E como manejava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntário e consciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como se desfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso conveniência. Também ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício, toda feita de sutilezas e grosserias, de expectativa e oportunidade, de insônia e submissão, de silêncios e rompantes, de anulação e prepotência. Conhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o grosseiro diante do inferior, o arrogante quando o poderoso em nada o podia prejudicar. Sabia desfazer situações equivocadas, e armar intrigas das quais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna se ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único, irrecuperável, irreversível, exige um estado de alerta para sua apropriação.
RAWET, S. O aprendizado. In: Diálogo. Rio de janeiro: GRD, 1963 (fragmentado).
No conto, o autor retrata criticamente a habilidade do personagem no manejo de discursos diferentes segundos a posição do interlocutor na sociedade. A crítica à conduta do personagem está centrada
A) Na imagem do títere ou fantoche em que o personagem acaba por se transformar, acreditando dominar os jogos de poder na linguagem.
B) Na alusão à falta de articulações e reflexos do personagem, dando a entender que ele não possui o manejo dos jogos discursivos em todas as situações.
C) No comentário, feito em tom de censura pelo autor, sobre as frases obscenas que o personagem emite em determinados ambientes sociais.
D) Nas expressões que mostram tons opostos nos discursos empregados aleatoriamente pelo personagem em conversas com interlocutores variados.
E) No falso elogio à originalidade atribuída a esse personagem, responsável por seu sucesso no aprendizado das regras de linguagem da sociedade.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Literário (Prosa)
- Análise de Personagem
- Figuras de Linguagem (Metáfora e Paradoxo)
- Análise do Discurso e Relações de Poder
🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar a crítica central do narrador a um personagem que utiliza a linguagem como ferramenta de manipulação social, focando na consequência dessa atitude para a sua própria identidade.
🎯 Nível da Questão: Difícil – O texto possui um vocabulário elaborado e uma estrutura sintática complexa. A crítica não é direta, mas construída sobre uma metáfora paradoxal (o “títere voluntário e consciente”), o que exige uma leitura atenta e uma alta capacidade de inferência para ir além da descrição do comportamento do personagem e captar o juízo de valor do autor.
✅ Gabarito: A – A alternativa está correta porque o cerne da crítica está na metáfora do “títere” (fantoche), que revela a consequência final da manipulação: ao acreditar que controla os outros, o personagem se transforma ele mesmo em um objeto, um boneco sem autenticidade, movido apenas pela conveniência.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Transcrição Essencial
“A crítica à conduta do personagem está centrada…”
📌 O que está sendo pedido?
A questão pede para que a gente encontre o ponto principal, o núcleo da crítica que o autor faz ao comportamento do personagem.
📌 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar como o autor descreve o personagem para entender não apenas o que ele faz, mas o que ele se torna ao fazer isso. A resposta está na avaliação que o narrador faz dessa transformação.
✔ Pergunta de Atenção
Você já conheceu alguém que parece ser uma pessoa diferente dependendo de com quem está falando? O texto explora o preço que se paga por essa habilidade: o que sobra de você mesmo quando você é apenas um conjunto de máscaras?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação Simples | Exemplo na Questão |
| Metáfora | Figura de linguagem que cria uma comparação implícita, transferindo o significado de uma palavra para outra. É a ferramenta central para a crítica neste texto. | A principal metáfora é a do títere (fantoche). O personagem é comparado a um boneco manipulado por cordéis, mas com uma reviravolta. |
| Paradoxo | Uma declaração que parece contraditória ou absurda, mas que contém uma verdade profunda. | A expressão “títere voluntário e consciente” é um paradoxo. Como um fantoche, que é por definição inanimado e controlado, pode ser “voluntário e consciente”? Essa contradição revela a essência do personagem. |
| Análise do Discurso | Estudo de como a linguagem é usada em contextos sociais para construir poder, identidade e relações. | O personagem é um mestre da análise do discurso: ele sabe usar “a palavra exata para o momento preciso” para se posicionar de forma vantajosa nas relações de poder. |
| Foco Narrativo (3ª pessoa onisciente) | O narrador conhece todos os pensamentos e sentimentos do personagem, podendo fazer julgamentos e comentários sobre sua conduta, como acontece neste trecho. | O narrador não apenas descreve as ações, mas também as julga, chamando a habilidade do personagem de “arte, mais artifício”. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
📌 Contextualização Simplificada
O texto nos apresenta um verdadeiro “camaleão social”. Esse personagem é um mestre em manipular a linguagem para se dar bem. Ele sabe ser humilde com um superior que pode lhe ser útil e arrogante com quem não pode prejudicá-lo. Ele é uma mistura de opostos: sutil e grosseiro, silencioso e explosivo. Ele sabe exatamente o que dizer e quando dizer. A grande sacada do autor, no entanto, é a comparação inicial: ele é um fantoche. Mas não um fantoche qualquer. Ele é um “títere voluntário e consciente”. Ou seja, ele escolhe ser um boneco, se desfazendo de si mesmo, porque acha que isso é vantajoso. Ele acredita que é o mestre das marionetes, mas, na verdade, ele próprio virou uma.
