):
Huygens “ganhou” essa batalha no século XIX com Young (experimento da fenda dupla), provando que a luz é onda. Mas Newton teve sua vingança em 1905! Einstein provou, com o Efeito Fotoelétrico, que a luz também se comporta como partícula (Fóton) ao colidir com elétrons.
Hoje sabemos que ambos estavam parcialmente certos: a luz é Dual (Onda-Partícula). Ela viaja como onda (Huygens) e bate como partícula (Newton).

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