Questão 126, caderno cinza (13) do ENEM PPL 2016

Maria Diamba

Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.

LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.

O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre:

A) o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino. 

B) a exploração sexual e a geração de novas escravas. 

C) a prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente. 

D) o prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África. 

E) o medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura, Poesia negra, Interpretação de texto, Escravidão e resistência

📝 Tema/Objetivo Geral:
Analisar como o poema representa a resistência feminina frente à opressão escravocrata, com foco na linguagem como instrumento de autonomia

📊 Nível da Questão:
Médio — A questão exige sensibilidade leitora para perceber como a linguagem, usada ora como estratégia de sobrevivência, ora como expressão íntima, revela o desejo de liberdade.

🎯 Gabarito:
A


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📄 A questão pede que se identifique de que forma a resistência de Maria Diamba é construída no poema, considerando sua trajetória de vida e relação com o sistema escravocrata.

🎯 O objetivo é reconhecer que a fala da personagem tem função estratégica e simbólica: primeiro como ferramenta de adaptação, depois como expressão de desejo por liberdade.

📌 É fundamental observar como o uso da palavra muda ao longo do poema e o que isso revela sobre a personagem.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

🗣 Fala como resistência: Na literatura afro-brasileira, a palavra muitas vezes representa poder, identidade e subversão.

🔗 A linguagem pode ser usada tanto para sobreviver dentro do sistema opressor quanto para romper com ele simbolicamente.

📌 No poema, a fala inicial é estratégica: Maria diz que sabe cozinhar para não apanhar, usando a palavra como ferramenta de sobrevivência.

🌪 Já no final, sua fala solitária diante da “ventania do Sudão” remete ao passado ancestral e ao desejo de romper com as amarras impostas.


Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

📖 O poema narra o percurso de Maria Diamba, mulher escravizada que, para se proteger, diz que sabe fazer bolos e assume diversos papéis.

👁‍🗨 Ela “não falou mais”, ou seja, se cala para suportar o sistema. Apenas diante da ventania do Sudão — símbolo da ancestralidade africana — ela volta a falar:

📌 “Falou que queria fugir / dos senhores e das judiarias deste mundo / para o sumidouro.”

🌍 Essa fala final é íntima, libertária e subjetiva — expressa seu desejo de escapar do sofrimento e reencontrar sua essência.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

📌 A trajetória de Maria Diamba é marcada por adaptação, silenciamento e resistência.

🔧 Ela usa a fala no início como uma ferramenta para evitar a violência, dizendo que sabe cozinhar.

🤐 Depois, o silêncio simboliza a submissão forçada, um tipo de apagamento da individualidade.

🌬 No fim, o reencontro com a ancestralidade desperta sua voz novamente — agora, não mais para servir, mas para expressar um desejo íntimo de liberdade e rompimento com a opressão.

✊ Isso mostra que a fala é seu instrumento de autonomia e resistência, mesmo que seja dirigida apenas a si mesma ou aos elementos da natureza.


Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

A) O uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
✅ Correta. A fala marca o início e o fim da trajetória de Maria: primeiro como estratégia de sobrevivência, depois como afirmação de liberdade e desejo de fuga.

B) A exploração sexual e a geração de novas escravas.
❌ Errada. O poema não menciona exploração sexual ou reprodução forçada.

C) A prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
❌ Errada. Cozinhar foi uma forma de proteção, não de ascensão.

D) O prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
❌ Errada. A ventania remete ao Sudão, mas não é descrita com prazer nem como plano de retorno, e sim como evocação simbólica.

E) O medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
❌ Errada. Apesar de haver sofrimento, o texto foca no desejo de liberdade, não no medo da morte como motivador principal.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

💬 O poema de Jorge de Lima retrata a trajetória de Maria Diamba como símbolo de muitas mulheres escravizadas: silenciadas, usadas, adaptadas — mas não vencidas. Sua fala final, solitária e rebelde, expressa seu desejo de romper com a opressão e reafirmar seu direito à liberdade.

🔍 Resumo Final: A alternativa correta é a letra A, pois é a transformação do uso da fala que evidencia a resistência de Maria Diamba — da submissão à afirmação do desejo de decidir o próprio destino, mesmo que isso signifique desaparecer no “sumidouro” para escapar das “judiarias deste mundo”.

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