📌 Estratégia Geral
Nossa estratégia será:
- Identificar a habilidade principal do personagem (a manipulação discursiva).
- Analisar a metáfora central usada para descrevê-lo (o títere).
- Entender o paradoxo contido nessa metáfora para extrair a crítica principal do autor.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Passo a Passo Detalhado
- A Aparência de Domínio: O texto começa descrevendo a habilidade do personagem: “como manejava bem os cordéis de seus títeres”. A primeira impressão é de que ele é o manipulador, o mestre do jogo.
- A Revelação da Verdade: Imediatamente, o narrador vira o jogo: “ou ele mesmo, títere voluntário e consciente”. Aqui está a crítica. Ele não é apenas o mestre; ele é também, e principalmente, o fantoche. Ele se submete ao jogo do poder, desfazendo-se de sua autenticidade (“se desfazia de suas articulações e de seus reflexos”).
- A Natureza da Crítica: A crítica não é sobre o personagem ser capaz de mudar seu discurso. A crítica é sobre o que ele perde ao fazer isso. Ele se torna um ser sem substância própria, um conjunto de reações calculadas, um objeto (“títere”). Ele acredita que está no controle, mas sua existência é totalmente condicionada pelas conveniências externas. A crítica é a essa desumanização voluntária.
❓/✔ Possível armadilha
A armadilha é a alternativa D). Ela descreve corretamente o que o personagem faz (“emprega tons opostos nos discursos”). No entanto, a questão não pede uma descrição da conduta, mas a crítica centrada nessa conduta. A alternativa D é apenas a descrição do mecanismo, enquanto a alternativa A revela o julgamento de valor do autor sobre a consequência desse mecanismo: a transformação em títere.
📌 Fechamento e expectativa
O raciocínio nos leva a concluir que a crítica mais profunda do autor não está nas ações isoladas do personagem, mas na imagem que sintetiza sua condição existencial: a de um fantoche que se ilude pensando ser o mestre. A alternativa correta deve, portanto, focar nesta metáfora.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
📌 Listagem das Alternativas
A) Na imagem do títere ou fantoche em que o personagem acaba por se transformar, acreditando dominar os jogos de poder na linguagem.
B) Na alusão à falta de articulações e reflexos do personagem, dando a entender que ele não possui o manejo dos jogos discursivos em todas as situações.
C) No comentário, feito em tom de censura pelo autor, sobre as frases obscenas que o personagem emite em determinados ambientes sociais.
D) Nas expressões que mostram tons opostos nos discursos empregados aleatoriamente pelo personagem em conversas com interlocutores variados.
E) No falso elogio à originalidade atribuída a esse personagem, responsável por seu sucesso no aprendizado das regras de linguagem da sociedade.
📌 Justificativa Individual
- 🟢 (A) Correto. Esta alternativa captura perfeitamente o núcleo da crítica: a transformação do personagem em um “títere” (a consequência) e sua autoilusão de domínio (“acreditando dominar”).
- 🔴 (B) Incorreto. O texto afirma o oposto. Ele não tem “falta de articulações e reflexos” sempre; ele “se desfazia” delas “quando achava nisso conveniência”, o que demonstra um controle total, e não a falta dele.
- 🔴 (C) Incorreto. O uso de frases obscenas é apenas um exemplo do vasto repertório de manipulação do personagem. A crítica é ao todo, não a uma parte específica.
- 🔴 (D) Incorreto. Conforme explicado na armadilha, isso descreve o método do personagem, não a crítica central sobre o que ele se torna. Além disso, o uso não é “aleatório”, mas extremamente calculado.
- 🔴 (E) Incorreto. O autor não faz um “falso elogio” nem atribui “originalidade”. Ele descreve a habilidade como um “artifício” (um truque), com um tom claramente crítico e de censura.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio
O autor critica a conduta do personagem ao revelar que sua maestria em manipular a linguagem o transforma, paradoxalmente, em um objeto manipulado pelas circunstâncias. A metáfora do “títere voluntário” encapsula essa perda de autenticidade em troca de vantagens sociais.
📌 Gabarito Reafirmado
O gabarito correto é a alternativa A, pois ela identifica a imagem do “títere” como o centro da crítica do autor à condição do personagem.
🔍 Resumo Final para Revisão
Em textos literários críticos, procure a metáfora central. Ela quase sempre carrega o juízo de valor do autor e revela a consequência mais profunda do comportamento que está sendo descrito.