Questão 126, caderno azul do ENEM 2015

Casa dos Contos

& em cada conto te cont
o & em cada enquanto me enca
nto & em cada arco te a
barco & em cada porta m
e perco & em cada lanço t
e alcanço & em cada escad
a me escapo & em cada pe
dra te prendo & em cada g
rade me escravo & em ca
da sótão te sonho & em cada
esconso me affonso & em
cada claúdio te canto & e
m cada fosso me enforco &

ÁVILA, A. Discurso da difamação do poeta. São Paulo: Summus, 1978.

O contexto histórico e literário do período barroco-árcade fundamenta o poema Casa dos Contos, de 1975. A restauração de elementos daquele contexto por uma poética contemporânea revela que

A) a disposição visual do poema reflete sua dimensão plástica, que prevalece sobre a observação da realidade social.

B) a reflexão do eu lírico privilegia a memória e resgata, em fragmentos, fatos e personalidades da Inconfidência Mineira.

C) a palavra “esconso” (escondido) demonstra o desencanto do poeta com a utopia e sua opção por uma linguagem erudita.

D) o eu lírico pretende revitalizar os contrastes barrocos, gerando uma continuidade de procedimentos estéticos e literários.

E) o eu lírico recria, em seu momento histórico, numa linguagem de ruptura, o ambiente de opressão vivido pelos inconfidentes.

Resolução em texto

Matérias Necessárias: História Literária (Barroco e Arcadismo), Poética Contemporânea

Nível da Questão: Médio (ENEM)

✅ Gabarito: E) o eu lírico recria, em seu momento histórico, numa linguagem de ruptura, o ambiente de opressão vivido pelos inconfidentes.

🎯 Tema/Objetivo Geral: Reconhecer como a poética atual revisita o Barroco-Árcade brasileiro para evocar a repressão política da Inconfidência Mineira.


🔹 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Retomar o Comando da Questão
📌 “…revelar que ____.”

1.2 O que está sendo pedido?
📌 Identificar qual traço do contexto barroco-árcade o poema contemporâneo retoma.

1.3 Objetivo Cristalino
📌 Mostrar que o poema recria o clima de perseguição e sofrimento dos inconfidentes, usando imagens de prisão, enforcamento e fragmentação.

1.4 Identificação de Palavras-Chave
📌 “escado me escapo”, “em cada fosso me enforco”, “em cada grade me escravo”, “Cláudio” (referência a Cláudio Manuel da Costa).

1.5 ✔ Pergunta de Atenção
Você notou que cada fragmento termina em algo que prende, escraviza ou enforca? Esse ciclo de aprisionamento é a pista para a opressão política!


🔹 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Barroco-Árcade Brasileiro
📌 No século XVIII, as vozes literárias — como Cláudio Manuel da Costa — usavam contrastes (dor e esperança), dualismo e alegorias de prisão para falar da Metrópole.

2.2 Poética Contemporânea de Ruptura
📌 Aqui, o poeta atual fragmenta palavras e linhas, mas retoma a sensação de aprisionamento do sujeito histórico.

❓ Dúvida Comum

“O poema é só jogo visual ou fala de fato histórico?”
✔ Há um jogo gráfico, mas cada fragmento carrega significado de cárcere e tortura, remetendo à repressão dos inconfidentes.

✔ Pergunta de Atenção
Repare que nem todas as palavras são completas — isso reforça a ideia de interrupção e violência contra o corpo político.


🔹 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

  • Os versos misturam símbolos (“&”) e palavras divididas para criar fragmentação.
  • Cada fragmento associa um lugar da casa (porta, grade, sótão) a um ato de prisão ou sofrimento (“me perco”, “me escravo”, “me enforco”).
  • E há menção a Cláudio, personagem real da Inconfidência.

🔹 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  1. A fragmentação do verso espelha a violação do corpo e da história.
  2. As imagens de prisão, perda e enforcamento reproduzem a opressão colonial.
  3. A escolha dos espaços internos da casa como símbolos mostra que não havia refúgio contra a ditadura imperial.
  4. Assim, o poema contemporâneo faz uma continuidade temática com o Barroco-Árcade, mas usa ruptura formal.

🔹 Passo 5: Resolução e Análise das Alternativas

A) A disposição visual reflete dimensão plástica em vez de realidade social.
❌ Embora seja plástica, o foco é o conteúdo histórico de opressão, não mero efeito visual.

B) Privilegia a memória da Inconfidência Mineira em fatos e personalidades.
❌ Há menção a “Cláudio”, mas não há narrativa de eventos ou biografias — o cerne é o sofrimento simbólico, não o resgate factual.

C) A palavra “esconso” demonstra desencanto e opção por linguagem erudita.
❌ “Esconso” é coloquial e o poema não se prende a erudições; sua força vem da violência da fragmentação.

D) O eu lírico revitaliza contrastes barrocos, gerando continuidade estética.
❌ Embora haja continuidade temática, o poema aposta em ruptura formal, não em simples revivalismo estético.

E) O eu lírico recria, em seu momento histórico, numa linguagem de ruptura, o ambiente de opressão vivido pelos inconfidentes.
✅ Correta — combina símbolos de cárcere e violência com fragmentação, evocando a repressão colonial do século XVIII.


🔹 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
📌 O poema Casa dos Contos usa a fragmentação e imagens de prisão para remontar o clima de perseguição dos inconfidentes, alinhando­-se ao Barroco-Árcade pelo conteúdo, mas inovando na forma.

6.2 Alternativa Correta
✅ E) o eu lírico recria, em seu momento histórico, numa linguagem de ruptura, o ambiente de opressão vivido pelos inconfidentes.

6.3 🔍 Resumo Final
Fragmentar versos é como escancarar as grades de uma cela: a poética contemporânea grita o horror da opressão colonial sem esquecer sua raiz barroca.

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