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Questão 126, caderno azul do ENEM 2012

Logia e mitologia

Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
Já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha da alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.

CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; São Paulo: Cosac & Naify,2002.

O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que:

A) o poeta utiliza uma série de metáforas zoológicas com significado impreciso.  

B) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metaforizam as vítimas do regime militar vigente.   

C) o “porco” , animal difícil de domesticar, representa os movimentos de resistência.   

D) o poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto.    

E) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os agentes que garantem a paz social experimentada.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira (Poesia Marginal dos anos 1970)
  • História do Brasil (Ditadura Militar, Anos de Chumbo)
  • Figuras de Linguagem (Metáfora, Alegoria)
  • Interpretação de Texto Poético

🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de um poema da “geração mimeógrafo” para interpretar as alegorias que representam a repressão da ditadura militar.

📊 Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a decodificação de uma linguagem poética altamente metafórica e a conexão com o contexto histórico da repressão na ditadura militar. É preciso entender que os animais citados não são literais, mas símbolos de opressão, o que demanda capacidade de interpretação e conhecimento do período.

✅ Gabarito: Alternativa D.

  • Resumo: O poeta utiliza uma série de imagens de animais de conotação negativa (“morcegos”, “hienas”, “porco belicoso”) e figuras de autoridade repressora (“centuriões”, “sentinelas”) para construir uma poderosa alegoria sobre o clima de opressão, violência e vigilância vivido no Brasil durante os “Anos de Chumbo” da ditadura.

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que…”

O que está sendo pedido? ❓
A questão pede para interpretarmos o poema dentro de seu contexto histórico (a ditadura militar nos anos 1970) e identificarmos qual alternativa descreve corretamente como o poeta usa a linguagem para representar esse período.

Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é decifrar as metáforas do poema. Quem são os “morcegos”, “hienas”, “porco belicoso”, “centuriões” e “sentinelas” nesse cenário de opressão política? Precisamos entender o que essas imagens simbolizam para escolher a afirmação correta.

🧠 Os animais citados (morcego, cabra maligna, hiena, porco) têm, culturalmente, uma conotação positiva ou negativa? Pensar nisso já dá uma grande pista sobre quem eles representam no poema: os opressores ou os oprimidos?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Poesia Marginal (ou Geração Mimeógrafo): Movimento poético da década de 1970, durante o auge da repressão da ditadura militar (“Anos de Chumbo”). Como a censura era intensa, esses poetas publicavam seus trabalhos de forma independente, muitas vezes em folhetos rodados em mimeógrafos. A poesia é marcada por um tom coloquial, irônico, crítico e pelo uso de metáforas e alegorias para “driblar” a censura e falar sobre a opressão.
  • Alegoria: É uma figura de linguagem que consiste em expressar uma ideia ou conceito abstrato (como a repressão, a violência, a vigilância) através de uma série de imagens concretas e simbólicas. O poema inteiro funciona como uma grande alegoria do Brasil de 1972.
  • Análise das Imagens do Poema:
    • “morcegos de pesadas olheiras”, “cabras malignas”, “cardumes de hienas infiltradas”, “um porco belicoso de radar”: São metáforas zoológicas que representam os agentes da repressão (torturadores, delatores, censores, militares). Os animais escolhidos têm conotações de escuridão, traição, oportunismo e violência brutal. A imagem do “porco belicoso de radar que sangra e ri” é particularmente forte, sugerindo a crueldade sádica e a vigilância tecnológica do regime.
    • “centuriões sentinelas do Oiapoque ao Chuí”: Reforça a ideia de um estado de vigilância e controle militar que se estende por todo o território nacional. Centuriões e sentinelas são figuras de autoridade militar e repressão.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O poeta, Cacaso, está dizendo: “Meu coração, em 1972, já não é mais ingênuo. Eu sei que o país está infestado de ‘bichos’ perigosos: os espiões (‘morcegos’), os agentes do mal (‘cabras malignas’), os traidores infiltrados (‘hienas’) e os militares violentos e sádicos (‘porco belicoso que sangra e ri’). A vida é sombria, e o país inteiro, de ponta a ponta, está sob a vigilância de soldados (‘centuriões sentinelas’).” A questão quer que a gente resuma essa forma de descrever a ditadura.

Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar cada alternativa e verificar se ela interpreta corretamente o significado simbólico das metáforas usadas por Cacaso para descrever o clima de opressão.


⚙️ Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Contexto: Década de 1970, auge da repressão militar (governo Médici).
  2. Linguagem: O poeta não pode dizer “torturadores”, “censores”, “espiões”. A censura o proíbe.
  3. A Solução Poética: Ele cria uma alegoria. Usa imagens de animais com forte carga negativa para representar os agentes da repressão. Essas imagens não são aleatórias; elas são escolhidas para causar um forte impacto emocional e transmitir a sensação de medo, nojo e violência.
  4. Decodificação:
    • “Morcegos”, “hienas”, etc. → Opressores, agentes do regime.
    • “Centuriões”, “sentinelas” → O aparato militar de vigilância.
  5. Conclusão: O poeta constrói uma representação do “momento de opressão” através de um conjunto de metáforas impactantes que formam uma alegoria.

Possível armadilha 🚨
A alternativa B é a principal armadilha. Ela inverte o significado das metáforas, sugerindo que os animais representam as vítimas. Isso é um erro de interpretação, pois os animais descritos são predadores, infiltrados e agressores, não vítimas.

Fechamento e expectativa ✨
Procuramos a alternativa que reconheça o uso de imagens fortes e simbólicas (alegorias) para caracterizar o período de repressão.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) o poeta utiliza uma série de metáforas zoológicas com significado impreciso.
Incorreta. O significado, dentro do contexto da ditadura, é bastante preciso: os animais representam os diversos agentes da repressão. Não há imprecisão.

🟡 B) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metaforizam as vítimas do regime militar vigente.
A que mais confunde. Incorreta. Como vimos, a conotação desses animais é negativa e agressiva, representando os opressores, não as vítimas.

🔴 C) o “porco” , animal difícil de domesticar, representa os movimentos de resistência.
Incorreta. A descrição do porco é “belicoso” (guerreiro, agressivo) e “de radar que sangra e ri”. É uma imagem de violência sádica e vigilância, claramente associada ao repressor, não à resistência.

🟢 D) o poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto.
Correta. Esta alternativa descreve perfeitamente a estratégia do poeta. Ele usa um conjunto de imagens fortes e simbólicas (as metáforas animais e militares) que, juntas, criam uma alegoria do “momento de opressão” com grande força expressiva.

🔴 E) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os agentes que garantem a paz social experimentada.
Incorreta. A “paz social” da ditadura era baseada na repressão e no silêncio forçado. Centuriões e sentinelas aqui são símbolos de controle e opressão militar, não de paz genuína. A leitura é irônica.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 🗒️
O poema de Cacaso, escrito durante os “Anos de Chumbo” da ditadura militar brasileira, utiliza uma linguagem cifrada para denunciar a violência e a vigilância do regime. Através de uma série de metáforas com animais de forte conotação negativa e imagens militares, o poeta constrói uma poderosa alegoria que caracteriza o clima de opressão da época, causando um forte impacto no leitor.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão 🔑
Lembre-se: a poesia da Geração Marginal dos anos 70 é a “poesia da fresta”. Como a “porta” da liberdade de expressão estava fechada pela censura, os poetas encontravam “frestas” usando metáforas, ironia e coloquialismo para expressar sua crítica e angústia.

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