Questão 131, caderno azul do ENEM 2018 – Dia 2

Um projetista deseja construir um brinquedo que lance um pequeno cubo ao longo de um trilho horizontal, e o dispositivo precisa oferecer a opção de mudar a velocidade de lançamento. Para isso, ele utiliza uma mola e um trilho onde o atrito pode ser desprezado, conforme a figura.

Para que a velocidade de lançamento do cubo seja aumentada quatro vezes, o projetista deve 

a) manter a mesma mola e aumentar duas vezes a sua deformação. 

b) manter a mesma mola e aumentar quatro vezes a sua deformação. 

c) manter a mesma mola e aumentar dezesseis vezes a sua deformação. 

d) trocar a mola por outra de constante elástica duas vezes maior e manter a deformação.

e) trocar a mola por outra de constante elástica quatro vezes maior e manter a deformação.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Física Mecânica: Conservação da Energia Mecânica.
  • Dinâmica: Energia Potencial Elástica e Energia Cinética.
  • Álgebra Básica: Manipulação de equações, radiciação e proporção direta.

Tema/Objetivo Geral
Análise da transformação de energia em sistemas conservativos e a dependência matemática entre variáveis físicas (deformação e velocidade).

Nível da Questão: Médio.

  • Embora o conceito base seja fundamental (conservação de energia), a questão exige manipulação algébrica literal (sem números) e compreensão de relações de proporcionalidade (linear versus quadrática), o que costuma confundir quem tenta resolver apenas por intuição sem montar a fórmula.

Gabarito: Alternativa B.

  • Ao isolar a velocidade na equação de conservação de energia, percebe-se uma relação linear direta entre a deformação da mola e a velocidade final. Portanto, para quadruplicar a velocidade, basta quadruplicar a deformação.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A questão nos coloca na pele de um engenheiro de brinquedos. Temos um sistema simples: uma mola empurra um cubo. O nosso objetivo é muito específico: queremos que o cubo saia do trilho quatro vezes mais rápido do que sai atualmente.

Simplificando, imagine que você tem um estilingue. Você quer que a pedra saia muito mais rápida. A questão pergunta: “O que você mexe no estilingue? Você puxa o elástico mais para trás ou troca o elástico por um mais duro? E o quanto você mexe nisso?”

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Vamos igualar a energia armazenada na mola com a energia de movimento do cubo.
  • Vamos criar uma Fórmula da Velocidade para esse brinquedo, isolando o v.
  • Vamos testar matemática pura: o que precisa acontecer com as outras letras da fórmula para o v virar 4v?

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para resolver isso, precisamos entender como a energia se “metamorfoseia”. Vamos usar o conceito de Sistema Conservativo.

A Metamorfose da Energia (O Dossiê da Transformação)
Imagine que a energia é uma moeda de troca. O sistema não cria nem destrói essa moeda, apenas a troca de bolso.

Bolso 1: Energia Potencial Elástica (O Arco Tensionado)
É a energia guardada. Ela depende da rigidez da mola (k) e, muito importante, do quadrado da deformação (x).

  • Fórmula: Energia Elástica é igual a (k vezes x ao quadrado) dividido por 2.

Bolso 2: Energia Cinética (A Flecha em Voo)
É a energia do movimento. Ela depende da massa (m) e do quadrado da velocidade (v).

  • Fórmula: Energia Cinética é igual a (m vezes v ao quadrado) dividido por 2.

O Segredo Matemático (Raiz Quadrada)
A parte mais crítica dessa ferramenta é a matemática. Note que tanto o x quanto o v estão elevados ao quadrado nas suas respectivas fórmulas de energia.

  • Se x ao quadrado está de um lado e v ao quadrado está do outro, existe uma chance enorme de podermos “cortar” esses quadrados ao tirar a raiz, criando uma relação direta (linear). Vamos provar isso no próximo passo.

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora escrever a história matemática desse lançamento.

Fase 1: A Igualdade
Como não há atrito (o enunciado diz “desprezado”), toda a energia que estava na mola passa para o cubo.
Energia Elástica = Energia Cinética
(k . x²) / 2 = (m . v²) / 2

Fase 2: A Limpeza
Primeira coisa: temos “dividido por 2” dos dois lados. Podemos cortar.
k . x² = m . v²

Fase 3: Isolando o Alvo
Queremos saber sobre a velocidade (v). Vamos deixá-la sozinha. Passamos a massa (m) dividindo.
v² = (k . x²) / m

Fase 4: O Pulo do Gato (A Raiz Quadrada)
Agora, para tirar aquele quadrado do v, tiramos a raiz quadrada de tudo.
v = RaizQuadrada( (k . x²) / m )

Aqui a mágica acontece. Como o x estava ao quadrado lá dentro (x²), ele sai da raiz “limpo”. O k e o m continuam presos na raiz.
A fórmula final é: v = x . Raiz(k / m)

Síntese do Raciocínio:
Olhe para a fórmula final que deduzimos: v é igual a x multiplicado por uma constante.
Isso significa que a velocidade (v) e a deformação da mola (x) são diretamente proporcionais.

  • Se eu dobro o x, o v dobra.
  • Se eu triplico o x, o v triplica.
  • Se eu quero que o v seja multiplicado por 4, eu preciso multiplicar o x por 4.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨 Cuidado para não confundir Energia com Velocidade. Muitos alunos pensam assim: “A energia depende de x ao quadrado. Se eu quadruplicar o x, a energia aumenta 16 vezes! Então a velocidade vai aumentar muito mais!” O erro aqui é esquecer que a Energia Cinética também depende da velocidade ao quadrado. Se a Energia aumenta 16 vezes, a velocidade aumenta apenas 4 vezes (pois raiz de 16 é 4). Não tente fazer de cabeça sem a fórmula final, ou você vai cair na pegadinha dos quadrados.

Expectativa:
Estamos procurando uma alternativa que diga explicitamente para aumentar a deformação (x) em 4 vezes.


PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos analisar cada opção com nossa “Fórmula da Velocidade” em mãos: v = x . Raiz(k/m).

A) Manter a mesma mola e aumentar duas vezes a sua deformação.

  • Diagnóstico do Erro: Subdimensionamento.
  • Análise: Se dobrarmos a deformação (x vira 2x), a velocidade apenas dobra (vira 2v), pois a relação é linear. Queremos 4v.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) Manter a mesma mola e aumentar quatro vezes a sua deformação.

  • Análise de Correspondência: Perfeito.
  • Análise: Como provamos que v é diretamente proporcional a x, ao multiplicar a deformação por 4, a velocidade resultante será multiplicada automaticamente por 4. Bate exatamente com nossa dedução.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) Manter a mesma mola e aumentar dezesseis vezes a sua deformação.

  • Diagnóstico do Erro: Confusão com Potenciação.
  • Análise: O aluno que marca essa provavelmente pensou na relação de energia (x²), achando que precisava compensar o quadrado. Se aumentarmos x em 16 vezes, a velocidade aumentará 16 vezes. Isso é muito mais rápido do que o projeto pede.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) Trocar a mola por outra de constante elástica duas vezes maior e manter a deformação.

  • Diagnóstico do Erro: Ignorar a Raiz Quadrada.
  • Análise: O termo k está dentro da raiz quadrada na nossa fórmula. Se dobrarmos o k, a velocidade aumenta apenas pela Raiz de 2 (aprox. 1,4 vezes). Não chega nem perto de 4 vezes.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) Trocar a mola por outra de constante elástica quatro vezes maior e manter a deformação.

  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Parcial da Fórmula.
  • Análise: Se quadruplicarmos o k, a velocidade aumentará pela Raiz de 4. A raiz de 4 é 2. Ou seja, a velocidade dobraria. Nós queremos quadruplicar. Para quadruplicar mexendo na mola, teríamos que aumentar o k em 16 vezes (pois raiz de 16 é 4).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A resposta é a Alternativa B, pois em um sistema Mola-Massa conservativo, a velocidade de lançamento cresce linearmente com o quanto você puxa a mola.

Resumo-flash:
Deformação simples, velocidade simples: puxou o dobro, voou o dobro; puxou o quádruplo, voou o quádruplo.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Pense em acidentes de trânsito. A deformação da lataria de um carro numa batida é como a mola absorvendo energia. Se você bate a 80 km/h em vez de 40 km/h (dobro da velocidade), a energia destrutiva não é o dobro, é o quádruplo (por causa do v²). É por isso que o excesso de velocidade é tão fatal: a física pune ao quadrado.

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